Duas comemorações e um desafio

Há 400 anos, quando Galileu modificou a recém-inventada luneta e a apontou para o céu, viu o que nunca ninguém jamais tinha visto ou ousado ver. Mostrou que o homem é capaz de produzir seu próprio conhecimento e que não precisa da Igreja ou da Bíblia para lhe dizer como a natureza funciona. Não à toa, revolucionou a concepção de mundo e lançou as bases da ciência moderna. Dois séculos e meio depois foi a vez de outro abalo na imagem que a humanidade tinha de si mesma. Darwin em seu A Origem das Espécies revelou que todos os seres vivos descendem de um ancestral comum surgido em um tempo incompatível com as narrativas bíblicas. E derrubou a necessidade de um criador como agente desse processo.

Lançar uma revista de ciência em um ano com essas duas comemorações é, portanto, motivo de orgulho e de empolgação, e também um desafio. Porque quatro séculos se passaram, e o espírito da ciência moderna ainda enfrenta bolsões de obscurantismo. Porque ainda vemos escolas defendendo o ensino de noções religiosas como se fossem alternativa a ‘apenas’ uma teoria científica que na verdade se tornou cada vez mais robusta ao longo desses 150 anos. Porque permanece no país o analfabetismo científico e porque, se a ciência nasceu para iluminar, ela também tem um certo “lado negro da força” ao defender interesses comerciais.

Unesp Ciência nasce com uma agenda ousada. Vinculada a uma das mais importantes universidades do Brasil, tem o objetivo de fazer um jornalismo científico que se torne um trabalho de referência. Para começar, vai, claro, trazer notícias relevantes sobre a ciência que vem sendo feita na universidade, mas sem se ater aos portões dos 23 câmpus da instituição.

Nosso compromisso aqui é fazer um jornalismo crítico, pluralista, atento às contradições do próprio processo científico e equilibrado entre as três grandes áreas do conhecimento (exatas, humanas e biológicas). Que vá muito além do paper publicado no journal de peso, que conte histórias de pesquisadores e alunos em seu dia-a-dia, com seus pequenos passos, erros e superações, com lama até a cintura. Com a curiosidade de buscar o que nunca ninguém viu, ou ousou ver.
Bem-vindo a bordo da aventura que é fazer ciência e escrever sobre ela.

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Giovana Girardi
editora chefe

 

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