A luz própria do ‘buldogue’ de Darwin

Compilação de três textos de Thomas Huxley ilustra a campanha do naturalista britânico em prol do saber científico

texto Pablo Nogueira

O britânico Thomas Henry Huxley (1825-1895) entrou para a história da ciência sob o epíteto de “cão-de-guarda de Darwin”, devido a sua intensa atuação como divulgador e defensor da Teoria da Evolução. Mas, em sua época, tornou-se bastante conhecido por ter desempenhado outros papéis importantes. Naturalista autodidata, que, assim como Darwin, passou anos explorando o planeta como tripulante de um navio inglês, aos 26 anos já era um pesquisador condecorado pela Royal Society, a mais tradicional sociedade científica do mundo. Ao longo de sua vida, foi reitor de uma universidade, presidente de três instituições científicas importantes (entre elas, a própria Royal Society) e autor de um livro de divulgação científica que alcançou 30 edições ao longo de todo o século 19. Ou seja, sua atuação como defensor do pensamento de Darwin não se devia a qualquer escassez de ideias próprias.

Este Escritos sobre Ciência e Religião traz três textos nos quais Huxley se revela um pensador ao mesmo tempo erudito e “pé-no-chão”. “Sobre a conveniência de se aperfeiçoar o conhecimento natural“ e “Ciência e cultura” são transcrições de palestras publicadas posteriormente, o que explica o tom pragmático que adquire a argumentação em alguns momentos.  “O natural e o sobrenatural” era originalmente parte do prólogo de uma coletânea de ensaios que Huxley publicou no final da vida.

“Ciência e cultura” é o mais pitoresco por tratar de uma polêmica que, para nossa época, soa datada. Nele, o naturalista argumenta em favor da inclusão das disciplinas científicas no currículo das escolas britânicas. Ele se opõe à visão então prevalecente, que acreditava que a verdadeira educação deveria focar-se no desenvolvimento do conhecimento literário clássico, abrangendo o conhecimento do latim, do grego e das maiores obras dos escritores e pensadores greco-romanos.  Huxley reconta a origem do fascínio do pensamento europeu pela Antiguidade clássica para em seguida argumentar que “após ter aprendido tudo o que a Antiguidade grega, romana e oriental ensinou e disse […] não é evidente que tenhamos estabelecidos fundamentos suficientemente amplos para a crítica da vida que constitui a cultura”. Ele diz que, para quem quer ser cientista, médico ou quem pertence à classe trabalhadora do país, a educação clássica “é um erro” e se diz “feliz em ver a educação e a instrução meramente literárias excluídas do currículo” de uma certa escola profissionalizante.

Suas análises sobre a origem da religião anteciparam ideias que só seriam completamente desenvolvidas no século 20. Uma delas é a de que religião seria uma espécie de conhecimento sobrenatural, derivado de uma “mentalidade selvagem” que remonta aos primórdios da humanidade

Mas reconhece o valor da cultura literária na formação do indivíduo e propõe que ela seja atendida através de classes de línguas modernas, inclusive o próprio inglês. “Se um inglês não puder adquirir cultura literária a partir de sua Bíblia, seu Shakespeare ou seu Milton, não creio que isso lhe possa ser dado pelo mais profundo estudo de Homero.”

A relação entre religião e ciência é tema dos dois outros ensaios. Os famosos ataques às crenças estão lá, mordazes e lógicos. Ao examinar a ideia protestante de retirar da Igreja o poder de juiz em assuntos de natureza espiritual, outorgando-o a um cânon bíblico tido como infalível, Huxley lembra que a criação deste cânon deve-se à mesma igreja cristã. E identifica um argumento circular onde “a infalibilidade da Bíblia é atestada pela infalibilidade da igreja cuja infalibilidade é atestada pela infalível Bíblia – argumento absurdo demais para mais séria consideração”, fulmina em “O natural e o sobrenatural”.

Suas análises sobre a origem da religião anteciparam ideias que só seriam completamente desenvolvidas no século 20. Uma delas é a de que religião seria uma espécie de conhecimento sobrenatural, derivado de uma “mentalidade selvagem” que remonta aos primórdios da humanidade. À ciência caberia justamente operar, nas mentalidades humanas, a substituição do conhecimento sobrenatural pelo “conhecimento natural”.

Mas quando falava da ciência, Huxley adotava um tom mais fervoroso, atribuía a ela um papel emancipatório para o futuro da humanidade (veja trecho ao lado).

Não é coincidência que estas palavras tenham originalmente sido ditas numa conferência em um domingo, ao som de música sacra e anunciada formalmente como “sermão laico” proferido por Huxley. A emoção que fluía de seu entusiasmo pela ciência o colocou muito mais próximo do “sentimento” religioso do que muitos dos crentes que, em sua época, atacaram suas ideias.

 

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