Quando as artes plásticas viram literatura

Texto ◘ Oscar D’Ambrósio

O escultor, pintor e desenhista Sergio Romagnolo, professor do Instituto de Artes, câmpus de São Paulo, está se embrenhando em uma nova atividade, a literatura, com a produção do romance A feiticeira e as máquinas. O que pode parecer estranho ao artista plástico num primeiro momento, soa bastante lógico sob um olhar mais abrangente de sua obra. Já pelo título é possível perceber que ela vai lidar com questões caras ao artista: as ambiguidades, os relacionamentos humanos e o universo tecnológico em que vivemos.

No livro, Romagnolo propõe discussões sobre a importância dos meios de comunicação de massa, o papel dos produtos de consumo e a futilidade nas relações humanas, cristalizada muitas vezes nos seriados de televisão, uma de suas matrizes criadoras.

Em seu ateliê na Vila Sônia, na capital paulista, ele guarda desenhos dos anos 1980 nos quais essa crítica ocorria de maneira mais direta, sem a sutileza que o trabalho foi ganhando. Ainda naquela década, ele começou a colocar super-heróis nas telas, com o uso da tinta acrílica, em situações cotidianas.

O artista sempre mostrou apreço por uma visão bem-humorada dos seriados de televisão. Desde aquela época, fotografava imagens e as projetava sobre a tela para pintá-las. Era a manifestação da vontade de interferir sobre aquilo que assistia quando era criança.

No final dos anos 1980, Romagnolo rea-lizou as obras em plástico modelado que lhe deram maior notoriedade. São feitas com um maçarico de gás propano, que amolece placas de plástico encostadas sobre modelos de argila úmida daquilo que se deseja deformar: réplicas de santos, profetas de Aleijadinho, fuscas ou instrumentos musicais.

 

 

Romagnolo considera o escultor mineiro “o maior artista das Américas”. Ele decidiu trabalhar sobre as obras dele após conviver com réplicas dos profetas na Faap, onde se licenciou em Artes Plásticas. Depois, maravilhou-se ao ir para Congonhas do Campo (MG), onde estão as peças do escultor mineiro.

A discussão que se instaura é sobre a aparente imperfeição do resultado final, que parece mal-acabado e contraria a lógica dos modelos originais. Coloca-se em questão a própria noção de belo e, acima de tudo, enxerga-se, por meio do plástico, uma civilização que lida com o cotidiano num tom derrisório, de ausência de referenciais.

As esculturas do artista, ocas, discutem ainda a sensação da falta de recheio. Elas são apenas um simulacro, uma representação. Sua essência foi perdida em nome de uma progressiva diluição, de uma carência de sentido e de uma plastificação que, por um lado, geram imagens falsas, mas, por outro, encantam pelo desequilíbrio e fascinação que instauram.

Os trabalhos mais recentes em pintura são sobre o seriado A feiticeira. Os personagens Samantha e seu marido James aparecem nas mais variadas situações, mas sempre desfocados, como se a televisão tivesse algum problema. As imagens são sobrepostas, numa alusão ao poder que esse veículo de comunicação de massa tem de criar mitos que vencem o tempo pela sua onipresença.

Nessa linha de raciocínio, Romagnolo, nascido em 1957, mestre e doutor em Artes pela USP, respectivamente com as pesquisas Esculturas: rugas e alegorias e O vazio e o oco na escultura, com mais de 30 anos de carreira artística, já realizou numerosas exposições individuais e coletivas, com um trabalho permeado pela autobiografia.

A nostalgia se faz presente, por exemplo, na lembrança dos cenários bem iluminados e bonitos de séries como A feiticeira. Ao escolher o tema, realiza pinturas com sobreposições de imagens a partir de frames da televisão com segundos de diferença. A pintura se dá então pela sobreposição desses momentos.

Sergio Romagnolo coloca em seu primeiro romance elementos tradicionais de sua arte crítica ao universo ficcional

Romagnolo tem uma trajetória caracterizada por uma visão do mundo que considera o cotidiano como elemento fundamental. Ele é a matéria-prima a ser desmontada, deformada e reapresentada de uma nova maneira, provocando o observador a olhar o próprio entorno de maneira renovada.

Os santos desmaterializados, aparentemente derretidos, as telas que aludem a embalagens de produtos de consumo e as imagens de meninas que parecem líquidas são formas de estabelecer um visual que se distingue pelo não conformismo e pela falta de certezas em nome de um indagar constante sobre os caminhos da civilização.

 

 

O romance, assim, cuja narrativa tem como mote uma mulher misteriosa e seu elo com um universo ficcional de diversas máquinas, encontra paralelo no trabalho plástico mais recente do artista, realizado a partir de pequenas peças mecânicas que compõem um mundo que ele deseja expor em breve.

Ao sair das telas de dimensões maiores e das esculturas de grande porte, Romagnolo revela um mergulho no intimismo que a literatura propicia. Abraçando a palavra, certamente também vai mergulhar no poder que ela tem de gerar imagens que, de diversas formas, vão, certamente, enriquecer o seu mundo plástico.

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