Sapo paulistinha

Texto ◘ Luciana Christante

Nos limites da capital, acompanhamos uma expedição a procura de anfíbios conhecidos até agora apenas pelo canto; esta é uma das últimas etapas de um trabalho que, busca mapear a biodiversidade da região e já identificou três espécies

A chuva forte nos pegou subindo uma trilha íngrime na mata fechada, o que por sorte nos protegeu das rajadas de vento e água. Faltava pouco para anoitecer. Parados no declive e sob guarda-chuvas, comemos sanduíches de presunto e queijo enquanto cogitávamos se seria mais prudente abortar o plano e voltar. Depois de 20 minutos, porém, a tormenta cedeu e seguimos. Quando atingimos o topo do morro, o vento ruidoso já havia limpado o céu. E no horizonte se perfilavam, da esquerda para a direita: as luzes de Santos, de Mongaguá, de Itanhaém e de Peruíbe, delimitadas pela linha do mar. Visão privilegiada de um longo trecho do litoral sul paulista. Mas o descanso e o êxtase duraram pouco, pois nosso destino estava mais embaixo. Era preciso descer pela encosta do morro para chegar ao lugar onde nosso anfitrião tinha esperança de encontrar uma espécie de sapo que até então ele só conhecia pelo canto.

O biólogo Leo Ramos Malagoli, de 34 anos, se embrenhava mais uma vez pelas já familiares trilhas do Núcleo Curucutu, um dos oito núcleos do Parque Estadual da Serra do Mar. Em dezembro passado, a reportagem da Unesp Ciência o acompanhou em sua 27ª viagem ao local desde 2005, quando ele começou a estudar sapos, rãs e pererecas que habitam aquela porção de Mata Atlântica, da qual uma parte pertence a terras paulistanas (veja quadro na pág. 41).

 

Mosaico de paisagens
Curucutu abriga floresta alta e fechada; matas nebulares, menos densas e mais baixas; e campos de altitute (foto), com vegetação que lembra o cerrado

 

Leo acumula 188 dias de trabalho de campo, a maior parte deles entre 2007 e 2009, quando empregou uma metodologia sistemática de observação e coleta destes animais. O esforço foi capitaneado por Célio Haddad, professor do Instituto de Biociências da Unesp em Rio Claro, com o objetivo de mapear as espécies de anfíbios anuros que vivem na região. Haddad é um dos coordenadores do projeto Biota da Fapesp, que financiou a pesquisa e nos últimos dez anos produziu um extenso levantamento da biodiversidade paulista.

No quintal da cidade

Apesar de ter coletado praticamente tudo o que precisava para sua dissertação de mestrado, Leo vive uma situação inusitada, já que oficialmente ainda não é aluno de pós-graduação da Unesp. “Estou estudando que nem um condenado”, diz sobre a prova de ingresso que prestará em Rio Claro no dia 10 deste mês. Mesmo sem vínculo acadêmico formal, ele é possivelmente o biólogo que mais conhece os anfíbios da capital paulista. “Tem gente que vai para a Amazônia, o Pantanal etc. Ok, é muito importante, mas a gente precisa conhecer também o quintal da nossa casa. E ainda tem muita coisa para pesquisar aqui”, defende Leo, com seu forte sotaque ítalo-paulistano.

 

Acima, espécie encontrada no local

 

Fascinado por esses seres úmidos e saltitantes desde moleque, o biólogo já se interessou pelos anfíbios do Parque Trianon, um quarteirão verde encravado na avenida Paulista, e do Parque da Luz, na região central da cidade. No Curucutu, onde as visitas agora são esporádicas e devem apenas “preencher lacunas dos dados”, ele identificou 65 espécies, das quais três inéditas.

“Tem dois ou três bichos que eu ainda não vi, só conheço a voz”, afirma o biólogo, para quem a classificação popular entre sapos, rãs e pererecas é arbitrária, pois muitas vezes características típicas de cada qual aparecem juntas na mesma espécie. “Para mim, é tudo sapo”, decreta. Mas nossa tentativa de encontrar as espécies furtivas fracassou; elas nem sequer deram a graça do seu canto. “É preciso paciência”, contemporiza. Em muitos pontos da trilha, porém, a algazarra sonora era grande. Segundo o biólogo, o tema da balbúrdia é sempre o mesmo: marcação de território e sexo.

 

Registro sonoro
Leo grava vocalização dos animais;

 

Para estudar esses anfíbios é preciso ter audição aguçada. “Essa é a perereca-flautinha”, aponta Leo; “Esse é o sapo-martelo”, diz em outro momento, apenas para citar os exemplos mais fáceis, isto é, que os ouvidos destreinados da reportagem também puderam distinguir em meio ao alarido das cigarras.

No rio Camburi, que naquele trecho da Serra do Mar é um córrego pacato, o pesquisador sacou da mochila o gravador e um poderoso microfone para registrar a vocalização dos animais. Também mediu a temperatura da água e do ar e registrou os dados, com dia e hora, em uma de suas duas cadernetas. Se estivesse chovendo, usaria a outra, da marca “Writing in the rain”, cujo papel é à prova d’água, revela o biólogo bem equipado.

Ao longo da incursão, que durou quase seis horas, encontramos alguns de nossos personagens, certamente os menos esquivos. A maioria mede pouquíssimos centímetros, com exceção de uma fêmea de sapo-cururu, que parecia um gigante perto de seus colegas. Para se ter uma ideia, ainda no Camburi, Leo pegou um jovem sapo-cururuzinho, do tamanho da unha dele. Ao contrário do que se pensa, a maioria dos sapos é assim, minúscula, explica. E também frágil.

Diferentemente de aves e mamíferos, anfíbios são seres inaptos para grandes deslocamentos. Sua existência depende de condições muito específicas de uma área geralmente pequena, como a margem de um rio, as pedras de uma cachoeira ou as folhas de uma determinada planta. “Se você altera esse ambiente, as espécies que vivem nele tendem a se extinguir, pelo menos localmente”, afirma.

Espécies em declínio

É esta fragilidade que mantém os anfíbios sempre no topo da lista das espécies de vertebrados mais ameaçadas pela ação humana. “Como eles têm a pele úmida e permeável, são muito suscetíveis aos agrotóxicos, à poluição da água e à perda da cobertura vegetal, que os expõem ao sol e ao ressecamento”, explica Célio Haddad, em entrevista feita por telefone após a expedição.

 

Armadilhas
Baldes enterrados no chão foram usados para capturar os bichos

 

Além disso, diz, a maioria tem um ciclo de vida bifásico, ou seja, depende tanto da água como da terra. E a desconexão entre esses habitats – consequência típica da expansão urbana – é fatal para sua sobrevivência.

À medida que o tamanho das populações de anfíbios diminui, surge outro problema. Em grupos menores, os acasalamentos consanguíneos são mais frequentes e, com o tempo, diminuem a diversidade genética e a aptidão dos indivíduos para se adaptar a mudanças no ambiente.

O declínio da população de anfíbios pode trazer sérios desequilíbrios ambientais, alterando inclusive a rotina de quem mora nas cidades. Num mundo com menos sapos haverá mais insetos (seu principal alimento), que, ao migrarem para outros ambientes, podem se transformar em pragas agrícolas e vetores de doenças. Os sapos também fazem parte da dieta de uma vasta gama de vertebrados, que correm o risco de ter seu cardápio empobrecido. “Os anfíbios são um elo importante da cadeia alimentar”, destaca Haddad. Para piorar, o aquecimento global torna ainda mais incerto o futuro desses seres (veja quadro na pág. 39).

O trabalho de Leo é o primeiro a investigar a população de anfíbios no Núcleo Curucutu, onde a fauna de aves e mamíferos já é relativamente bem estudada. “Tem pouca gente interessada nos sapos”, compara. Os resultados obtidos até agora colocam a região em terceiro lugar no ranking paulista de biodiversidade de anfíbios anuros, depois das reservas de Paranapiacaba e Boraceia. “Não que outras regiões do Estado não tenham riqueza igual ou maior. É que ainda há poucos estudos sistemáticos e de longo prazo”, explica o biólogo. Segundo Haddad, o Estado de São Paulo ainda não tem uma lista dos anfíbios que abriga. “É o que estamos fazendo.”

Anfíbios são os vertebrados com mais espécies em declínio atualmente, o que poderá trazer sérios desequilíbrios ambientais. Num mundo com menos sapos haverá mais insetos, que podem se transformar em pragas agrícolas e vetores de doença

As 65 espécies identificadas por Leo não estão distribuídas de forma homogênea no Núcleo Curucutu, até porque a geografia do local é bastante diversa. Com altitudes que variam entre zero e 870 metros, a região é um mosaico de distintas vegetações. Algumas partes estão recobertas por floresta alta (até 30 metros); outras, por floresta mais baixa (até 15 metros), também conhecida como mata nebular. Em vários pontos, porém, o que se vê são os chamados campos de altitude, onde a flora é rasteira, e o chão, pedregoso, lembrando paradoxalmente a paisagem do cerrado.

 

Visão panorâmica
No ponto mais alto da trilha, foi possível avistar um longo trecho do litoral sul paulista, de Santos a Peruíbe

 

Até há pouco tempo, acreditava-se que os campos de altitude do Curucutu eram consequência de desmatamentos ocorridos nas décadas de 1940 e 1950, já que nesse período, antes de se tornar parque estadual, o local foi explorado por uma carvoaria. Essa hipótese caiu por terra com resultados recentes obtidos por pesquisadores da Esalq-USP, de Piracicaba. “Esse mosaico de floresta e campos abertos está presente ali há 27 mil anos”, afirma Luiz Carlos Ruiz Pessenda, co-autor do artigo publicado em fevereiro de 2009 na revista Quaternary Research.

Análises do solo revelaram que, naquela época remota, as araucárias dominavam a área, o clima era mais frio e os campos de altitude de hoje eram o que os geólogos chamam de paleolagoas, agora totalmente secas. “As araucárias migraram para o sul, em busca do frio, e a mata tropical está avançando muito lentamente sobre os campos”, explica Pessenda. De fato, ainda se vê uma araucária e outra perdida na paisagem.

Em um desses campos de altitude, nos deparamos com uma armadilha usada recentemente pelo pesquisador para capturar os animais. São dez baldes enterrados no chão e dispostos em linha, acompanhados por uma cerca guia. Os baldes ficam abertos e com água durante a noite e, na manhã seguinte, os animais ali aprisionados são classificados antes de ser libertados. “Preciso vir aqui um dia para desmontar tudo isso”, cobra-se Leo. Ao todo ele usou oito linhas de armadilha, contando as que foram instaladas nas matas nebulares e na floresta densa.

“Como já esperávamos, encontramos uma diversidade de espécies menor nos campos de altitude, que são mais secos e homogêneos”, afirma. “A mata tem diferentes estratos, a vegetação é mais variada. Algumas espécies só vivem em bromélias grandes, por exemplo. E para essa bromélia grande existir, a mata precisa ter uma certa idade”, completa.

Por causa dessa relação íntima com a flora e a fauna local, os anfíbios vêm sendo considerados importantes indicadores da biodiversidade em geral. Exemplo disso é o artigo publicado por Haddad na revista Science em fevereiro de 2009, em co-autoria com pesquisadores da USP e mais três de universidades americanas. Nele, a distribuição de três espécies de rãs ao longo dos últimos milhares de anos foi usada para identificar áreas de alta biodiversidade, que servem de refúgio de espécies e, portanto, merecem um esforço prioritário de conservação.

No escuro

Aparentemente, os anfíbios do Curucutu podem coaxar tranquilos naquele rincão verde e úmido da capital. Em compensação, o fato de a sede do núcleo pertencer à maior cidade da América Latina não garante boa infraestrutura para os humanos que ousam visitá-lo. Quando partimos para a trilha, no começo da tarde do sábado, faltava energia elétrica. “Estamos esperando a Eletropaulo”, informou um funcionário que não parecia muito acostumado a receber visitantes.

É compreensível. Além de o núcleo ser pouco divulgado à população, a estrada que dá acesso a ele está em péssimas condições. À noite, ao voltarmos imundos e com as galochas recobertas de lama, tudo às escuras ainda. Alguém lembrou que estávamos no “fundão”, o último lugar da cidade onde se vai consertar alguma coisa. O jeito foi tomar banho frio.

No dia seguinte, a chuva e a forte neblina sabotaram nosso plano de conhecer outros pontos de observação. O desafio se tornou mais prático: fazer o carro 1.0 (ano 2000) de Leo subir a ladeira de lama pela qual se saía do parque. Obstáculo superado com valentia, como os muitos outros que já esperávamos encontrar até atingir o asfalto. Modesto, o motorista esclarece aos passageiros: “É que na outra encarnação esse corsinha foi um jipe”.

Ameaça pandêmica

 

 

Uma doença causada por um fungo, a quitridiomicose, pode estar colocando em risco a vida dos anfíbios do planeta. O problema começou a chamar atenção nos últimos anos, quando se observou um aumento do número de sapos encontrados em seus habitats com alterações na pele ou até mesmo mortos.

“No Brasil, ainda não achamos nenhum sapo morto por causa disso”, afirma Célio Haddad, do Instituto de Biociências de Rio Claro. “Mas em todos os lugares que testamos, o fungo estava presente.”

Os anfíbios do Núcleo Curucutu ainda não foram testados, mas, segundo o pesquisador, é praticamente certo que o resultado será positivo. As causas da micose pandêmica ainda são mal compreendidas pelos cientistas. Uma das hipóteses mais cogitadas é que o aumento da temperatura do planeta poderia aumentar a letalidade do fungo, segundo Haddad.

Tão perto, tão longe

 

 

Para chegar ao Núcleo Curucutu é preciso passar por regiões pouco conhecidas pelos habitantes da Grande São Paulo. Também conhecido como “fundão”, está localizado no distrito de Marsilac, no extremo da Zona Sul, onde a cidade tem seu pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Com 25 mil hectares, o núcleo abrange também os municípios de Itanhaém, Juquitiba e Mongaguá.

O Curucutu abriga as nascentes dos rios Capivari e Embu-Guaçu, que abastecem o reservatório de Guarapiranga. Antes de se tornar reserva, em 1958, o local foi explorado por uma carvoaria. Apesar do desmatamento decorrente da atividade, o núcleo não tem sinais de ocupação humana intensa e é um dos trechos menos estudados da Mata Atlântica paulista. Com agendamento prévio, é possível fazer duas trilhas dentro do parque. Recomenda-se checar as condições da estrada antes da visita. Informações: http://migre.me/gSWO. Tel.: (11) 5975-2000.

Muito pequenos, frágeis e ameaçados

Pingo-de-ouro (Brachycephalus ephippium): machos de até 14 mm

 

Rã-de-corredeira (Hylodes sp), uma das novas espécies descritas

 

Rã-do-folhiço (Ischnocnema hoehnei): distribuição restrita à Mata Atlântica

 

Sapinho-do-riacho (Cycloramphus eleutherodactylus): mimetismo

 

Rãzinha-do-folhiço (Ischnocnema sp) também é espécie inédita

 

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