Heleieth Saffioti – Em favor dos direitos da mulher

Texto ◘ Alice Giraldi

Feminista pioneira nos estudos brasileiros sobre gênero, uma das fundadoras do curso de Ciências Sociais de Araraquara é referência nacional nas relações sociais, econômicas e políticas entre os sexos

No saguão de entrada de seu amplo apartamento, localizado na elegante esquina da Praça da República com a Avenida São Luís, no centro de São Paulo, estão, lado a lado, cinco retratos: Rosa Luxemburgo, Che Guevara, Gramsci, Marx e Lenin. “Muita gente reserva esse local às fotografias da família; eu prefiro os meus mestres”, afirma Heleieth Iara Bongiovani Saffioti, de 76 anos, uma das mais importantes feministas brasileiras. Sob o olhar deles, outra paixão se revela: prateleiras lotadas de livros, que avançam pela sala e demais aposentos. “Um amigo que entende de cálculos estimou em 20 mil exemplares”, diz Heleieth.

Mestres e livros têm iluminado o caminho dessa socióloga de prestígio, referência obrigatória quando o tema envolve as relações sociais, econômicas e políticas entre os sexos. Pioneira na introdução no Brasil das linhas de pesquisa de estudos de gênero e estudos sobre a mulher, é intelectual de produção robusta. Participou de cerca de 200 conferências e publicou em torno de 80 artigos em revistas científicas no país e nos Estados Unidos. É também autora de 12 livros sobre o tema da condição feminina, entre os quais O poder do macho (1987) – um verdadeiro best-seller, que desde seu lançamento já vendeu 60 mil exemplares, em 12 edições – e Gênero, patriarcado, violência (2004), em que analisa os aspectos de gênero, raça/etnia e classes da violência perpetrada contra a mulher, a partir do conceito de patriarcado.

 

Heleieth participa da inauguração do centro cultural que leva o nome de seu marido

 

Como professora de Sociologia, Heleieth contabiliza mais de 40 anos de atividades – iniciadas na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara – na formação de gerações de estudantes de graduação e pós-graduação. Quem já foi seu aluno diz que é uma mestra exigente e particularmente cuidadosa com a precisão conceitual. Como pesquisadora, seu currículo inclui projetos desenvolvidos pela USP e pela UFRJ, onde criou o núcleo Gênero, Etnia e Classe: Estudos Multidisciplinares (Gecem). Atualmente, dedica-se à pesquisa sobre violência de gênero, atividade que desenvolve com o apoio do CNPq, do Laboratório de Psicologia Ambiental e Internação da USP, do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais e do Núcleo de Pesquisa Interdisciplinar de Ação Social.

Muita gente reserva esse local às fotografias da família; eu prefiro os meus mestres

Em agosto de 2009, a Faculdade de Ciências e Letras (FCL) da Unesp de Araraquara concedeu à socióloga o título de professora emérita, um reconhecimento especial a uma trajetória acadêmica que se iniciou nos anos 1960 e incluiu eventos marcantes para a universidade. Um deles foi a organização do curso de Ciências Sociais, juntamente com o professor Fábio Castilho, em 1963. Outro foi a criação, na década de 1980, do programa de mestrado em Sociologia.

Como é comum acontecer com os pioneiros que abraçaram o desafio de estruturar cursos superiores no interior paulista e semearam a formação da Unesp, a trajetória acadêmica de Heleieth Saffioti confunde-se com a história do câmpus de Araraquara. Ela se transferiu de São Paulo para lá no final dos anos 1950, depois de se casar com o físico-químico Waldemar Saffioti e após uma temporada de um ano nos Estados Unidos, em que acompanhou o marido que se aperfeiçoava nos estudos sobre energia nuclear.

Em 1957, quando voltou para o Brasil, Heleieth decidiu retomar o curso de Sociologia na USP. “Essa volta não foi fácil, porque, a essa altura, a matéria de Antropologia Humana havia sido incluída no currículo. Então, em menos de dois meses, tive que decorar os nomes de todos aqueles ossinhos humanos para fazer os exames em segunda chamada”, relembra, divertida.

 

Formatura da 1a turma de Ciências Sociais, curso que Heleieth ajudou a criar em Araraquara;

 

Enquanto Heleieth concluía a faculdade de Sociologia, Waldemar foi convidado a organizar o curso de Físico-Química e o Departamento de Química da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) de Araraquara. A socióloga decidiu também se habilitar para lecionar Sociologia na instituição. “Naquela época não havia concurso para professor; os interessados deviam prestar vestibular, classificar-se em primeiro lugar e receber um convite do catedrático”, conta. O responsável pela cátedra era Luiz Pereira, o primeiro professor de Sociologia da FFCL. “Ele me examinou de cabo a rabo e esperou até que eu fizesse o último exame para me convidar”, lembra Heleieth, que contou com um empurrão poderoso: a indicação de Florestan Fernandes, um dos mais influentes sociólogos brasileiros e seu grande mestre. “Eu o considero o maior sociólogo que o Brasil já teve.”

Luiz Pereira não chegou a ensinar no curso de Ciências Sociais que havia ajudado a criar. Em 1963, transferiu-se para a USP e deixou a jovem e inexperiente Heleieth, então com 27 anos, como única professora de Sociologia na FFCL.

Neófita e corajosa
“Eu era uma neófita, fui muito peituda”, reconhece a socióloga. Além de corajosa, competente, pois seguiu acumulando aulas, num tempo em que havia poucos professores capacitados no interior. Chegou a lecionar Sociologia em todos os anos nos cursos de Pedagogia, Letras e Ciências Sociais.

Durante os primeiros anos da ditadura militar, a jovem professora decidiu fazer seu doutorado. “Havia uma exigência, que eu considerava muito injusta, de que todo professor, independentemente da data de seu ingresso na faculdade, deveria defender tese até dezembro de 1967”, recorda-se. “Achei que para os homens essa regra não iria vigorar; mas para as mulheres, ainda mais para uma marxista como eu, a exigência iria valer.”

 

Ela com o marido, em 1969

 

Heleieth se inscreveu para elaborar a tese sob a orientação de Florestan Fernandes. O mestre não chegou a orientá-la, estava sempre muito atarefado. Mas, com a habitual autoconfiança, a socióloga até gostou que fosse assim: “A tese é só minha, não tem ideia de mais ninguém”.

A defesa de tese aconteceu no início de 1967 e acabou se transformando naquele tipo de episódio que mobiliza a comunidade e passa a fazer parte da história da instituição. Heleieth, então com 34 anos, era uma jovem que chamava a atenção. “Sua própria aparência já nos levava a ter admiração por ela”, conta Luiz Antonio Amaral, vice-diretor da FCL, que na época era aluno do curso de Letras. “Ela sempre foi muito magra e estava sempre bem vestida, impecável.”

Heleieth havia escolhido um título provocador para sua tese: “A mulher na sociedade de classes: mito e realidade”. O estudo – pouco depois publicado e transformado em referência para feministas e cientistas sociais – discutia a marginalização feminina no capitalismo brasileiro, unindo o feminismo à luta de classes.
Nos bastidores, circulavam histórias de que a professora tinha se tornado alvo de uma guerra psicológica. “Naquele tempo, o Conselho Estadual de Educação era o órgão que dava as cartas na coordenação dos institutos isolados [a FFCL era um deles], inclusive sob o ponto de vista ideológico, o que era muito desagradável”, lembra a socióloga. Com o objetivo de inserir uma perspectiva conservadora na avaliação de sua tese, acredita Heleieth, o conselho substituiu nomes da banca que ela havia indicado.

Concorrida como Sartre
“A guerra movida contra mim acabou resultando também em muita publicidade”, conta. Todo o sistema isolado compareceu para assistir à sua defesa. O cenário era o histórico anfiteatro Jean-Paul Sartre, local da célebre e concorridíssima “Conferência de Araraquara”, proferida sete anos antes pelo filósofo francês, sob o olhar atento de Simone de Beauvoir, para uma plateia de notáveis, entre eles Antônio Cândido, José Celso Martinez Correa e Ruth e Fernando Henrique Cardoso.

Como na conferência de Sartre, o auditório ficou lotado, contam a própria socióloga e contemporâneos. O público, formado por estudantes e professores, chegou a disputar espaço nas escadas e corredores. Vestida com uma beca negra, sentada à frente da mesa composta de nomes ilustres da Sociologia como Florestan Fernandes e Ruy Coelho, Heleieth iniciou a defesa. Esmiuçou conceitos e argumentou de forma contundente. “A certa altura, Heleieth percebeu que ninguém, nenhum de nós da plateia estava entendendo nada do que ela e aquele grupo de nefelibatos diziam”, lembra-se Amaral, que testemunhou o evento. “Então fez uma coisa incrível: passou a decodificar a defesa, ou seja, dialogava com a banca na linguagem da Sociologia e em seguida traduzia a mensagem de uma forma compreensível para o público.” Tem origem nesse episódio a admiração de Amaral pela incomum habilidade verbal da professora.

 

A socióloga é aplaudida de pé após a concorrida defesa de sua tese, em 1967

 

A socióloga conta que um dos membros incluídos pelo Conselho Estadual de Educação na banca, católico fervoroso, professor da Faculdade de Ciências Econômicas, “a mais reacionária da USP”, havia recebido a informação de que ela era comunista e que, de Karl Marx, só havia lido uma obra menor, sobre o partido comunista francês. “Era uma tentativa de me desqualificar como intelectual, me caracterizando somente como militante”, afirma. “Mas, depois que finalizei a apresentação da tese, até esse cidadão acabou reconhecendo que, além de um amplo conhecimento sobre a obra de Marx, meu repertório incluía livros e ideias de diversos sociólogos, de diferentes orientações metodológicas.”

“Ela nunca teve medo de controvérsias”, afirma Vera Lúcia Silveira Bota Ferrante, socióloga, professora aposentada da FCL, ex-aluna e ex-orientanda de Heleieth, que durante duas décadas trabalhou lado a lado com a mestra. “Sempre foi extremamente firme, muito consciente de suas escolhas éticas e políticas.” A própria pesquisadora concorda: “Sou muito provocadora”.

Em 2006, essa postura a levou a redigir uma resposta ao procurador Cícero Harada, que havia publicado um artigo condenando a legalização do aborto e comparando-o a um assassinato. Na ocasião ela era professora de pós-graduação em Sociologia da Faculdade de Ciências Sociais da PUC-SP, onde estava desde 1989. “Li o texto e fui tomada de uma tal indignação que escrevi uma resposta”, conta. Ela defendia o direito da mulher ao aborto e condenava a posição da Igreja Católica em relação ao tema. Era um texto crítico, sem meias palavras, em que, entre outros argumentos, Heleieth afirmava que durante séculos a Igreja não proibiu o aborto devido ao fato de que moças e freiras eram engravidadas por padres. “Não pensei em publicar essa resposta em lugar nenhum, mas enviei o texto a duas advogadas militantes dos direitos humanos, que pediram a minha permissão para publicá-lo no site da OAB São Paulo.” Ela consentiu.

A guerra movida contra mim acabou resultando também em muita publicidade

Semanas depois, a socióloga foi alertada sobre a polêmica gerada em torno do assunto: o debate havia ganhado força e prosseguia acalorado na internet, com uma tréplica do procurador Harada. “Fiquei sabendo que Dom Claudio [Hummes, à época presidente da Fundação São Paulo, mantenedora da PUC-SP] não havia gostado do meu texto e que uma reclamação a respeito do assunto havia sido encaminhada ao ouvidor da PUC”, conta. Algum tempo depois, a professora foi incluída numa lista de 447 nomes de colaboradores da instituição a serem demitidos, dentro do pacote de medidas saneadoras das finanças da entidade.

“Minha demissão foi totalmente ideológica”, afirma Heleieth. A direção da PUC negou, afirmando que os critérios haviam sido previamente divulgados. Alunos de Heleieth organizaram um abaixo-assinado reivindicando sua permanência no programa de pós-graduação, que contou com a participação de nomes como os da ex-reitora da PUC Nadir Gouvêa Kfouri e da deputada federal Luiza Erundina (PSB-SP), além de centenas de professores dos cinco continentes.

Sua demissão, no entanto, foi mantida. “Fui às assembleias organizadas pelos funcionários demitidos da PUC, mas deixei claro desde o início que só participaria de uma ação judicial coletiva, nunca individual”, afirma Heleieth. “Não posso aceitar trabalhar numa instituição que me censura. Sou uma pensadora, e se há uma liberdade da qual eu não posso abrir mão é a de pensar e exprimir aquilo que penso.”

Essa lealdade às próprias convicções e o apreço à liberdade de pensamento têm orientado a trajetória da socióloga. Militante feminista de primeira hora, Heleieth nunca quis se filiar a um grupo específico. “Sempre pensei que se me filiasse a um dos movimentos ficaria amarrada e não poderia gozar da liberdade que a academia me oferece. Hoje sou bem aceita em todos os movimentos feministas e presença constante como palestrante.”

O bom trânsito entre as várias linhas do feminismo garante a conexão da socióloga com o debate sobre a questão da mulher. Ela avalia que uma das grandes conquistas do feminismo no Brasil foi justamente esse relacionamento harmônico entre os movimentos sociais e a academia. “Nunca houve uma briga, um conflito, como ocorreu em outros países. Esse é um fato muito importante, porque a academia nutre o movimento feminista e o movimento feminista nutre a academia.”

Embora se diga “otimista” em relação aos avanços na condição da mulher, dá destaque ao trabalho que ainda está à frente, por fazer. “Temos várias lutas hoje: a sindical, a salarial, a jurídica.” Heleieth afirma que é favorável à política de cotas na universidade, para incentivar a atividade das pesquisadoras. “A ciência ainda é um campo predominantemente masculino”, afirma. “Você conhece alguma neurocirurgiã? Eu não conheço nenhuma, só há homem. Isso é fruto da discriminação sofrida pela mulher.”

A violência contra a mulher e o “femicídio”, segundo a socióloga, são fenômenos sociais que estão longe de desaparecer – por isso considera importante aperfeiçoar a legislação. Ela afirma que, no Brasil, quando se trata das relações de poder entre sexos, ainda prevalece o que chama de “lógica do galinheiro”: “O galo bica todas as galinhas, mas nunca é bicado; a galinha número 1 é bicada pelo galo, mas pode bicar todas as outras galinhas; a número 2 é bicada pelo galo e pela número 1, mas pode bicar as outras galinhas que estão abaixo dela; e assim sucessivamente, até chegar na última galinha, que é bicada por todos e não bica ninguém”.

A lei Maria da Penha, considerada por muitos como um avanço no que diz respeito à proteção da mulher, foi recebida com reservas por Heleieth. “Essa lei criminalizou as relações homem/mulher, ao dispor, por exemplo, que o cidadão que bate na mulher deve ser punido com prisão.” Para ela, o caminho deveria ser a reeducação. “Creio numa punição alternativa, com sentido pedagógico. Essa, sim, é transformadora.”

Devolução da chácara
Em Araraquara, o Centro de Referência da Mulher “Heleieth Saffioti”, inaugurado pela prefeitura em 2001, aposta na linha pedagógica proposta pela educadora a quem presta homenagem. O centro acolhe as mulheres vítimas de violência, presta atendimento psicológico e oferece orientação jurídica, mas seu foco está na prevenção: cerca de 6.000 pessoas no município, entre homens e mulheres, já receberam capacitação sobre violência de gênero e participaram de oficinas sobre as relações de poder entre os sexos.

O nome dos Saffioti está ligado a outro projeto de caráter social voltado à população de Araraquara: o Centro Cultural “Waldemar Saffioti”, instalado em 2001 na chácara em que Heleieth viveu com o marido ao longo de 26 anos, uma área verde de 13 mil metros quadrados. Em 1999, quando ele morreu, a professora doou a propriedade à Unesp de Araraquara. “A doação foi realizada sob a condição de que ali se instalasse um centro cultural com o nome do meu marido e, quando eu morrer, meu nome se junte ao dele“, conta Heleieth, acrescentando que Saffioti “foi um grande homem, honestíssimo, um cientista de primeira categoria”.

“Ela afirma que se trata de uma devolução, uma maneira de devolver um pouquinho de tudo que ela e o marido receberam do Estado ao longo da vida, já que toda a sua carreira acadêmica foi realizada na rede pública”, diz Luiz Antonio Amaral, coordenador do Centro Cultural.

Amaral, cuja formação é em Literatura, revela encantado que a propriedade dos Saffioti encobria um segredo fascinante. “Era conhecida como Chácara Saffioti, mas havia uma outra chácara dentro dela, oculta, chamada Sapucaia”, conta. “Antes de ser comprada pelos Saffioti, a chácara pertenceu a Pio Lourenço, primo distante de Mário de Andrade. Foi ali que, em 1926, numa de suas frequentes visitas aos primos araraquarenses, o escritor criou Macunaíma, obra-prima do modernismo brasileiro.” Com essa aura de vanguarda e modernidade, mais a influência da história de pioneirismo e ousadia do casal Saffioti, o centro cultural promete tornar-se referência.

Sou uma pensadora, e se há uma liberdade da qual não posso abrir mão é a de pensar e exprimir aquilo que penso

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