Caçadores de fósseis

Pesquisadores de Rio Claro cavucam estradas de terra no sudoeste de São Paulo atrás de restos de dinossauros que ali viveram; a lida muitas vezes não rende nada, mas a reportagem deu sorte e presenciou a descoberta de cacos de 70 milhões de anos

texto Giovana Girardi

O primeiro fóssil de dinossauro descrito na história, ainda na Idade Média, foi considerado, inicialmente, osso de um gigante humano. Sem ter a menor ideia da existência dos enormes répteis que habitaram a Terra entre 220 milhões de anos e 65 milhões de anos atrás, Robert Plot, professor de alquimia na Universidade de Oxford, apostou em referências míticas para explicar a rocha misteriosa. Passariam alguns séculos até que a correção fosse feita – eram restos de um megalossauro – e mais outros tantos para que fosse pintado um quadro bastante amplo sobre a fauna da época. Esse conhecimento, no entanto, não está esgotado, e os ossos daqueles bichões que reinaram sobre a Terra continuam impressionando e motivando pesquisas. Mas vez por outra ainda são simplesmente descartados ao serem confundidos com ossos de… vaca!

Essa história aconteceu no final de 2008 na pequena Irapuru, a 615 km de São Paulo, quando o estudante de ensino médio Vítor Barbosa Araújo ia com o avô para um sítio. Recém-saído de uma apresentação sobre fósseis já encontrados naquela região, o garoto fazia o trajeto de olho no chão. A um só tempo, viu uma ponta branca e gritou para o avô parar o carro. “Isso aqui é osso de dinossauro, vô! Que dinossauro que nada, menino, é osso de vaca.”

O garoto de 15 anos, que é a cara do jogador Ronaldo e gosta de dinos tanto quanto gosta de futebol, estava com a razão. A lasquinha de osso acabou se revelando a ponta de uma costela com cerca de 1 metro de comprimento, provavelmente de um titanossauro, grande herbívoro de pescoço longo que habitou o sudoeste de São Paulo há cerca de 70 milhões de anos.

O material resgatado por Vítor e colegas de classe, além do professor de Física da turma, Paulo Sérgio Fiorato, motivou a ida do paleontólogo Reinaldo José Bertini, da Unesp de Rio Claro, à cidade no início do mês passado. Acompanhado pela reportagem de Unesp Ciência, ele foi dar mais uma olhadinha nos frutos da região que já é sua velha companheira.

Bertini faz prospecções no local (que inclui, além de Irapuru, as cidades de Lucélia, Flórida Paulista e Pacaembu) desde 1998, à caça de dinossauros, crocodilomorfos (“jacarés” primitivos) e testudinos (tartarugas), que em muitos casos afloram em estradas e campos como pontinhos brancos. Ele leva na bagagem mais de 30 anos de pesquisas, várias descobertas de fósseis e a identificação de ao menos duas espécies de titanossauro – uma delas localizada em Flórida pelo geólogo Sérgio Mezzalira (veja quadro).

 

 

Foi justamente esse achado – uma série de seis vértebras caudais articuladas – que motivou Bertini e seu então aluno de mestrado Rodrigo Santucci a irem para lá pela primeira vez. O material havia aparecido em 1959 durante as obras de construção de uma estrada de ferro, e Mezzalira conseguiu coletá-lo antes que tivesse o mesmo fim de dentes achados ali, que acabaram vendidos como amuletos. Após a recuperação, os fósseis ficaram depositados no museu do Instituto Geológico, no Parque da Água Branca, em São Paulo, à espera de identificação, o que finalmente ocorreu em 2006 pelas mãos de Santucci e Bertini. Em homenagem ao geólogo, o novo dinossauro brasileiro ganhou o nome de Adamantisaurus mezzalirai.

Quando soube da existência do fóssil no museu, Bertini percebeu que o sudoeste paulista merecia mais investigação, e desde então faz prospecções lá. Mesmo período em que a população local também se deparava com fósseis aqui e acolá e fazia suas coletas amadoras. “A verdade é que a região é extremamente fértil para a Paleontologia”, conta. Tanto que Fiorato e seus alunos organizaram uma coleção na Escola Estadual José Firpo, em Lucélia.

Um dia no Cretáceo
Apesar desse histórico, Bertini fez um alerta antes de pegarmos estrada: “Veja, o usual, quando vamos a campo, é não encontrarmos muita coisa. O incomum é encontrarmos”. Aplacadas as expectativas de repórter e fotógrafo, nossa primeira parada foi no colégio. Paulo Fiorato havia contado anteriormente sobre a descoberta recente de vários dentes que aparentavam ser de dinossauros predadores, e Bertini queria dar uma olhada neles antes de pegar picareta e martelo para prospectar.

A pequena sala impressiona, se não pelo tamanho das peças ou pela quantidade, que são consideráveis , porque foram quase todas coletadas de maneira amadora, por alunos e professores da escola ou por moradores da região. Lá vemos, entre outras coisas, ossos de cauda, membros e costelas de titanossauros, fósseis diversos de crocodilomorfos e testudinos, vários dentes de dinos carnívoros e vegetarianos, além de material da Chapada do Araripe (CE), uma das regiões mais ricas em fósseis do Brasil.

A coleção teve início em 2000, quando Fiorato recebeu o primeiro fóssil. “Mas ele ficou guardado um tempão, eu nem sabia direito o que era aquilo”, conta. Em 2003, um ex-aluno da escola que tinha ido estudar na Unesp de Presidente Prudente teve contato com o geógrafo José Martins Soares, que deu as primeiras noções para a turma sobre como coletar e identificar fósseis. Dois anos depois, Bertini soube do trabalho feito na escola e concordou em ajudar. Deu palestra sobre Paleontologia e dicas para a identificação do material e também para sua preparação e catalogação.

 

Aula prática – Quando chega ao campo, o paleontólogo tira a camiseta, pega seu martelo e sai cavucando, enquanto dá dicas de identificação

 

Hoje o professor de Física sente-se mais à vontade para sair pela região com os alunos em busca de novos exemplares. Também já arrisca algumas identificações. “A gente acha que isso pode ser uma garra”, diz com tom de pergunta ao mostrar uma nova peça para o especialista. Bertini olha, balança a cabeça. “Talvez”, avalia ele, “seja um tarsal, osso de pé. Mas está estranho. A seção de osso de pata é mais arredondada ou ovalada, não losangular, como essa. Mas pode ter havido um processo de compressão durante a fossilização”, afirma sem desanimar o colega novato.

Bertini ou seu aluno de mestrado Caio Geroto vão à escola de tempos em tempos checar as novidades, fazer prospecção com a molecada, identificar os fósseis coletados e ainda recolher alguns materiais para análise em Rio Claro. Foi o que aconteceu quando estávamos lá. Os dentes recém-encontrados animaram o paleontólogo, porque podem ajudar a identificar outros grupos de dinossauros que viviam na região. Por serem serrilhados, ele de cara já viu que se tratava de deinonicossauros (carnívoros). Dentes de saurópodes (nome dos grandalhões vegetarianos) são lisos. “Olha só, pareciam um lápis sem ponta, não têm muita graça”, mostra Bertini.

Há duas possibilidades para a riqueza de fósseis no sudoeste de São Paulo. Pode ser que a região de fato tivesse uma grande diversidade biótica, ou que as condições ambientais trouxessem maiores chances de preservação

A detalhada explicação foi sumindo enquanto o paleontólogo avaliava as amostras mais de perto, com uma lupa portátil com aumento de 20 vezes. Concentrado nas bordas serrilhadas, iniciava frases sem terminá-las, diante de uma curiosa plateia de alunos do ensino médio que ajudam Fiorato. Pouco tempo depois, o diagnóstico. “Ahh, isso aqui é um troodonte [bípede carnívoro que tinha cérebro desenvolvido]. Ele cortou tendões, carne e até ossos pequenos há 70 milhões de anos”, conclui animado. A segunda amostra também pareceu promissora: “Minha cara, isso aqui pode ser um velociraptor. Eles não abriam portas como no filme do Spielberg [Parque dos Dinossauros], mas eram bem espertos”.

 

De olho no chão – Vítor Araújo examina estrada em busca de sinais de dinos. Recebeu a missão de acompanhar obras de asfaltamento

 

Na sequência, ele colocou os ossos em frasquinhos com algodão para analisar na Universidade. É o aluno Geroto, que não pôde viajar com o mestre, quem vai fazer o trabalho. A ideia é observá-los através de microscopia eletrônica de varredura, o que vai permitir contar quantas serrilhas por milímetro quadrado há em cada dente, além de analisar o desenho delas, e assim fazer uma identificação mais acurada do grupo a que esse dente pertenceu.

Bertini fez questão de pedir para a reportagem ser “fiadora do empréstimo” de 16 dentes isolados e de uma amostra ainda anexada à rocha, com a promessa de que eles serão devolvidos. “Temos um acerto informal pelo qual somos [a Unesp] responsáveis pelo acervo”, explica. Pela legislação, um leigo só pode fazer coletas com a autorização de uma instituição de ensino superior, o que em tese garantiria que o material fosse encaminhado para a pesquisa e não acabasse traficado para o exterior. A regra, no entanto, não tem impedido que isso aconteça pelo Brasil afora.

 

Lupa de joalheiro – Bertini analisa “qualquer coisa que pareça orgânica” com a lente de 20 vezes de aumento. Assim vê até alvéolo de dente

 

Pélvis da discórdia
Uma outra peça presente no acervo de Lucélia está intrigando o grupo. Originalmente se imaginou que se tratasse de uma escápula de abelissauro, membro do grupo conhecido como carnossauros, que se alimentava de animais mortos. Se isso se confirmasse, seriam os primeiros ossos de um carnívoro encontrados na região. Os restos desses animais são menos comuns de se achar porque em geral existe uma proporção de nove espécies de vegetarianos para uma de carnívoro.

“Talvez tenha uma má notícia pro Paulo”, tateia Bertini. “Meu caro, aquilo ali é pélvis de titanossauro”, sentencia antes de novamente elevar o ânimo da audiência. “De qualquer forma é importante, porque aquele forâmen (orifício) do púbis tão aberto pode indicar algo significativo, além de constituir a primeira evidência de uma pélvis de titanoussauro na região.” Segundo ele, peças semelhantes encontradas na formação rochosa Adamantina costumam ter esse forâmen mais fechado. “E essa abertura não parece resultado da coleta. Pode apontar uma relação com os saurópodes do outro lado da Bacia Bauru [no Triângulo Mineiro, onde várias outras espécies foram identificadas por Bertini e outros paleontólogos brasileiros]. Se for a mesma coisa, podemos imaginar novos processos de migração ou possibilidades de correlação entre as duas regiões.”

 

Prospecção permanente – “Você vê isso, não dá muita coisa, mas aí fragmenta e tem um osso dentro. Legal. Por isso o trabalho é tão gostoso”

 

Saindo da escola, seguimos em direção a duas áreas nas quais já foram encontrados fósseis. No caminho, o pesquisador explica que o principal objetivo dos estudos com os materiais que estão na escola, e com outras prospecções que vêm sendo feitas nos arredores, é tentar reconstruir a fauna que habitou ali há 70 milhões de anos.

“Temos formalmente descritos aqui o Adamantisaurus e um Stratiotosuchus (crocodilomorfo primitivo achado em meados da década de 1980 em Irapuru). Queremos saber se existem outros espécimes dos dois, quais outros animais viviam aqui. Com base no material previamente coletado, sabemos que a região tinha testudinos, crocodilomorfos, deinonicossauros e titanossauros, mas ainda não foram formalmente descritos. Se conseguirmos descobrir quais grupos de deinonicossauros existiam aqui, se troodontes e/ou velociraptores, já é um dado significativo.”

 

Afiados – Uma série de dentes de predadores foi encontrada na região; pesquisadores querem descobrir se eram de velociraptores

 

Segundo Geroto, que conversou com a reportagem depois da viagem, a expectativa é criar um quadro da ecologia da região. “Queremos saber quem ocupava tal nicho.” Mais difícil talvez seja descobrir novas espécies ali. Como em raríssimos casos na história se encontra uma ossada completa, os pesquisadores da área aos poucos descobriram que alguns ossos são significativos para apontar qual bicho é aquele. “O diagnóstico para titanossauro é vértebra. Só com uma às vezes a gente faz a festa. Assim como para mamífero fóssil, um molar isolado resolve o problema. Já ossos apendiculares, como úmeros, fêmures, não são muito significativos, apesar de serem os mais fáceis de achar”, explica Bertini. “Mesmo com os dentes, vamos chegar no máximo à família dos carnívoros. Para identificá-los, precisamos de crânio e pós-crânio”, complementa Geroto.

Além de ser difícil encontrar fósseis, é preciso ter a sorte de achar um que seja diagnóstico de espécie. No caso dos titanossauros, uma vértebra pode resolver o problema. Para mamíferos, é preciso encontrar um dente molar

Ou seja, além de ser difícil encontrar fósseis, é preciso ter a sorte de achar um que seja significativo para a identificação de uma espécie? “É. Mas por isso que trabalhar nessa área é tão gostoso. Isso não morreu ontem, morreu há 70 milhões de anos, então é um registro único. Aí você fica imaginando como era esse animal, o que ele comia, se tinha sangue quente, como era a fisiologia dele. Um colega disse uma vez que paleontologia é imaginação. Não concordo. É preciso racionalizar em cima do que encontrou.”

 

Reconstrução histórica – Paulo e a aluna Bruna Bassoli analisam como preparar o úmero. A garota, que entrou no grupo atrás de ponto na média, hoje pegou gosto pela área

 

Cacos e coprólitos
Nossa segunda parada é numa estradinha que vai de Flórida Paulista a Pacaembu, bem perto de onde foram achadas as vértebras do adamantissauro em 1959. Fiorato levou quatro alunos para aprender e ajudar nas buscas. Sob um sol ardente da hora de almoço, e um calor de 35°C, Bertini não pensou
duas vezes na sua pele branca sem protetor solar, arrancou a camiseta e começou a cavucar. “Qualquer coisa que pareça orgânica a gente examina”, diz orientando os calouros. “Esse aqui é o meu folclórico martelo, que me acompanha desde os 19 anos. Papai que fez, com cano ¾ de ferro. Não é a moeda do Tio Patinhas, mas é algo parecido.”

Não se passam nem 15 minutos e a moçada já começa a achar cacos dos animais pré-históricos que um dia passaram por ali.
– E isso aqui, professor, o que é?
– Isso aqui, humm, o que poderia ser? É… não descarto. Humm. Ah, tá… A-há!

Ao perceber a turma impaciente, emenda. “É, eu sei, eu faço suspense, costumam me acusar disso. Isso é um fragmento craniano. Tem o que sobrou de um dente aqui.” Fiorato estava descrente. “Às vezes a gente olha para o que ele está olhando e pensa: como ele pode imaginar que é um pedaço de crânio. Mas, depois, filho da mãe… não é que parece mesmo?”

 

Ancestral de jacaré – “Ahhh, isso é muito legal.” Essa foi a reação de Bertini ao ver uma das mais recentes aquisições da escola de Lucélia. Trata-se de uma placa dérmica de um baurussúquido. Pedaços de pele são raros de se encontrar

 

Quase ao final da expedição, seguimos em direção a Irapuru para ver o local onde o menino Vítor havia encontrado a tal costela. A estradinha está para ser asfaltada pela prefeitura, o que tanto pode acabar revelando segredos quanto destruindo tudo o que restou deles. O ponto onde estava o fóssil dá sinais de que vale a pena escavar ali por mais tempo, de modo sistemático. “Tem de vir logo cedo ou ao entardecer, quando a incidência do sol ajuda a visualizar os pontos brancos”, explica. Vítor, que agora nos acompanha, recebe a instrução para que tente acompanhar as obras. “É certeza que vai ser achado algo.”

Mal Bertini falou isso e um outro participante da expedição chega com mais uma pedrinha “estranha”. O mestre sacou sua lupa e nesse caso nem fez mistério:
– A-há. Meu caro, você acaba de encontrar um coprólito!
– É algum tipo de osso de dinossauro?
– Não, mas pertenceu a um animal extinto, neste caso, um crocodilomorfo. Isso é cocô fossilizado.

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