Boemia marginal

Texto ◘  Igor Zolnerkevic

Historiadora retrata os costumes das tabernas de São Paulo na virada para o século 20, quando a cidade queria ser Paris, mas ainda tinha ares de vila colonial

A Esperança morreu em 1913. Ao menos a dos “pobres biscateiros sem vergonha”que costumavam beber nela até cair. Morreu junto com a Rua do Quartel e um trecho da Santa Tereza. Três vias demolidas para a ampliação do então acanhado Largo da Sé, que se transformaria na famosa praça, marco do centro da cidade de São Paulo. Assim desapareceu uma grande concentração de tabernas, que o jornal O Estado de S. Paulo descreveu em 1898 como “imundos receptáculos de misérias, (…) escolas do vício, conhecidas vulgarmente pelo nome de ‘farras’ (…)”. Com a destruição dessas casas, a “massa que vagava bêbada” de dia ou de noite por ali migrou para os lados do Mercado Municipal. A morte da Esperança de uns foi também um alívio para outros, os ditos cidadãos de bem (e de bens), que circulavam pela região em direção aos cafés, confeitarias e restaurants das ruas São Bento e Quinze de Novembro.

Essa região, nesse período, e seus costumes beberrões são o tema da tese de doutorado “Alegrias engarrafadas: os álcoois e a embriaguez na cidade de São Paulo no final do século XIX e começo do XX”. O trabalho, defendido dia 24 de fevereiro pela historiadora Daisy de Camargo, faz uma reconstituição de como eram as tabernas, seus frequentadores e a própria Rua da Esperança, traçando um perfil da boemia marginal do centro de São Paulo.

 

Crème de la crème
O recém-instalado bonde da linha Liberdade passa pelo Largo do Rosário (atual Praça Antônio Prado), em frente à confeitaria mais chique da cidade, a Castellões

 

“Ela desenvolveu uma tese inusitada, fazendo um trabalho de detetive com os arquivos, explorando detalhadamente locais e pessoas”, conta o orientador de Daisy, o filósofo Carlos Machado, da Unesp de Assis. Realizada com apoio da Fapesp, a tese foi inspirada no trabalho do pensador alemão Walter Benjamin (1892-1940), que avaliou os gostos e costumes da Paris da Belle Époque.

Daisy se concentrou no período de 1860 a 1920, quando São Paulo teve sua primeira fase de crescimento explosivo. “Se você olhar uma foto do centro de São Paulo da metade do século 19, vai pensar que é Ouro Preto”, diz. “Era um universo entre o urbano e o rural. Ainda assim, embora a industrialização fosse incipiente (ela começa para valer a partir de 1920), a população da cidade tinha saltado de 30 mil pessoas em 1870 para 200 mil no começo do 20. Já era outra cidade.”

Parte desse crescimento se explica pela vinda dos primeiros imigrantes, a maioria italianos, que, desencantados com a lavoura, se mudaram para a cidade, instalando-se em bairros como o Bexiga, antes um gueto de ex-escravos, libertos pelas leis abolicionistas promulgadas entre 1871 e 1888.

Contribuiu também a fundação da Faculdade de Direito, no Largo São Francisco, em 1828, que atraiu estudantes das capitais de todo o país. Rapazes acostumados com o luxo de cidades grandes como Salvador e Rio de Janeiro, esses alunos geraram uma demanda por hotéis, livrarias, cafés e tabernas. “É a partir de 1860 que se começa a sentir a força desses consumidores”, explica a historiadora.

Escravos de ninguém
Daisy se interessou pelos costumes desse período quando trabalhava para o Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico), da Secretaria da Cultura do Estado. Pesquisando material para o tombamento de imóveis no centro da capital paulista, ela se impressionou com o número de processos criminais por embriaguez.

Dos 38 processos que Daisy examinou, o que mais chamou sua atenção foi o de João Albino de Oliveira, o João Gato. Ele foi preso aos 22 anos, em 1878, após desacatar um policial em frente a um hotel. Portava uma garrafinha de cachaça no bolso.

Alternando trabalhos, ora como carregador de malas na Estação da Luz, ora como moço de cavalariça, João Gato era no aspecto ocupacional como a maioria dos réus desses processos: pertencia à classe dos pobres analfabetos, negros, mulatos e brancos sem emprego e moradia fixos – pessoas que vagavam pelas ruas com uma liberdade que incomodava a elite, seus empregados e escravos.

A Rua da Esperança
Em duas visões por volta de 1910, em direção ao Largo da Cadeia (atual Praça João Mendes). Em 1897 foi rebatizada como Capitão Salomão contra a vontade popular

 

Era na confraternização das tabernas, enquanto bebiam, que tanto esses homens quanto as mulheres (que faziam bicos de serviços domésticos) ficavam sabendo de oportunidades de trabalho. Até arranjarem o que fazer, iam bebendo até não poder mais, causando arruaças pelas quais acabavam presos e julgados. A pena variava de assinar um “termo de bem viver”, uma espécie de contrato em que o réu prometia se comportar, até três meses de prisão.

Ao contrário dos demais réus, porém, que permaneciam mudos diante do juiz intimidador, que sem pudores os xingava de bêbados e vagabundos, João Gato respondeu às acusações negando tudo. “Não sou escravo de ninguém”, afirmou. Ele conseguiu fugir e nunca foi encontrado.

Gato certamente era do tipo que bebia nas tabernas das ruas Santa Tereza, Esperança e do Quartel. Por ser a mais mal citada nos jornais da época, Daisy elegeu a rua da Esperança como símbolo da região, reconstruindo-a com detalhes em sua tese. Ela identificou todas as casas da rua, que começava no largo da Sé e terminava no largo da Cadeia (atual praça João Mendes).

Para isso, ela consultou os almanaks (publicações anuais que listavam os estabelecimentos comerciais da cidade e que serviam de guias) e os comparou com as plantas dos imóveis, arquivadas com observações de engenheiros fiscais sobre quão sujos e desordenados eram os interiores desses estabelecimentos. Somando informações desses documentos a fotos, relatos de cronistas, notícias de jornais e os inventários de todos os bens de dois taberneiros falecidos, Daisy desenhou um bom quadro do que seria percorrer a Esperança e entrar em algumas de suas casas.

No largo da Sé, bem em frente à rua, havia um quiosque, uma construção de madeira na calçada onde as pessoas se encontravam e bebiam em pé. Ambientes como esse eram comuns nas grandes cidades do mundo na época, como em Lisboa e Paris. Já na própria Esperança, das quase 50 casas, a maioria térreas, 18 eram tabernas. Havia também oito armazéns – “lojas de molhados e gêneros do paiz” onde se podia comprar bebidas e consumi-las na porta do próprio estabelecimento. Ao final da rua, já no largo da Cadeia, o número 76 abrigava o Hotel Progresso, local de prostituição, onde obviamente também se bebia.

A via era endereço, por fim, da padaria de João Coelho. Esse tipo de estabelecimento começou a aparecer em São Paulo em 1870. “Elas nunca foram lugares para vender apenas pão”, explica Daisy. Com a extinção das tabernas, foram as padarias, junto com os bares, que assumiram o papel de ponto de encontro para beber e jogar conversa fora.

A pena por embriaguez, vadiagem e turbulência entre o final do século 19 e o começo do 20. variava da assinatura de um termo de bem viver, uma espécie de compromisso de bom comportamento, até três meses de prisão

Rituais de bebedeira
A pesquisadora observou que os donos das tabernas – também chamadas de tascas (de “tasquinhar”, algo como “bater um rango”) ou botequins (uma gozação com o diminutivo de botica, onde se vendiam remédios antigamente) – eram portugueses, em geral. Por conta disso, durante a investigação Daisy chegou a viajar a Portugal, onde o modelo das tabernas persiste. “As tascas do Porto são idênticas às descrições que encontrei nos inventários”, diz.

A tradição das tabernas na Europa remonta ao Império Romano. Até o século 18, a taberna era o lugar que todas as classes sociais frequentavam para beber. No século 19, porém, a Revolução Industrial e a consolidação do poder da burguesia transformaram o consumo de álcool em uma questão de saúde pública, quando começou a se ter noção do alcoolismo e de que ele é uma doença. Paralelamente, ascendiam o consumo do café e os ambientes refinados para se tomar a bebida. Porém não a ponto de extinguir as tabernas.

Nos botequins portugueses e brasileiros havia mesas grandes de madeira e barris de vinho e aguardente espalhados por todos os lados. Taças não tinham espaço – vinho se tomava em copos grandes de vidro, e cachaça em copinhos. Em São Paulo havia uns toques nacionais: às vezes bebia-se em metades de cocos da Bahia.

As tabernas eram espaços voltados prioritariamente para a “bebelança”. Havia comida, mas pouca, em geral sardinha em conserva bastante salgada pelo taberneiro para aguçar a sede dos fregueses. Quem quisesse uma verdadeira refeição ia a uma “casa de pasto”, onde se comia até fartar, ou, se tivesse dinheiro, a um restaurant.

 

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Daisy destaca três rituais originados nas tabernas. O primeiro é o brinde, que persiste até hoje. Brindava-se a tudo e a todos. “Vivam os nossos queridos estudantes! Vivam os cobres! Viva a fartura! Viva o picadinho!”, dizia uma caricatura do jornal O Cabrião, que circulou por São Paulo entre 1866 e 1867. O costume foi apropriado pelas elites, que o sofisticaram a ponto de os rituais nas reuniões da alta sociedade brasileira demorarem horas. Já alguns estudantes da São Francisco, pelos idos de 1870, brindaram ao poeta Álvares de Azevedo com crânios cheios de conhaque em chamas. Ao menos é o que consta em um relato do estudante Pires de Almeida.

Os outros dois rituais carregam o estigma do alcoolismo. Um deles era o “mata-bicho”, um quebra-jejum com cachaça para “desinfetar” o corpo e “matar a preguiça”. O café passou a ser usado com esse fim no Brasil por volta de 1800, mas só virou hábito generalizado no século 20. “Em vez de tomar algo para relaxar pela manhã, você tem de tomar algo que o desperte para o mundo do trabalho”, compara Daisy.

O terceiro ritual era o de beber até cair, em que se competia para ver quem aguentava beber mais. Bem, não que ele exatamente tenha desaparecido, como ainda se vê em muito boteco por aí, mas o hábito se tornou extremamente perigoso com a instalação dos bondes elétricos na cidade, entre 1901e 1910. Os atropelamentos por bondes saltaram de 81, em 1909, para 1.446, em 1912. Não dava mais para tomar um pileque e cambalear por aí. “O espaço urbano ficou mais rápido e perigoso, era preciso mais atenção”, conta Daisy.

Bota-abaixo
Não eram só os bondes, porém, que punham em risco os boêmios. Os hábitos da região eram muito malvistos pelas elites, como mostra o trecho do jornal O Estado de S. Paulo que abre esta reportagem. Não que elas não bebessem, ao contrário do que se poderia imaginar da tão falada “cultura da sobriedade” que reinaria entre cafeterias e confeitarias do centro.

 

Largo da Sé
A boemia popular do centro de São Paulo se concentrava
nas ruas do Quartel, da Esperança e do Imperador, ao lado do
Largo da Sé

 

Depois do bota-abaixo
Essas ruas foram demolidas em 1912 para a construção da nova Praça da Sé, umas das obras da “limpeza” paulistana

 

Na Castellões, a mais chique da cidade, que ficava no Largo do Rosário (atual Praça Antônio Prado), um barão do café recém-chegado à cidade podia pedir uma caninha Paraty, dita a melhor do Brasil, ou a popular caninha produzida em chácaras na Freguesia do Ó, servida em uma taça de cristal, como observou Daisy em sua pesquisa. Uma “dama francesa” podia passar por sua mesa e convidá-lo para uma noitada regada a champanhe ou absinto no Moulin Rouge paulistano, cabaré que ficava no largo do Paissandu.

“A elite também consumia álcool, o que mudava era a forma de consumo”, explica Daisy. E essa diferença acabaria pesando nos anos seguintes. As primeiras duas décadas do século 20 em São Paulo foram marcadas pelo “bota-abaixo”, que aconteceu entre os mandatos dos prefeitos Antônio Prado (1899-1911) e Raimundo Duprat (1911-1914) e envolveu, entre outras obras, a remodelação do Vale do Anhangabaú, do parque da Luz e a ampliação da praça da Sé.

 

LAVADEIRAS E CARREGADORES
A maior parte da freguesia das tabernas eram os tipos populares do começo do século 20 que circulavam por São Paulo, retratados aqui por Vicenzo Pastore

 

O modelo era Paris, a capital do mundo do final do século 19. Seu prefeito durante o reinado de Napoleão III (1852-1870), George-Eugene Haussmann, realizou reformas radicais na cidade, com o objetivo de racionalizar o espaço público – conforme as noções científicas de engenheiros e higienistas da época – e de expulsar a população pobre do centro da cidade. Reformas “haussmanianas” aconteceram nas grandes capitais sul-americanas, como no Rio de Janeiro, onde o prefeito Pereira Passos (1902-1906) expulsou a população pobre para os morros, e em São Paulo, com o “bota-abaixo”.

Para a historiadora, não há que se ver de maneira moralista os costumes que antecederam essa limpeza. Para ela, nesses hábitos de beber há um saber acumulado, uma cultura popular de confraternização espontânea que merece ser valorizada. Apesar da artificialidade que predomina nos bares e cafés modernos, Daisy se diz otimista com a possibilidade de sobrevivência de parte daquela saudosa sociabilidade efusiva que persiste nas padarias e botecos paulistanos.

O início do funcionamento dos bondes elétricos deixou o espaço urbano mais rápido e perigoso, principalmente para os andarilhos bêbados do centro; em três anos, de 1909 a 1912, os atropelamentos passaram de 81 para 1.446

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