O acumulador de imagens

texto Oscar D’Ambrosio

 

O ateliê de Alcindo Moreira Filho, em Monte Alegre do Sul, no circuito das estâncias turísticas paulistas, é um retrato de sua obra. A  acumulação de objetos e de pesquisas visuais aponta para aquilo que o artista plástico tem de melhor: a capacidade de enxergar arte onde muitos veem apenas sucata ou objetos usados sem mais utilidade.

Em 2010, ao completar 60 anos de vida e 35 como professor do Instituto de Artes da Unesp, câmpus de São Paulo, terá um momento crucial para refletir sobre uma poética que se distingue por manter um constante movimento mental, num processo de construção ininterrupto em que o barco da criação conhece inúmeros pontos de partida, mas busca sofregamente o cais de chegada.

 

Trabalhos com alfinetes e ímãs e coleção de miniaturas de cadeiras

 

O próprio artista define seu processo criativo como sendo de acumulação. Trata-se de uma meia-verdade. Há nele muita construção e pesquisa estética para não se repetir, nem aceitar a mesmice.

Nascido em 1950, em Caconde (SP), o artista passou por Campinas e Rio de Janeiro antes de se radicar na capital paulista, onde trabalhou nas mais diversas atividades, inclusive em lavanderias. Graduou-se em Artes Plásticas pela PUC-Campinas e, entre 1978 e 1985, passou por Espanha, Inglaterra e Itália, frequentando escolas e ateliês como bolsista do CNPq (Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento).

A prática cotidiana e o mestrado e doutorado na ECA-USP levaram Alcindo a um misto de experiência artística e de atuação como professor universitário. Suas reflexões com e sobre os mais diversos materiais, de filtros de ar a ossos de animais, de ímãs a alfinetes, questionam o que significa ser, estar e se apropriar do mundo.

Ao longo de numerosas exposições individuais e coletivas no Brasil e no exterior, o artista parece ter se exercitado sobre um grande e único tema em diversas modulações: a identidade. Experimentar é a palavra de ordem. Para Alcindo, ser professor e artista é uma agradável roda da fortuna, pois vê as atividades criadora e educadora como necessidades afins.

Ambas se fundamentam na capacidade de conhecer códigos e trabalhar com eles em nome de um dos maiores bens da arte: a capacidade de comunicar mensagens a partir de obras com diferentes linguagens e do desenvolvimento de técnicas que proponham novas formas de ler o mundo.

O artista Alcindo Moreira Filho deixa aberta em sua refinada obra de justaposição uma grande pergunta: qual é o horizonte de ser criativo?

É constante em seu trabalho o reaproveitamento e a reciclagem de objetos usados. Torna-se assim um demiurgo contemporâneo, ao dar nova vida a coisas aparentemente mortas por meio de processos de ressignificação, caracterizados pela apropriação de elementos e por sua nova contextualização.

A habilidade de trabalhar com os mais diversos materiais, sejam eles fôrmas de sapato ou lixas industriais, é o diferencial de Moreira. Neste processo de desvendamento desses materiais, de aproximações e distinções, existe um exercício constante de sensibilidade, inteligência e ética. Cada elemento plástico tem sua identidade, e saber respeitá-la é um desafio.

 

Os mais variados materiais tornam-se esculturas

 

Há no artista a elegância refinada no acabamento primoroso dado a cada obra. Juntar materiais distintos não significa meramente justapor, mas criar unicidade pelo diálogo entre cores e texturas. Isso é possível quando o artista, de maneira consciente ou não, interioriza, na sua prática, a ideia da consciência da efemeridade das coisas e a serena tristeza de vê-las passar sem ser tomado pela dor, mas sim pelo sentido da transitoriedade.

O senso de composição de Moreira é sua principal qualidade plástica. Sua arte, realizada com dedicação e talento, derruba distâncias entre o possível e o impossível. Instaura um reino onde a verdade plástica, presente nos elementos constitutivos de cada trabalho, prevalece, numa sutil aliança entre o conhecimento técnico apurado dos mestres do passado e a ousadia do fazer contemporâneo.

Seja no desenho de formas geométricas, seja em café, panos, picaretas, dinheiro antigo, vestimentas, madeira, ferros ou nos mais variados utensílios, como as cadeiras em miniatura que coleciona, a arte de Moreira deixa aberta a indagação: qual é o horizonte de ser criativo?
Seus parâmetros de elaboração e reflexão são os mesmos da criança em seu processo de aprendizagem: contemplar tudo atentamente, decompor as partes e interagir com o todo sob perspectivas inovadoras.

Essa atividade, pelo seu caráter questionador, já é arte – e das densas, aquelas que nos deixam com a testa franzida de perguntas e a alma ansiosa por respostas. Da conjugação das atividades de artista e professor, surge um ser humano completo, um acumulador de imagens, pronto a cerzir os nós aparentemente desatados da vida, sempre pronto a ser o que ainda não é, mas não sendo o que se espera que ele seja.

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