Insetos criminalistas

Moscas podem dizer onde, quando e como uma pessoa morreu. Para traduzir essa informação, os pesquisadores precisam pajear os bichinhos e ter paciência de monge

texto Ricardo Bonalume Neto

Existem  biólogos que trabalham com bichos “fofinhos”, como pandas e golfinhos. Outros estudam animais perigosos e imponentes, como leões e tubarões. Claudio José Von Zuben, 42, do Instituto de Biociências do câmpus de Rio Claro da Unesp, pesquisa a biologia de moscas varejeiras e outros insetos necrófagos – isto é, que se alimentam de cadáveres e de carne em putrefação.

“Por que escolhi moscas, com tanto bichinho bonitinho por aí?”, começa a explicar o pesquisador. “Eu queria trabalhar com organismos vivos e estava então na Parasitologia da Unicamp. E havia um grande interesse em moscas exóticas, invasoras, que estavam chegando ao país em navios em Santos e Paranaguá nos anos 1970.”

 

COLEÇÃO ENTOMOLÓGICA
Claudio Von Zuben apresenta gaveta com varejeiras comuns em cadáveres

 

Moscas não são apenas insetos irritantes. São um problema de saúde pública, são pragas agrícolas. Elas podem transportar patógenos nas patas. Algumas causam “bicheiras”, nome popular da miíase cutânea (infecção da pele por larvas). Seu estudo, portanto, é fundamental, ainda mais em um país que tem uma biodiversidade tão grande de insetos como o Brasil.

As moscas constituem ainda um outro atrativo para um cientista. São as principais estrelas de uma área relativamente nova no Brasil, a entomologia forense. O primeiro simpósio brasileiro sobre o assunto foi realizado em 2007, na Unicamp.

ENTRE LARVAS
Equipe tem de conhecer bem os estágios de desenvolvimento

 

A presença de insetos necrófagos em um cadáver pode dar pistas valiosas sobre a hora da morte ou o local do crime, que não necessariamente é o mesmo onde o corpo foi encontrado. A causa e as circunstâncias da morte podem ser entendidas com pistas fornecidas pela fauna cadavérica. Por exemplo, substâncias presentes no morto podem afetar o desenvolvimento dos insetos que dele se alimentarem, acelerando ou retardando seu crescimento.

Esta área de pesquisa é conhecida como entomotoxicologia. Von Zuben e mais quatro colegas – inclusive um dos pioneiros da entomologia forense no país, Arício Xavier Linhares, da Unicamp – publicaram recentemente um artigo emblemático na revista Journal of Forensic Sciences. Eles demonstraram como o butilbrometo de escopolamina – comercializado como Buscopan – retardou o desenvolvimento de larvas de moscas-varejeiras azul-metálicas da espécie Chrysomya megacephala.

 

SINFONIA DE ZUMBIDOS
Sala com gaiolas permite a manutenção dos insetos adultos

 

Doses maiores da droga, usada para tratar espasmos do trato gastrointestinal, retardaram ainda mais esse desenvolvimento, além de tornar as larvas menores. Se o consumo desse tipo de medicação não for levado de conta na hora de analisar as larvas retiradas de uma vítima de assassinato, por exemplo, pode-se deduzir erroneamente que o crime ocorreu depois do que de fato.

O cotidiano da equipe inclui atividades certamente exóticas para leigos, como usar uma sofisticada balança eletrônica para pesar larvas de mosca. Uma larva das gordas pode ter 9 milímetros de comprimento e pesar 80 miligramas.

 

DUPLA DINÂMICA
‘Arena’ de dispersão de larvas e as duas espécies mais típicas de moscas

 

“Moscas têm sensores sensíveis para perceber cheiro”, diz Von Zuben. São elas que chegam primeiro a um cadáver. Algumas se alimentam, outras põem ovos, outras, larvas. Depois vêm os besouros. Conhecendo a sequência da “colonização” do cadáver, verificando o estágio de desenvolvimento de larvas e pupas, é possível descobrir o chamado “intervalo pós-morte”.

Isso tudo significa que o laboratório onde Von Zuben e seus colegas e alunos trabalham não é para quem tem estômago fraco.

 

CHEIRO DE AMÔNIA
Câmaras climáticas são usadas para o cultivo de pupas e larvas

 

Eles usam várias salas nas instalações do “jacarezário” do câmpus. Como diz o nome, na área externa ficam baias para jacarés e tartarugas. No interior, convém não abrir portas ao acaso. Uma delas é de uma sala repleta de cobras.

Outro ambiente é forrado de gaiolas com telas para a manutenção de moscas adultas. No verão, elas ficam cheias. Cada uma pode ter até 400 moscas. Abrir a sala e acender a luz é suficiente para causar a mãe de todos os zumbidos.

Em uma terceira sala há o que parecem ser geladeiras. Na verdade são câmaras climáticas onde se desenvolvem larvas e pupas de moscas. Ali um fortíssimo cheiro de amônia deixa tonto quem entra desavisado. Mesmo Von Zuben torce o nariz.

As câmaras são necessárias para conhecer com precisão os estágios de desenvolvimento dos insetos. É mais fácil identificar os adultos. Por isso um perito que coleta ovos, larvas ou pupas precisa que eles amadureçam controladamente.

O prédio principal do Departamento de Zoologia inclui uma outra sala frequentada pela equipe – e que também afeta o visitante pelo cheiro forte, desta vez de naftalina. A coleção entomológica é fundamental para o biólogo reconhecer os diferentes insetos, e a naftalina impede que sejam atacados por formigas.

É preciso ser capaz de distinguir, por exemplo, entre uma mosca da espécie Chrysomya albiceps e outra da espécie Chrysomya megacephala – duas das mais comuns nos cadáveres no Brasil e boas indicadoras de tempo de decomposição.

Os insetos são espetados com alfinetes em placas de isopor e classificados em gavetas – ou colocados em frascos com álcool, se são muito pequenos. A equipe de Von Zuben visita muito uma gaveta em particular, que inclui duas famílias de varejeiras muito comuns em cadáveres, Calliphoridae e Sarcophagidae.

Porcos e canaviais
Estômago forte é também requisito para um tipo de estudo de campo. Para investigar o processo de colonização de uma carcaça, Von Zuben e seus colegas colocam porcos mortos ao relento para responder a perguntas como: Quais as espécies que colonizam o corpo? Há competição entre elas? Como se dispersam depois da alimentação? Depois da fase de larva, as pupas se enterram no solo, mas a que distâncias?

Um membro da equipe, Leonardo Gomes, agora no Departamento de Biologia, é especialista em microscopia com insetos de interesse forense. Ele notou que o porco era consumido, até ficarem apenas os ossos, por cerca de 60 espécies de insetos, praticamente o dobro do que ocorre em um país de clima temperado.

Os pesquisadores também investigam esse processo em locais favoráveis a “desovas” de corpos. “São Paulo é um grande canavial”, lembra Von Zuben. Por isso um dos estudos envolve checar o que acontece com um cadáver nesse ambiente. “Nosso primeiro porco no canavial foi roubado”, conta, rindo. “Levaram até a gaiola.”

O resultado preliminar acaba de ser publicado na revista Medical and Veterinary Entomology pelos alunos Leonardo Gomes, Guilherme Gomes e Ivan César Desuó. No trabalho eles mostram que a varejeira Chrysomya albiceps foi uma visitante frequente nos primeiros estágios da carcaça, fresca e já inchada, enquanto o besouro Necrobia rufipes aparecia em estágios mais avançados de decomposição.

“O fato de que variações climáticas influenciam a ocorrência de espécies de insetos, e de que certos grupos ocorrem em regiões específicas, pode ajudar a resolver crimes por meio da amostragem da fauna local de insetos”, explicam os autores. Ou seja, um corpo encontrado com insetos atípicos da região significa que o local do crime é outro.

A equipe trabalha ainda com linhas básicas de pesquisa. Eles estudam as curvas de crescimento larval e o comportamento de oviposição e fazem levantamentos da entomofauna necrófaga. O grupo não tem técnicos auxiliares, por isso todos se revezam no cuidado com as moscas.

Para trabalhar com tanto material de cheiro desagradável, higiene e organização são essenciais. Em uma parede está pendurada uma lista com as “10 Regras do Laboratório”. As de número 7, 8, 9 e 10 são a mesma: “manter o laboratório limpo e organizado!!!!!”, com variado número de pontos de exclamação.

Pupas em dispersão
Em outra área de pesquisa, os cientistas estudam a dispersão das pupas no solo, tarefa que, dizem eles, envolve a paciência de um monge tibetano. Uma “arena” circular é construída com um substrato de serragem para as pupas se enterrarem. Vasculhar o material para localizá-las exige tempo e dedicação.

Von Zuben, Leonardo Gomes e Marcos Rogério Sanches publicaram um estudo sobre “dispersão larval radial pós-alimentar” da mosca Chrysomya megacephala na Revista Brasileira de Entomologia. Em dois experimentos com média de 249 pupas cada, eles contaram 180 delas concentradas entre 7 cm e 18 cm de profundidade, dado útil para ajudar a determinar um eventual intervalo pós-morte.

Paciência também foi exigida por outro estudo, publicado na revista Journal of Insect Science por Leonardo Gomes, Guilherme Gomes e Von Zuben, sobre o efeito da temperatura em larvas de Chrysomya albiceps e Lucilia cuprina. Eles incubaram  800 larvas das duas espécies em diferentes temperaturas (15°C, 20°C, 25°C e 30°C). Determinaram peso, sexo e profundidade de enterramento de cada pupa. E notaram que as larvas de L. cuprina se enterravam mais profundamente em temperaturas tanto mais altas quanto mais baixas, enquanto que as de C. albiceps se enterravam menos em temperaturas extremas.

A massa corporal das larvas de L. cuprina diminuía à medida que aumentava a temperatura, enquanto o peso das pupas de C. albiceps aumentava até chegar a 25°C e depois diminuía abruptamente na temperatura mais alta. O maior peso da L. cuprina ocorria na temperatura de 15°C, enquanto o máximo da C. albiceps era atingido aos 20°C.

Além de tanta paciência e dedicação, bom humor é requisito do laboratório, que tem uma lista de compras certamente original. Carne moída para alimentar as moscas é um item básico. Mas a lista inclui até meia-calça feminina, material ideal para tampar potes com larvas. Quando não há mulheres no grupo de pesquisa, a compra deste tipo de material tende a ser um pouco embaraçosa.

______________

Deixe uma resposta

*