Percussão de alto impacto

texto Oscar D’Ambrosio

O universo da percussão é, acima de tudo, visceral. Os instrumentos musicais que integram esse mundo geram som por impacto, raspagem ou agitação.Isso pode acontecer com o auxílio de baquetas ou sem elas, numa gama que vai de tambores,  triângulos e pratos ao próprio corpo ou tábuas de madeira.

Referência nacional e internacional na área, o Grupo de Percussão do Instituto de Artes (IA) da Unesp, o Piap, tem como uma das bases de seu êxito funcionar como uma família desde o primeiro dia em que os calouros chegam à sala de aula. São apenas cinco vagas anuais, e os veteranos não admitem uma queda de nível do grupo. Trotes musicais – como exigir interpretações magistrais em prazos impossíveis – e brincadeiras nas viagens de ônibus integram professores e alunos.

 

Boudler, fundador e regente do Piap

 

Dirigido por John Boudler, o Grupo tem como principal diferencial estar em constante renovação, uma vez que é formado por alunos de graduação do instituto – quando eles se formam têm de deixar o Piap. Isso leva a uma dinâmica especial entre os participantes.

Todo exercício, desde o dia em que o aluno entra no curso de Percussão da Unesp, é um esforço rumo ao entrosamento. Os professores indicam possibilidades e oportunidades, mas são os alunos que têm de encontrar soluções e espaços para exercitar seu talento em busca de descobrir como sua individualidade pode auxiliar na composição da química do todo.

Há uma convivência diária e intensa entre Boudler, os outros dois professores do Piap, Carlos Stasi e Eduardo Gianesella, formados pelo IA, e os alunos. Musicalmente, existe um impressionante ecletismo. Em 2009, os 17 integrantes reú-nem pessoas de seis Estados, do Distrito Federal e do Peru.

O Piap não se limita à execução de peças musicais. A pesquisa de performances, com ou sem partitura, é uma constante. Inclui amplo mergulho em indagações sobre tipos de pele dos instrumentos ou de baquetas usados no passado. A discussão do repertório segue a mesma direção.

Pesquisa, diversidade e constante renovação são os segredos da escola que forma talentos para as principais orquestras brasileiras

Além de uma retomada de clássicos, Boudler está sempre buscando novos compositores internacionais e nacionais – e isso inclui os estudantes do IA. Uma preocupação é reunir obras inéditas para fazer as primeiras audições mundiais, o que constitui um desafio para professores e alunos.

A trajetória do diretor se confunde com a do Piap. Nascido em Buffalo, Nova York, EUA, foi levado pela mãe, aos nove anos, para realizar um curso de verão de percussão. Começou assim uma carreira que o levou a vir, em 1978, para atuar como timpanista da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a Osesp. Chegou aqui com um grupo de músicos norte-americanos, mas somente ele permaneceu no Brasil. Naquele mesmo ano, fundou o Piap.

O primeiro ano de existência do Grupo foi somente de recrutamento de alunos e ensaios. O concerto inaugural ocorreu em 1980, ainda na sede do IA em São Bernardo do Campo. Depois, o instituto passou pelo bairro do Ipiranga, em São Paulo, e, desde este ano, realiza suas atividades no novo câmpus da Barra Funda.

O primeiro grande momento do Piap  foi em 1986, ao receber o Prêmio Eldorado de Música. Era uma conquista marcante por ser um grupo de alunos que vencia concorrendo com competidores que adotavam a voz ou instrumentos bem mais tradicionais, como piano ou violino.  O resultado foi uma viagem internacional aos Estados Unidos e a gravação de um LP.

 

 

Outro momento de gala foi ter recebido a encomenda do diretor Ulysses Cruz para fazer a trilha sonora de Péricles e o príncipe de Tiro, de Shakespeare, e interpretá-la ao vivo. Foram quatro meses de apresentações em São Paulo – e viagens para o Rio de Janeiro e Portugal – , além dos prêmios Mambembe e da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA) em 1995.

Os mais de 70 músicos formados pelo Piap desde 1978 estão disseminados por diferentes orquestras e instituições. Eles compõem todo o naipe de percussão da Osesp, quase toda a Banda Sinfônica do Estado de São Paulo e metade da Orquestra Sinfônica Brasileira do Rio de Janeiro, além de atuarem em locais como Santo André, Tatuí, Santos, Cubatão e diversas filarmônicas do País.

Há ainda formados que lecionam na própria Unesp, além de na USP, na Unicamp e nas universidades federais de Minas Gerais e do Pará. Ao todo, são 20 mestrados, sete doutorados e uma livre-docência de ex-alunos:  o balanço acadêmico de um processo em que os estudantes são levados a viver em harmonia com a arte que escolheram.

Por isso, em cada apresentação – com um orgulho nada dissimulado, fruto de dedicação, estudo e prática – o grito de guerra de professores e alunos é ouvido. À voz de comando “Grupo!”, de Boudler, os integrantes respondem “Piap!”. O entusiasmo nessa manifestação é o maior prêmio que o Grupo dá a si mesmo ao longo de sua trajetória.

 

 

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