O precário álibi antidarwinista

texto Maurício Tuffani

 

Capa de revista francesa do século 19

Não se empolgue, eventual leitor criacionista ou adepto do Design Inteligente, com a piada feita com a imagem de Darwin na capa desta edição de Unesp Ciência. Em primeiro lugar, nós, jornalistas, muitas vezes caricaturamos os personagens de nossas notícias, independentemente de concordarmos ou não com eles. Além disso, a complexidade do atual estágio da bioquímica certamente obrigaria o fundador do evolucionismo a repensar algumas de suas ideias principais, mas não põe em xeque o preceito básico de que o desenvolvimento de todas as formas de vida não precisa ser explicado em função de qualquer causa externa à própria natureza.

Vista com outros olhos, a brincadeira com a hipotética e extemporânea perplexidade de Darwin se encaixaria como uma luva nas críticas formuladas nas últimas décadas por partidários do Design Inteligente. É o caso, por exemplo, do norte-americano Michael Behe, professor do Departamento de Ciências Bioquímicas da Universidade Lehigh, na Pennsylvania (EUA), e autor de uma das mais importantes obras de divulgação antievolucionistas, A Caixa Preta de Darwin, de 1996, publicada no Brasil no ano seguinte (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997, 300 p.).

A suposta falta de explicações dos saltos evolutivos não é uma objeção consistente ao evolucionismo

O pressuposto central de Behe nesse livro consiste na constatação de que os biólogos evolucionistas puderam durante algum tempo ignorar os detalhes moleculares sobre a vida porque muito pouco se sabia sobre eles. “Agora, a caixa preta da célula foi aberta e o mundo infinitesimal que veio à tona precisa ser explicado”, disse o pesquisador referindo-se ao desenvolvimento de sua especialidade a partir de meados do século 20 (pág. 32).

Segundo ele, o grande desafio do darwinismo é explicar como sistemas bioquímicos evoluíram de níveis mais simples para outros de maior complexidade sem uma interferência externa. Behe tomou o cuidado de evitar a falácia lógica do argumento da ignorância: “Dizer que a evolução darwiniana não pode explicar tudo na natureza não equivale a dizer que a evolução, a mutação aleatória e a seleção natural não ocorram” (pág. 179). Apesar disso, ele deu o desafio por encerrado: “Eles [os sistemas] foram desenhados não por leis da natureza, pelo acaso ou pela necessidade; na verdade, foram planejados. O planejador sabia que aparência os sistemas teriam quando completos, e tomou medidas para torná-los realidade em seguida” (pág. 195).

Independentemente de os argumentos de Behe e de outros adeptos do Design Inteligente serem consistentes ou precários do ponto de vista científico, é necessário reconhecer que a imprensa em geral tem renunciado a apresentá-los. Mais que isso, muitos veículos de comunicação têm tachado os propositores do DI como meros criacionistas, igualando-os àqueles que ainda hoje recusam cegamente a origem da Terra há cerca de cinco bilhões de anos e teimam na versão bíblica de cerca de seis milênios.

As informações da reportagem “O que nem Darwin imaginava” permitem ver que a alegação da suposta falta de explicações dos saltos evolutivos não é uma objeção consistente ao evolucionismo, mas um álibi da precariedade do Design Inteligente.

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