Aprendendo a ser índio

Texto ◘ Pablo Nogueira

Pesquisadores de Presidente Prudente precisam pensar como guaranis para conseguir reconstruir artefatos arqueológicos de mais de quatro séculos

Viajar no tempo é possível, ainda que de maneira imperfeita. Esta é a sensação que se tem ao observar Hiuri Marcel di Baco manipulando com perícia um bloco informe de argila para que, aos poucos, se torne uma réplica quase perfeita de um cachimbo guarani com pelo menos quatro séculos de idade. À medida que a obra toma forma, Baco descreve as particularidades que a tornavam mais adaptada para o cotidiano dos índios. “Ele tinha uma forma inclinada para ser apoiado no tambetá, o enfeite que usavam um pouco abaixo do lábio”, explica. “Por isso o furo por onde a fumaça sai não pode ser feito no meio do cabo, tem que ficar um pouco mais para cima.”

A precisão segue até o arremate final, quando ele procura reproduzir o emaranhado de pontos e linhas que decora a peça. Os olhos treinados do artesão paulistano distribuem as linhas verticais, horizontais e diagonais segundo dois padrões diferentes. Uma vez decifrados, Baco pode decorar, com bastante fidelidade, até as partes da réplica que no modelo original foram destruídas.

A reconstrução de artefatos arqueológicos é chamada de arqueologia experimental, e é uma prática que, apesar de pouco difundida no Brasil, tem se mostrado uma importante ferramenta para a compreensão da cultura de um determinado povo – principalmente quando os objetos que restaram dele, de tão fragmentados, não são capazes de contar sua história sozinhos.

 

Herança valorizada
A reserva técnica do Museu de Arqueologia de Iepê abriga 30 mil peças descobertas na região do Vale do Paranapanema

 

O cachimbo reconstituído pelo pesquisador é o resultado de uma década de estudos do Laboratório de Arqueologia Guarani (LAG) da Unesp de Presidente Prudente. Para chegar no mesmo nível de detalhamento, o grupo, antes de qualquer coisa, teve de identificar como esses objetos eram feitos, para quê e com quais materiais. Como explica Baco, neste trabalho é preciso se pôr no lugar dos índios para alcançar um resultado o mais próximo possível da realidade. “As dificuldades de construir uma réplica demonstram a capacidade cognitiva que eles tinham. Para fazer a peça, tento pensar como eles pensavam”, diz.

O grupo reconstrói milhares de fragmentos que vieram à tona há pouco mais de uma década no oeste de São Paulo. Aldeias guaranis ocuparam a região desde pelo menos mil anos atrás até o século 16, quando a instalação de missões jesuítas provocou importantes mudanças no seu estilo de vida, constatáveis também na cerâmica que produziram no período. O fim das missões levou os guaranis a fugirem para destino ignorado. Mas, escondidos sob a terra, permaneceram os testemunhos dessa ocupação extensa.

Em 1998, uma grande seca expôs trechos de terra que, normalmente, ficavam sob as águas dos rios e lagos da região. Os terrenos estavam repletos de ferramentas, instrumentos, enfeites e muita cerâmica, todos preservados da ação destruidora dos arados pela cobertura protetora das águas. A terra exposta foi então varrida pelos ventos, e o resultado foi o afloramento de uma grande quantidade de material.

“Naquele ano, um colega da Unesp, o antropólogo Paulo Santilli, me procurou e disse que um tio fazendeiro, que vivia no município de Iepê, tinha reunido quatro caixotes cheios de cacos de cerâmica até a boca”, relembra a arqueóloga Neide Faccio, diretora do LAG. Foi o começo de um programa de escavações que segue até hoje. Somente no município de Iepê, comunidade de 6 mil habitantes a 80 km de Prudente, já foram encontrados 16 sítios arqueológicos, separados por apenas 2 km ou 3 km de distância.

À medida que as escavações revelavam grande quantidade de cerâmica guarani, aumentava o interesse dos moradores de Iepê pelos antigos habitantes do local, o que acabou levando ao surgimento em 2000 do Museu de Arqueologia de Iepê (MAI) – parceria entre Unesp, USP e a prefeitura local –, que hoje possui um acervo de 30 mil peças catalogadas.

Produção de cobrinhas
Na região, assim como ocorre em quase todo o Brasil, a maior parte das peças de cerâmica indígena é encontrada em fragmentos. Neide e sua equipe realizaram análises pormenorizadas de cada objeto catalogado levando em conta 44 categorias. Com base no que aprenderam, começaram a desenvolver técnicas para restaurar as peças. Uma delas foi uma tabela gráfica criada para estabelecer a curvatura original dos objetos tendo como ponto de partida apenas o perfil de um fragmento da borda.

O estudo da argila identificou a presença de minerais, carvão e restos de cerâmica moída como parte da mistura usada para a composição dos objetos. Esses elementos agiam como antiplásticos, pois conferiam mais densidade ao material e estabilidade às estruturas – o carvão era usado preferencialmente nas de menor porte.

Outra diferença, associada ao tamanho dos vasos, envolve a própria técnica com que foram confeccionados. As peças maiores, com mais de um metro de diâmetro, eram construídas segundo a técnica de roletes, que consiste na produção de “cobrinhas” delgadas de argila. Os roletes são superpostos, formando camadas, o que permite ao artesão criar estruturas mais estáveis do que as que obteria se tentasse modelar diretamente uma peça inteiriça de grande porte em argila.

 

Mão na massa
Etapas da produção da réplica. Experimento reconstituiu até os padrões gráficos usados na decoração da peça

 

 

Ao longo dos estudos, os pesquisadores perceberam que os formatos das peças também variavam com a função a que se destinavam. Vasos com marcas de dedo na superfície serviam para preservar alimentos quentes. Os menores serviam para carregar água. O yapepó, uma panela de boca alta, destinava-se a cozinhar grãos duros, enquanto outra, em formato de caçarola, destinava-se aos moles.

Para reconstituir as formas originais dos vasos, o grupo desenvolveu um tipo de cola feita de sedimentos de argila. E pigmentos minerais foram empregados para esconder as fissuras, dando a ilusão de uma peça inteiriça. “Mas se a peça for imersa em água, a cola pode ser retirada”, diz Neide, enfatizando que usar de procedimentos reversíveis é essencial para assegurar a integridade do patrimônio arqueológico.

Outra descoberta importante do grupo foi sobre os fundos das peças. Até então, boa parte da literatura arqueológica sobre a cerâmica guarani sugeria que os vasos tinham fundo cônico. As escavações em Iepê, na região do vale do rio Paranapanema, porém, mostraram que eram usados fundos arredondados – e as peças restauradas pela equipe do LAG seguem esse formato. Neide diz que cada vaso leva em média 60 dias para ser restaurado. Atualmente estão em exposição 82 peças no MAI. A coleção inclui também enfeites, ferramentas e objetos de uso cotidiano.

O know-how adquirido com a restauração levou Neide a vislumbrar a possibilidade de construir peças. E havia um bom motivo para isso. Após o desaparecimento dos Guarani, a região foi ocupada por índios Kaingang, mas foram encontrados raríssimos artefatos arqueológicos ligados a essa cultura. Neide identificou uma descendente da tribo que ainda dominava as técnicas Kaingang tradicionais de cerâmica, e procurou aprender com ela. A primeira peça, construída em 2006 e apresentada em reunião da Sociedade de Arqueologia Brasileira, chamou a atenção. “Pessoas de várias universidades mostraram interesse em aprender como fazemos nosso trabalho”, diz ela.

A dica para a reconstrução de cachimbos guaranis veio pouco depois. Em agosto de 2008 foram encontrados os restos de um no município de Junqueirópolis, próximo a Prudente. Levantando a literatura arqueológica sobre o tema, Neide deparou-se com um artigo que descrevia que os guaranis esculpiam esses objetos a partir de um pedaço grande de argila seca. Ao examinarem o fragmento recém-encontrado, porém, Neide e Baco não acreditaram que ele tivesse sido produzido a partir de um único bloco inteiriço. Na parte interior da boca do cachimbo viram marcas que sugeriam o uso da técnica de roletes, a mesma aplicada na construção dos vasos de grande porte. Mas isso era uma hipótese. O único jeito de determinar se estava certa era construir uma réplica.

 

A parte e o todo
Analisando os fragmentos, Neide e sua equipe reconstituem o formato original e conseguem restaurar as peças

 

Eles optaram por usar uma argila sem adição de antiplástico. A literatura também dizia que o canal por onde a fumaça passa para deixar a forquilha do cachimbo deveria ser feito logo no começo da confecção do objeto. A experiência prática, porém, mostrou que a única maneira de fazer com que o canal ficasse na posição adequada era realizar a perfuração depois que o objeto já estivesse modelado. Confeccionado o cachimbo, ele foi colocado no forno. Como havia demasiado ar misturado na argila, porém, a peça se fez em pedaços. Foi preciso começar tudo de novo. Mas o resultado foi esclarecedor. “Conseguimos mostrar que o cachimbo foi produzido com a técnica de roletes”, diz Neide.

A literatura arqueológica sugeria que os cachimbos guaranis eram feitos com blocos inteiriços de argila. Mas a produção de uma réplica a partir de um fragmento mostrou que os índios dominavam também outras técnicas

Além de solucionar debates arqueológicos sobre tecnologia, o uso de réplicas fiéis oferece várias possibilidades. Uma das mais importantes é assegurar a qualidade do acervo exposto ao público nos museus – ao mesmo tempo que permite manter nas reservas técnicas as peças muito frágeis. O efeito desse trabalho na educação também é importante. “Muitas vezes as crianças aprendem a visão estereotipada de que o índio era preguiçoso”, lembra Baco. “Mas eles levavam 30 dias para derrubar uma árvore usando um machado de pedra. Quando as crianças veem o quanto é difícil produzir uma peça de cerâmica, elas desenvolvem uma visão diferente do quem foram os índios.”

___________________

 

Deixe uma resposta

*