Mídia vê as árvores, mas não enxerga a floresta

Texto ◘ Mauricio Tuffani

O governo brasileiro comemorou, e com um pouco de razão, a taxa de desmatamento da Floresta Amazônica de agosto de 2008 a julho de 2009. O índice de 7 mil km2 de devastação nesse período é o menor divulgado desde 1989, quando o monitoramento da parte brasileira desse bioma por satélites começou a ser realizado. No entanto, repetindo lamentavelmente o que já se tornou uma tradição de nosso jornalismo, quase todos os meios de comunicação brasileiros deixam de fazer a soma de todas essas taxas anuais e acrescentá-la ao estrago que já havia sido feito antes.

Até o final de 2008, o desmatamento da Floresta Amazônica havia atingido 358,7 mil km2, segundo os dados do sistema Prodes (Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite), do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Com os acréscimos dos índices anuais sucessivos desde então, a área total desmatada cresceu 99%, ou seja, praticamente duplicou em 21 anos, atingindo 713,9 mil km2.

Toda essa área devastada corresponde a 8,4% do território nacional. Ela equivale a quase metade (45,8%) da área do Estado do Amazonas, ou, com exemplos internacionais, à soma das superfícies terrestres da França, da Holanda e da Bélgica.

1OK, o próprio ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, disse que, apesar de positiva, a novidade não basta. Mas ele fez também um comentário altamente questionável na cerimônia de divulgação do índice, no mês passado, na presença do presidente da República e dos ministros da Casa Civil, do Desenvolvimento Agrário e da Ciência e Tecnologia, além dos governadores do Amazonas, Mato Grosso e Pará – estes dois campeões das taxas de desmatamento estaduais dos últimos 21 anos.

Boa notícia ofusca desmatamento total da Amazônia, que já chegou a 8,4% do território nacional

Minc disse naquele ato de cunho político, quase às vésperas da realização da conferência do clima em Copenhague, que essa queda no desmatamento resultou da repressão aos crimes ambientais. De fato, não há como negar os esforços do seu ministério, e não só desde a gestão de Marina Silva (2003-2008), mas também de Sarney Filho (1999-2002), que no comando da pasta no segundo governo FHC não foi o pau-mandado do PFL que muitos ambientalistas apostaram que ele seria.

Uma simples verificação das taxas anuais desde 1988 registradas pelo Prodes permite constatar que o menor índice anterior, o de 1990-1991, que foi de 11 mil km2, corresponde coincidentemente a outro período recessivo da economia, que foi o do início do governo Collor. Outras coincidências, a da grande queda de 37,5% da taxa de 1994-1995 para a de 1995-1996 e, na sequência, a redução de 22,7% para o índice de 1996-1997, que aconteceram justamente no período de queda no crescimento real do PIB – de 5,9% em 1994 para 4,2% em 1995 (crise do México), 2,7% em 1996 e 0,1% em 1997 (crise asiática).

Neste ano, apesar de o Brasil ter obtido bons resultados em meio à crise internacional, vários setores de nossa economia foram abalados, inclusive o do agronegócio, no qual muitos investimentos têm sido realizados na forma do avanço sobre as bordas da Floresta Amazônica, especialmente no Mato Grosso. Em outras palavras, tem faltado muita curiosidade jornalística não só para contextualizar melhor o assunto, mas também para investigar se há alguma relação de causalidade entre o desaquecimento da economia e a queda nos desmatamentos.

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