Quando a ciência omite as contradições

texto Maurício Tuffani

 

Alguns pesquisadores disseram que meu artigo anterior teria sido mais justo se tivesse mostrado que não só jornalistas omitem visões conflitantes sobre as descobertas científicas, como muitas vezes cientistas também enveredam por apresentar a ciência como se ela parecesse detentora de verdades absolutas. Na verdade, não se tratou de ignorar a parte do problema que diz respeito aos cientistas, mas de cobrar da imprensa o cumprimento de um de seus preceitos éticos e técnicos mais básicos. E, para não deixar o assunto esfriar, já que esta coluna dá as caras só uma vez por mês, vamos ao assunto.

Inicialmente, vale a pena abordar um importante aspecto da imagem que a sociedade contemporânea tem dos cientistas. É o que mostrou uma pesquisa nacional realizada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) em 2007. No levantamento, a comunidade acadêmica foi o grupo mais bem avaliado em relação ao aspecto da credibilidade pública: apenas 2% dos entrevistados escolheram “cientistas que trabalham em universidades” como resposta à pergunta “Se você desejar receber informações sobre algum assunto importante para você e para a sociedade, quem te inspira menor confiança como fonte de informações?”. As outras alternativas de resposta eram: representantes de organizações de defesa do consumidor (escolhida por 3% dos entrevistados), médicos (7%), cientistas que trabalham em empresas (7%), escritores (8%), jornalistas (15%), religiosos (18%), militares (44%) e políticos (84%).

 

Pesquisadores em geral trabalham de modo a merecer credibilidade, mas também têm seus momentos menos nobres

 

Esse imaginário social da ciência apontado no Brasil pelo estudo do MCT corresponde aos resultados de diversas pesquisas de opinião pública estrangeiras, como os levantamentos bianuais da Fundação Nacional da Ciência, nos Estados Unidos, e da européia Eurobarometer, assim como a pesquisa realizada em 2003 em alguns países latinos, entre eles o Brasil [Vogt, C. & Polino, C. (orgs.), Percepção pública da ciência: Resultados da pesquisa na Argentina, Brasil, Espanha e Uruguai, 2003.]

Como já foi dito no artigo anterior, geralmente os bons papers fazem menção a trabalhos baseados em visões conflitantes com a do autor. Ou seja, de um modo geral, a produção científica é conduzida com o necessário espírito autocrítico, de modo a merecer a credibilidade apontada nas referidas pesquisas de opinião pública.

Mas a ciência também tem seus momentos menos nobres. Foi lamentável, por exemplo, há exatos 20 anos, a atitude de muitas equipes de cientistas, em diversos países, que anunciaram à imprensa terem conseguido reproduzir o mesmo experimento da fusão nuclear a frio que os norte-americanos Stanley Pons e Martin Fleischman, da Universidade de Utah, disseram ter realizado, mas que depois se revelou ter sido um engodo.

Outro mau exemplo veio do próprio Projeto Genoma Humano, como bem demonstrou o jornalista Marcelo Leite em sua tese de doutorado em sociologia da ciência, na Unicamp, em 2005, que tomou forma posteriormente no livro Promessas do genoma, da Editora Unesp, de 2007. O estudo mostra que, desde seu início em 1989, as lideranças do projeto passaram a adotar, em sua estratégia para captação de elevadas somas de recursos, uma comunicação amplamente baseada no argumento determinista de que “tudo está nos genes”. E isso aconteceu justamente em um momento do desenvolvimento da biologia em que estava consolidada a convicção de que a arquitetura do genoma humano não comporta interpretações deterministas.

Muitos outros exemplos podem ser dados de iniciativas por parte de cientistas movidos por interesses alheios ao ethos da pesquisa. Certamente esses procedimentos não correspondem ao que é posto em prática no dia-a-dia da ciência. E, mesmo que fosse o contrário, isso reforçaria ainda mais a necessidade de os jornalistas trabalharem sempre sob a perspectiva do contraditório.

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