O contraditório no jornalismo científico

texto Maurício Tuffani

Em seu livro Conhecimento Público, de 1968, o físico britânico John Ziman (1925-2005) destacou que a ciência moderna teve início pouco depois do surgimento da imprensa. Não a imprensa no sentido estrito e hoje predominante do jornalismo, mas no da impressão, da invenção gutemberguiana, que no século 15 rompeu definitivamente o círculo fechado em torno do conhecimento escrito. A partir desse recurso revolucionário, a recém-nascida ciência moderna não poderia ter deixado de se estruturar em função dele. Muito mais do que ser registrado, o conhecimento científico passou a ter de ser comunicado. Centenas de anos depois, no final do século 19, os cientistas já haviam estabelecido entre si a comunicação por meio de publicações destinadas a especialistas, ao passo que o jornalismo se tornara uma atividade empresarial voltada para o público em geral.

Em meio aos profissionais das diversas especialidades jornalísticas, os repórteres de ciência consolidam, no início do século 20, a imagem de tradutores da linguagem especializada dos cientistas, cada vez mais inacessível para os leigos. “Verdadeiros descendentes de Prometeu, os escritores de ciência pegam o fogo do Olimpo científico — os laboratórios e as universidades — e de lá o trazem para baixo, para o povo”, disse nos anos 1930 William Laurance, jornalista que cobria ciência no New York Times. (Citado por Dorothy Nelkin em Selling Science: How the press covers science and technology. Nova York: W. H. Freeman & Co., 1985.)

Essa criativa metáfora reflete o imaginário da sociedade não só sobre a distância entre o discurso científico e a linguagem comum, mas também sobre a posição dos cientistas como deuses, acima dos “mortais”. Porém, é consenso entre vários estudos que essa é uma concepção ultrapassada de divulgação da ciência. (Fapesp, Indicadores de Ciência, Tecnologia e Inovação em São Paulo 2004, vol. I, p. 12-8.) De um modo geral, no plano do ensino de gradua-
ção do jornalismo, prevalece o objetivo pedagógico de substituí-la por uma prática jornalística ancorada na contextualização das atividades científicas, destacando seus problemas, seus métodos e seus aspectos históricos, sociológicos e filosóficos.

A falta de um contraponto faz a ciência parecer detentora de verdades absolutas

A convicção de tantos especialistas de que o modelo de divulgação científica é uma visão ultrapassada mal se estendeu além do mundo acadêmico onde ela foi construída, pois surtiu pouquíssimos efeitos na prática jornalística na cobertura de ciência e tecnologia, uma vez que nela persiste hegemonicamente aquela concepção superada.

O papel passivo apontado como característica da sociedade no modelo de divulgação científica de Laurance aplica-se, em certa medida, a grande parte dos jornalistas que cobrem ciência, pois sua função mediadora é vista como nula no fluxo vertical da informação. E isso se deve não só à omissão no plano da contextualização das notícias de ciência, mas também à falta do contraditório. É como se a ciência fosse detentora de verdades absolutas e não comportasse diferentes visões sobre seus temas. Com isso, o jornalista abre mão não só de sua função mediadora, mas, acima de tudo, de seu dever profissional de lidar com diferentes versões. Quem perde com isso é o leitor, ouvinte ou telespectador, que recebe uma informação prejudicada para promover uma compreensão crítica do processo relacionado ao fato jornalístico.

Os cientistas, no entanto, sabem que as conclusões de suas pesquisas não são definitivas. Sabem também que grande parte de seus trabalhos envolve diferenças de interpretações, e geralmente os bons papers fazem menção a trabalhos baseados em visões conflitantes com a do autor. Mas raros são os jornalistas que lidam com artigos publicados em periódicos científicos e têm condições de identificar outras fontes que possam oferecer versões diferentes e até mesmo divergentes da pesquisa que é o tema central de sua reportagem.

Cabe à sociedade exigir uma cobertura jornalística de ciência pautada pelo mesmo preceito ético de independência que deve reger a atividade da imprensa. Na verdade, essa é uma cobrança que precisa cada vez mais ser feita em relação ao jornalismo como um todo. Mas isso é assunto para outra conversa.

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