Rousseau, até para quem não gosta de filosofia

Texto ◘ Maurício Tuffani

Coletânea de cartas e trechos autobiográficos mostra as profundas motivações que levaram o filósofo a começar a escrever seus pensamentos

“A ideia platônica da perfeição original das coisas e da necessidade de preservar essa condição está sempre presente na noção de contrato social”, disse mais de uma vez o filósofo francês Gérard Lebrun (1930-1999). E, referindo-se ao autor do Contrato social, em pelo menos uma ocasião ele arrematou em tom de brincadeira: “Rousseau era um platônico. Aliás, todo fanático é platônico”. A piada tem tudo a ver com a rica coleção de manifestações sobre os aspectos controvertidos do pensador Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), nascido na Suíça e radicado na França durante quase toda a segunda metade de sua vida.

O pequeno volume Textos biográficos e outros ensaios reúne, além de sete fragmentos e documentos de 1755 a 1776, as quatro cartas enviadas para o poderoso censor real Guillaume-Chrétien de Lamoignon de Malesherbes, que assegurou a publicação de importantes obras do Iluminismo, mas, mesmo assim, não escapou da guilhotina em 1794. Nessa correspondência, toda ela enviada em janeiro de 1762, Rousseau tentou justificar a autorização para publicação de seus livros Contrato social, Emílio e A nova Heloísa.

É na segunda carta a Malesherbes que Rousseau conta como surgiu, aos 37 anos de idade, sua decisão de escrever seus pensamentos. Após viver anos de instabilidade familiar, infortúnios amorosos, dificuldades financeiras e amizades rompidas, ele caminhava de Paris para Vincennes, em uma tórrida tarde de verão, para visitar o filósofo Denis Diderot (1713-1784), seu amigo, preso por manifestações ateístas.

Ao interromper a caminhada para um descanso à sombra de uma árvore, ele começou a ler um jornal e se deparou com o anúncio de um concurso da Academia de Dijon. Os candidatos deveriam escrever um ensaio sobre a questão se as ciências e as artes haviam contribuído para aprimorar ou para corromper os costumes. “Oh! Senhor, se tivesse podido alguma vez escrever a quarta parte do que vi e senti sob aquela árvore, com que clareza teria feito ver todas as contradições do sistema social, com que força teria exposto todos os abusos de nossas instituições, com que simplicidade teria demonstrado que o homem é naturalmente bom e que é somente por tais instituições que os homens se tornam maus”, disse ele na carta. Essa inspiração tomou forma no Discurso sobre as ciências e as artes, que foi premiado pela academia e deu início a uma série de obras marcadas pela controvérsia e com profundas influências no pensamento político contemporâneo.
Rousseau não se considerava um filósofo. Aliás, suas opiniões sobre a filosofia não eram das mais favoráveis. “Tantas afirmações em favor dos sábios só servem para enganar quanto ao objeto das ciências e para desviar os espíritos para sua cultura. Devido às precauções que se tomam, parece haver trabalhadores demais e temer-se que faltem filósofos”, ironizou ele no Discurso sobre as ciências e as artes.

Para quem já conhece a obra de Rousseau, as cuidadosas traduções, introdução e notas de Fúlvia M. L. Moretto proporcionam um importante referencial autobiográfico sobre as mais profundas motivações desse pensador. Para quem ainda não leu seus livros, a pequena coletânea de cartas e fragmentos cronologicamente organizados pode ser um interessante passeio por um dos momentos mais apaixonados da história do pensamento ocidental.

O esporte na história do país do futebol

História do esporte no Brasil: do império aos dias atuais
Mary Del Priore e Victor Andrade de Melo; Editora Unesp; 566 págs. R$ 68

 

Escritos por historiadores de uma dezena de universidades brasileiras, ensaios analisam as diferentes modalidades esportivas praticadas no país como fenômenos culturais e investigam as influências que elas tiveram na vida social brasileira desde o século 19. A complexa relação entre o brasileiro e o futebol é abordada em sete ensaios, que tratam da chegada do jogo por aqui (com direito a foto de Charles Miller aos 17 anos), a fase de popularização e consolidação e a transformação em negócio globalizado e multimilionário. Igualmente importantes são as análises sobre o uso das atividades esportivas como fonte de legitimidade política, como aconteceu na era Vargas e na ditadura militar. Mais reveladores, por tratarem de temas menos familiares, são os ensaios que abordam capoeira, turfe, montanhismo, ginástica, surfe, automobilismo, ciclismo e esportes radicais. •PN

 

 

 

 

A trajetória da Tropicália

Brutalidade jardim­ – A Tropicália e o surgimento da contracultura brasileira
Christopher Dunn; Editora Unesp; 276 págs. R$ 37

Christopher Dunn é co-diretor do Brazilian Studies Council da Universidade Tulane, em New Orleans, e teve contato com a Tropicália nos anos 1980. Neste livro, ele se propõe a recontar a trajetória do movimento artístico capitaneado por Gilberto Gil, Caetano Veloso e Tom Zé. Mantendo o foco na carreira dos três, Dunn investiga as origens modernistas e bossa-novistas do movimento. Também acompanha seus desdobramentos mais recentes, como a descoberta por artistas independentes da Europa e dos Estados Unidos e o sucesso do trio nos EUA. Mais do que a narrativa de um fenômeno musical, o livro procura desvendar o modo pelo qual os tropicalistas pensavam esteticamente a cultura brasileira e analisar os efeitos que tiveram sobre ela. O prefácio é do grande tropicalista do teatro José Celso Martinez Corrêa. •PN

 

 

 

 

 

 

A visão dos EUA sobre a América Latina

De Clinton a Obama: políticas dos Estados Unidos para a América Latina
Luis Fernando Ayerbe (Org.) Editora Unesp; 260 págs. R$ 45

A obra discute as diferentes correntes de pensamento que concorreram para a formulação da política externa dos Estados Unidos após o fim da Guerra Fria. Os artigos abordam temas como os conflitos na Colômbia, os planos estratégicos de atuação elaborados pelo Departamento de Estado, a presença militar americana na América Latina, o combate ao terrorismo na Tríplice Fronteira de Brasil, Argentina e Paraguai, as relações econômicas e o livre comércio, a segurança energética e o desafio do Partido Democrata de substituir a doutrina de segurança consolidada durante os oito anos da administração George W. Bush. Os textos são resultado da linha de pesquisa “Integração e crise na América do Sul e a política dos Estados Unidos para a região”, vinculada ao Instituto Nacional de Estudos sobre os Estados Unidos (Ineu). •PN

 

 

 

 

 

 

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