A revolução dos bichos

texto ◘ Igor Zolnerkevic

A Lei Arouca, que regulamenta o uso de animais de laboratório, projeta para o Brasil uma nova realidade para a experimentação com cobaias

Num mundo ideal de respeito aos direitos dos animais, as experimentações científicas não mais usariam técnicas invasivas. Como em um Show de Truman animal, cobaias viveriam em uma espécie de bolha, alheias ao trabalho de pesquisadores que estariam analisando-as permanentemente.

O cenário ao lado não é “viagem” do cartunista, biólogo e veterinário Fernando Gonsales, mais conhecido pelos quadrinhos do rato Níquel Náusea, que ele publica no jornal Folha de S. Paulo. É, na verdade, o ponto máximo a que a ciência talvez possa chegar um dia se forem seguidos três princípios básicos propostos há meio século – mas que, apesar do tempo, ainda não estão bem estabelecidos.

Em 1959, os biólogos britânicos Rex Burch (1926-1996) e William Russell (1925-2006) publicavam seu The principles of humane experimental technique (Princípios da técnica experimental humanitária), que sugeria caminhos para a pesquisa com cobaias: substituir, reduzir e refinar – conhecidos em inglês como “3Rs” (replace, reduce, refine).

 

Fernando Gonsales

 

“O livro ficou na geladeira e só nos anos 1970 se tornou popular”, conta Marcel Frajblat, embriologista da Universidade do Vale do Itajaí e presidente da Sociedade Brasileira de Ciência em Animais de Laboratório. No Brasil, a discussão começou a tomar corpo somente nos anos 1990. E ainda se passariam quase 20 anos até que o país começasse a adotar essa diretriz.

Aprovada em outubro de 2008, após 13 anos parada no Congresso, a Lei Arouca, que regulamenta o uso de animais na pesquisa, entrou em vigor em julho deste ano. Inspirada na legislação canadense, a lei federal 11.794/08, de autoria do pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz e deputado federal Sérgio Arouca (1941-2003), reflete os 3Rs.

Ao longo desses 50 anos, os cuidados com as cobaias evoluíram para uma complexa disciplina científica. “Na farmacologia o foco é o fármaco, na neurologia, o cérebro; nosso foco é o animal de laboratório, como deve ser criado, cuidado e utilizado”, explica Frajblat.

O lema são os 3Rs. Segundo esses mandamentos, os cientistas devem, em primeiro lugar, buscar alternativas ao uso de cobaias (replace). Se elas não existirem, um número mínimo de animais deve ser usado (reduce), com a preocupação de se evitar a dor e o sofrimento dos bichos. Para isso, o pesquisador deve aprimorar seu método experimental (refine).

“Todos os biólogos e biomédicos precisam se informar sobre os 3Rs”, recomenda Roberto Sogayar, professor aposentado do Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu, onde criou a primeira comissão de ética no uso de animais do país, em 1996.

Para ajudar a disseminar esse conhecimento, mostramos nas próximas páginas as últimas tendências na busca por alternativas, pela redução e pelo aprimoramento no uso de animais na atividade científica, bem como as mudanças trazidas pela Lei Arouca à rotina dos cientistas. As ilustrações de Gonsales ao longo da reportagem brincam com os 3 Rs e mostram um mundo ideal dos ratos.

Em busca de alternativas

A expectativa de muitos cientistas é que um dia bancos de dados sobre genes, proteínas e vias metabólicas, simulações por computador e técnicas in vitro substituam por completo o uso de cobaias na pesquisa ou nos testes dos mais diversos produtos. Mas o caminho até lá ainda é longo.

Atualmente, o método alternativo mais comum envolve o cultivo em laboratório de células humanas para a produção de tecidos semelhantes aos de órgãos, como pele e pulmões, onde os cientistas testam diversas substâncias. Se essas células sofrerem lesões ou passarem a secretar compostos típicos de inflamações, é sinal de que o produto é tóxico ou irritante.

 

Fernando Gonsales

 

A pele artificial vem sendo usada principalmente pela indústria cosmética – a que mais sofre pressão dos consumidores. “Nossa geração está vivendo isso, precisamos correr para desenvolver culturas de células humanas se quisermos ter trabalho no futuro”, diz Bruna Chiari, mestranda da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp de Araraquara, que desenvolve um teste in vitro para cosméticos.

Esses tecidos, porém, nem sempre são suficientes para prever os danos que um produto ou droga podem causar ao organismo como um todo. Os animais servem de modelos do corpo humano, para investigar como ele responderia à evolução de doenças e a possíveis tratamentos. “Você precisa de um sistema imunológico, de um organismo completo para produzir vacinas e testar remédios”, afirma Sogayar.

Embora predominante, a opinião de que o animal de laboratório é insubstituível em certos tipos de pesquisa é questionável, segundo Thales Tréz, professor da Universidade Federal de Alfenas e ativista do movimento de libertação animal. Segundo ele, a redação da Lei Arouca acabou privilegiando essa visão, dando mais ênfase ao aprimoramento do que às alternativas. “A pesquisa é preguiçosa para pensar em possibilidades”, diz. Tanto ele como Sogayar concordam, entretanto, que para substituir os animais é preciso antes entender e questionar por que eles são usados.

Ninguém sabe, por exemplo, quantos animais são usados na pesquisa brasileira, fato que deve mudar com a implementação da Lei Arouca. “Todos os laboratórios que usam animais terão de ser cadastrados”, explica Frajblat. Espera-se que o Brasil compile estatísticas como as do relatório publicado em 2007 pela Comissão da União Europeia, segundo o qual 12 milhões de cobaias foram usadas no continente em 2005. A maioria (64%) foi empregada em pesquisa básica nas áreas de biologia e biomedicina. Produção, controle de qualidade e teste de remédios, vacinas e outros tratamentos consumiram 26% dos animais. Cerca de 8% foram usados em testes de segurança e toxicidade de alimentos, pesticidas, cosméticos e outros produtos químicos. Os animais mais usados foram ratos e camundongos (72%).

SUBSTITUIÇÃO
O primeiro dos 3Rs (replace) propõe que num mundo ideal da pesquisa científica, os animais seriam dispensados para sempre da lida no laboratório, substituídos por bancos de dados de genes e proteínas, simulações por computador e técnicas in vitro

O camundongo é preferido por ser pequeno, fácil de transportar, relativamente barato e ter um ciclo de vida curto (nove semanas). Além disso, quanto mais se trabalha com camundongos, mais informações se acumulam sobre a espécie, o que facilita a vida do cientista.

Humanos e camundongos têm características fisiológicas parecidas, resultado da semelhança de até 90% entre seus genomas. Diversas mutações genéticas, inclusive, provocam doenças com evolução parecida nas duas espécies. “Eu, que sou embriologista, não consigo ver diferença entre um embrião de três dias de camundongo e de humano”, compara Frajblat.

“Claro que existem diferenças, mas elas também são interessantes”, acrescenta. O camundongo, por exemplo, não desenvolve distrofia muscular da mesma forma que os seres humanos. “Ele manca, mas não chega à paralisia completa. A gente precisa descobrir o que impede o desenvolvimento da doença.” Isso poderia dar uma dica de como tratar o problema nas pessoas.

Outra saída é trocar camundongos e ratos por invertebrados, como insetos, vermes e micro-organismos. Leveduras, por exemplo, servem para modelar a interação de genes, proteínas e outras substâncias no interior da célula humana. No desenvolvimento das moscas-da-fruta e dos vermes nematoides, os pesquisadores observam versões simplificadas de como as células de um embrião se multiplicam, diferenciam e organizam para formar um ser humano. O uso de vertebrados só é indispensável para estudar genes ligados a sistemas mais complexos, como o imunológico.

 

Fernando Gonsales

 

Para esses métodos alternativos serem aceitos, sua eficácia precisa ser comparada com a dos métodos tradicionais, por meio de um processo de validação. Pelo menos 15 grupos brasileiros estão trabalhando nesta área, segundo Octavio Presgrave, do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde da Fiocruz, no Rio de Janeiro. “Alguns trabalham em técnicas pioneiras, outros adaptam para a realidade brasileira métodos usados no exterior.” O que falta aqui é um centro de validação de alternativas que coordene esses esforços, como existe na Europa, nos EUA e no Japão, explica o pesquisador, que lidera um movimento para sua criação.

Quanto menos, melhor

Se não é possível abrir mão dos animais nos experimentos, parte-se então para o segundo R: restringir ao máximo a quantidade utilizada. O que também traz economia. O primeiro passo nesta direção é usar animais puros. “A qualidade do animal é tudo em uma experiência biomédica, assim como a pureza de um reagente em um experimento de química”, compara Sogayar. A doença em uma cobaia age como um “ruído” no experimento, que obriga os pesquisadores a refazê-lo mais vezes para “escutar melhor” os sinais que procuram.

Os animais criados nos melhores biotérios do mundo saem com os chamados certificados SPF (livres de patógenos específicos, na sigla em inglês). Para evitar contaminações, esses locais possuem barreiras sanitárias – corredores esterilizados e salas onde a pressão do ar é maior que a do exterior. No Brasil ainda são poucos os biotérios que cumprem essas exigências.

A diferença genética entre os animais é outro fator que pode atrapalhar um experimento. Quanto mais parecidos os seus genomas, mais fácil comparar os resultados das experiências. O ideal é usar as linhagens de camundongos chamadas de isogênicas, ainda pouco comuns no país. Elas são obtidas por meio de cruzamentos sucessivos de parentes próximos, por mais de 20 gerações, o que praticamente acaba com as diferenças entre os indivíduos.

Planejar o experimento, incluindo um cuidadoso cálculo amostral, também ajuda a diminuir o número de animais, explica Sogayar. “Antes, a norma era buscar a assessoria de um estatístico depois de fazer o experimento.” Se tivesse usado cobaias de menos, o resultado seria fraco e o sacrifício dos animais, em vão. Na situação contrária, haveria desperdício de recursos. Em todo caso, seria tarde demais para evitar um problema que não ocorreria se o experimento tivesse sido bem planejado.

O bom planejamento deve incluir ainda extensa pesquisa na literatura científica. Quando não substituem completamente o uso de animais, bases de dados sobre substâncias e suas interações ajudam a reduzir o número deles. “Primeiro se compara a substância em estudo com outras em bancos de dados. Por analogia se tem uma ideia do seu efeito”, diz Presgrave. “Depois, parte-se para testes in vitro e, por último, se precisar, entram os animais.”

REDUÇÃO
O segundo dos 3Rs (reduce) aponta que um animal bem tratado pode ser útil várias vezes, reduzindo a demanda dos biotérios. Se for preciso sacrificá-lo, o ideal é reunir colaboradores para aproveitar seu corpo ao máximo em vários estudos

O ideal ao usar animais é aproveitá-los ao máximo, principalmente se for preciso sacrificá-los, como faz o Núcleo de Procriação de Macacos-prego da Unesp em Araçatuba. O sacrifício de um macaco-prego é um evento que reúne toda a comunidade científica que estuda primatas para que seja possível aproveitar o animal inteiro.

Classius de Oliveira, do Instituto de Bio-ciências, Letras e Ciências Exatas, da Unesp em São José do Rio Preto, faz algo parecido. Quando tem de sacrificar um anfíbio, reúne alunos de doutorado, mestrado e iniciação científica para trabalhar em vários órgãos do indivíduo. “Assim diminuo pela metade o número de animais”, conta.

Aprimorar é preciso

O último R da cartilha (refine) traduz-se no aprimoramento das técnicas para criar e manusear os animais, a partir de suas necessidades, a fim de proporcionar-lhes bem-
-estar – o que também favorece o sucesso do experimento. Sogayar cita o exemplo do serpentário do Instituto Butantan, que passou a extrair mais veneno das serpentes após a adoção da anestesia com gás carbônico durante o procedimento.

Só recentemente começou a haver uma preocupação em enriquecer o cativeiro de cobaias com brinquedos e decoração que permitam ao animal exercitar o comportamento apropriado de sua espécie. “É como colocar cadeiras estofadas e ar condicionado em uma sala de espera para aumentar o bem-estar das pessoas”, compara Frajblat. Cada animal tem demandas específicas. O camundongo, por exemplo, sente necessidade de formar um ninho, precisa de uma roda para se exercitar e de um túnel para se esconder quando houver muita luz no ambiente.

Se o bem-estar é fundamental, a dor é inaceitável, na opinião do veterinário Stelio Luna, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, da Unesp em Botucatu. O pesquisador se queixa da falta de treinamento da maioria de seus colegas em perceber que o animal está sentindo dor e em aplicar os analgésicos ou anestésicos corretamente.

Alguns cientistas temem que a aplicação de analgésicos possa mascarar os resultados, quando na verdade é a dor do animal que pode interferir no experimento, defende. “A dor após uma cirurgia causa cicatrização lenta e depressão imunológica”, diz Luna. “A mortalidade que se pensa ser devida a uma variável do experimento vem da intervenção causada pela dor.”

Treinamentos específicos ensinam a reconhecer sinais de dor dos animais. Instrumentos colocados cirurgicamente podem monitorar as frequências cardíaca e respiratória, que podem indicar se o animal está sofrendo, embora a própria implantação da peça cause um certo estresse. A melhor forma de perceber a dor do animal, segundo Luna, é acompanhando seu comportamento, de preferência por meio de câmera de vídeo, a fim de que ele não perceba que está sendo observado.

Como têm muitos predadores na natureza, os roedores ficam paralisados quando percebem que estão sob a mira de outro animal. Uma vez sozinho, entretanto, um camundongo recém-operado e com dor começa a esticar as patas e a olhar para o abdome. A tendência, aliás, é tentar adotar experimentos cada vez menos invasivos, como monitoramento remoto por câmeras, ressonância magnética e marcadores radioativos.

Às vezes, um pequeno detalhe já faz toda a diferença, como mostrou a farmacologista Hérida Salgado, da Unesp de Araraquara. Ela substituiu um método usado desde 1957 para testar o potencial diarreico de uma substância, e que envolve o sacrifício de camundongos, por outro bem mais simples, no qual os animais podem ser reutilizados depois de uma semana.

No procedimento original, os animais tinham de ficar em jejum por até 24 horas, antes de ingerir o composto estudado. Em seguida eles tinham de engolir um pedaço de carvão. Duas horas mais tarde, eles eram mortos e seus intestinos, abertos, para se verificar onde estava o pedaço de carvão. O objetivo é checar se a velocidade com que o carvão percorre o intestino é afetada pela substância.

Mas se o comprimento do intestino de cada camundongo é mais ou menos o mesmo, por que, em vez de matá-los, não esperar que eles evacuem o carvão e então medir o tempo que o processo demora? Foi o que Hérida e sua aluna de iniciação científica Maria Lucchesi fizeram em 2003. O novo método, além de evitar o sacrifício das cobaias, reduziu a duração do jejum prévio ao experimento.

Agora é lei

A rotina dos cientistas que usam animais em pesquisas deve mudar a partir de 2010. Eles passarão a ter de justificar, diante das comissões de ética no uso de animais (Ceuas) de suas unidades, a quantidade de cobaias que pretendem usar. O número poderá ser contestado por colegas da academia e representantes da sociedade. Suas atividades poderão ser fiscalizadas e, no caso de abuso, eles estão sujeitos a penalidades que variam de advertências verbais até o fechamento do laboratório, passando por multas de até R$ 20 mil.

Na prática, as Ceuas já existem desde meados dos anos 1990 na maioria das instituições de pesquisa, mas com a Lei Arouca elas passam a ser obrigatórias e têm funções a cumprir. A principal é se reportar ao Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea), presidido pelo ministro da Ciência e Tecnologia. Os demais membros, definidos em portaria publicada no Diário Oficial da União no dia 29 de outubro, são 6 representantes de órgãos de governo, 5 de instituições acadêmico-científicas, 1 da indústria farmacêutica e 2 de sociedades protetoras de animais.

Fiscalizar a produção dos animais e cadastrar todos os biotérios do país serão papéis fundamentais do Concea. As Ceuas, por sua vez, devem colaborar na redução do uso de animais, no aprimoramento dos métodos e na fiscalização de abusos.

“O problema das comissões de ética [atuais] é que, com raríssimas exceções, não há fiscalização”, afirma Luna, que, durante seu doutorado no Reino Unido, recebia visitas de fiscais do governo em seu laboratório. “Os pesquisadores brasileiros têm postura pouco receptiva à fiscalização”, diz. O pesquisador critica ainda o fato de as Ceuas serem muito brandas com pesquisas de “delineamento experimental questionável”, envolvendo aplicação de choques elétricos, por exemplo.

Com a Lei Arouca, as Ceuas são obrigadas a incluir um representante de uma sociedade protetora de animais, o que Luna considera pouco. Para ele, um número maior deles seria benéfico não só para os cientistas, mas para a sociedade em geral. “Isso poderia esclarecer e desmistificar aquela ideia de que o cientista é um torturador de animais”, justifica.

APRIMORAMENTO
O terceiro dos 3Rs (refine) lembra que ninguém merece viver numa gaiola fria e vazia. Enriquecer o ambiente com brinquedos e decoração deixa os bichos mais animados, o que ainda melhora os resultados da pesquisa

Tão importante quando a fiscalização e a transparência é o preparo dos alunos de graduação e pós-graduação para lidar com animais de laboratório. Frajblat faz campanha para que os cursos das áreas biológicas tenham disciplinas específicas baseadas nos “3Rs”. Sogayar recorda um caso que ocorreu enquanto ele estava na faculdade para ilustrar a importância desse tipo de formação. “Era meu primeiro camundongo. Peguei-o pelo rabo, ele se assustou e eu também.” Num ato reflexo, o então estudante arremessou para o alto o pequeno roedor, que morreu espatifado na bancada do laboratório do Departamento de Fisiologia da Faculdade de Medicina de Botucatu, em 1969. “Matei aquele primeiro camundongo porque não tinha preparo algum. Na Europa e nos EUA, um estudante tem de fazer um curso de quatro meses antes de pôr a mão num bicho.”

Como escreveu o especialista em bioética William Hossne, da Faculdade de Medicina da Unesp em Botucatu, em um artigo na revista Ciência e Cultura em 2008, à clássica recomendação dos 3Rs, “se considera fundamental acrescentar mais um R, que foi esquecido, R de respeito”.

No ensino, animais são dispensáveis

Enquanto a maioria dos cientistas concorda ser impossível abrir mão dos animais em experimentos científicos, um número crescente acredita que eles são completamente dispensáveis no ensino superior. Nos EUA, muitas universidades aboliram o uso de cobaias nas atividades didáticas. Na União Europeia, menos de 2% dos animais de laboratório são usados no ensino. As alternativas incluem o uso de cadáveres conservados em resina, réplicas artificiais, modelos computacionais e vídeos.

No Brasil, a prática ainda persiste por comodismo, na opinião de Stelio Luna, professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, de Botucatu. “No ensino, é inadmissível”, decreta. Roberto Sogayar, professor aposentando do Instituto de Biociências, também em Botucatu, critica a inércia de seus colegas. “Alguns professores reclamam das instruções das simulações estarem em inglês”, comenta o pesquisador, indignado.

Informações sobre alternativas para o ensino superior estão disponíveis em sites de organizações como a Interniche (www.interniche.org) e seu braço brasileiro (1rnet.org), e a European Resource Center for Alternatives in Higher Education (EURCA) (www.eurca.org).

 

Fernando Gonsales

A teoria e a prática da luta contra o especismo
texto ◘ Luciana Christante

O uso de cobaias em pesquisa é apenas uma das frentes de batalha do movimento pela libertação animal. Ao lado da ciência estão a indústria alimentícia, particularmente os setores pecuarista, aviário e pesqueiro; negócios de entretenimento como rodeios, touradas e circos; a caça esportiva e o segmento têxtil que usa peles de animais. Seja qual for a trincheira, porém, a motivação dos militantes é a mesma: a rejeição ao especismo, isto é, a discriminação praticada por humanos contra outras espécies.

O termo especismo foi cunhado em 1970 pelo psicólogo britânico Richard Ryder, um dos pioneiros do movimento. “Especismo e racismo ignoram ou subestimam as semelhanças entre o discriminador e aqueles contra quem ele discrimina (…) O especismo nega a lógica da evolução”, escreveu Ryder. Sua militância teve impacto considerável na reformulação, em 1986, da lei britânica sobre o uso de animais de laboratório.

A causa dos direitos dos animais vem ganhando força no mundo todo desde os anos 1960, a reboque de movimentos sociais que “passaram a questionar a hegemonia da racionalidade científica e a buscar uma nova ética”, afirma a socióloga Leila Marrach Basto de Albuquerque, do Instituto de Biociências da Unesp em Rio Claro. O desfecho nuclear da Segunda Guerra, explica, chamou a atenção da sociedade para o uso militar e político da ciência e suas consequências sociais e ambientais, deflagrando a busca de novos modelos nos quais o homem é parte da natureza e não pode manipulá-la como quiser.

É nesse contexto de contracultura que surge, em 1975, o livro Libertação animal, espécie de bíblia do movimento, do filósofo australiano Peter Singer, hoje professor da Universidade de Princeton (EUA). Singer é o intelectual mais citado quando o assunto é defesa dos direitos animais, embora algumas de suas posições desagradem boa parte dos ativistas.

Nada justifica submeter qualquer animal ao sofrimento, segundo Singer. Estão fora desta premissa os seres aparentemente incapazes de sentir dor, bem como todo procedimento comprovadamente indolor – daí sua posição favorável ao abate humanitário e ao aborto. Crítico da inércia dos cientistas em buscar alternativas para o uso de cobaias, o filósofo tolera a prática desde que os animais sejam a única opção para estudos com potencial de prevenir o sofrimento de um grande número de pessoas.

O principal opositor das ideias de Singer é o americano Gary Francione, professor de direito da Universidade Rutgers (EUA) e pai da chamada abordagem abolicionista para a defesa dos direitos dos animais (www.abolitionistapproach.com). Para ele, todos os seres sencientes, humanos ou não, têm o direito básico de não serem tratados como propriedade. Assim, tal como a escravidão humana, a posse de animais deve ser abolida e não meramente regulada. A única forma de atingir esse objetivo, segundo ele, é por meio do veganismo, ou seja, do boicote ao consumo de qualquer produto obtido com base na exploração animal.

Munido de argumentos éticos, o ativismo em prol da libertação animal tem mirado cada vez mais a ciência e suas cobaias. No Brasil não é diferente, e o ano passado foi particularmente rico em manifestações, em virtude das discussões sobre a Lei Arouca, publicada em outubro. Na reunião da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), em Campinas, membros da Organização Protetora dos Animais empunhavam uma faixa onde se lia: “Auschwitz ainda existe para milhões de animais”.

Embora o movimento antiespecista seja predominantemente pacífico, incidentes acontecem. Ainda na SBPC de 2008, o grupo Vegan Staff agrediu com tinta vermelha a pesquisadora Regina Pekelmann Markus, coordenadora de um grupo de trabalho sobre o tema, para simbolizar “a ciência suja de sangue dos inocentes”. Em novembro do mesmo ano, a Frente de Libertação Animal invadiu e depredou um laboratório do Instituto de Ciências Biomédicas da USP. Deixaram recados pichados nas paredes: “Busquem alternativas” e “Nós voltaremos”.

__________

 

 

Deixe uma resposta

*