A difícil tarefa de compatibilizar ciência e fé

Cartas de Galileu revelam sua tentativa em vão de convencer que os conflitos entre Igreja e heliocentrismo seriam apenas fruto de erro de interpretação

texto Salvador Nogueira

Ciência e Fé – cartas de Galileu sobre o acordo do sistema copernicano com a Bíblia
Tradução e organização: Carlos Arthur R. do Nascimento; Editora Unesp; 143 págs.; R$ 26

Galileu Galilei era um cientista. Era também católico fervoroso. Mas, em nome da ciência, travou duas batalhas ferrenhas com a Igreja. Não para diminuí-la, mas basicamente para protegê-la. É o que transparece de Ciência e Fé, coletânea de cartas do pensador italiano escritas entre 1613 e 1616, organizada e traduzida por Carlos Arthur R. do Nascimento.

Nos documentos, Galileu delineia suas opiniões sobre os supostos conflitos entre a teoria copernicana – que colocou o Sol no centro do Universo – e a Bíblia, que contém diversas citações que parecem implicar que a Terra seja o centro do cosmo.

Para o cientista, não pode haver discrepância entre duas verdades indubitáveis: a da palavra divina e a da natureza. Portanto, o perigo reside não num confronto entre as duas, mas num erro na interpretação de uma e de outra. Defensor do método experimental, Galileu aponta que a investigação científica é o melhor meio de lançar luz sobre as controvérsias. Uma vez revelada a verdade natural, ela ajudaria os clérigos a interpretar corretamente o texto bíblico.

Nesse momento de sua vida, o cientista está mais preocupado em sustentar que não há nada herético em estudar e considerar como potencialmente verdadeiras as hipóteses de Copérnico do que em efetivamente demonstrar a correção do modelo heliocêntrico. Ele usa toda a sua habilidade retórica e cita figuras do pensamento católico, como Santo Agostinho, e mesmo a Bíblia, argumentando que a versão ptolomaica do mundo, ainda que geocêntrica, também apresenta aparentes contradições com as Escrituras.

Mais que isso, Galileu lança um alerta: a Igreja corre o risco de colocar sob suspeita a veracidade das Escrituras como um todo ao tentar extrair delas sentidos que possam, depois, ser refutados de forma incontestável pela ciência. “Não seria talvez senão sábio e útil parecer não acrescentar à Escritura outros artigos sem necessidade, além dos concernentes à salvação e ao fundamento da Fé, contra cuja firmeza não há perigo algum de que possa surgir jamais doutrina válida e eficaz”, escreve, em carta a Cristina de Lorena, grã-duquesa da Toscana e protetora de Galileu, datada de 1615.

Visão presciente teve o cientista. A proibição da obra de Copérnico, em 1616, e o posterior processo inquisitório contra Galileu, em 1633, acabaram se tornando embaraços para a Igreja Católica. Mas as noções de Galileu transcendem o episódio e se aplicam a outras controvérsias entre ciência e religião, notadamente a polêmica acerca da evolução das espécies.

A leitura inflexível da Bíblia por fanáticos religiosos ainda causa repulsa à teoria da evolução por seleção natural firmemente estabelecida por Charles Darwin e Alfred Russel Wallace um século e meio atrás. De outro lado, também causa em muitos cientistas (capitaneados pelo biólogo evolutivo Richard Dawkins) a sensação de que a religião perdeu sua razão de existir, ao ser “descartada” pelas conclusões científicas.

Galileu anteviu confrontos como esse. Mas seu alerta provavelmente caiu em ouvidos surdos. Para a Igreja, a hipótese copernicana não poderia ser vista como mais que um artefato matemático, como fica patente ao final da coletânea, em uma carta escrita em 1615 pelo cardeal Roberto Belarmino ao padre Paulo Antônio Foscarini, entusiasta da visão copernicana.

“Querer afirmar que realmente o Sol está no centro do mundo e gira apenas sobre si mesmo sem correr do Oriente ao Ocidente e que a Terra está no 3º céu e gira com suma velocidade em volta do Sol é coisa muito perigosa não só de irritar todos os filósofos e teólogos escolásticos, mas também de prejudicar a Santa Fé ao tornar falsas as Sagradas Escrituras”, escreveu o cardeal.

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