Um universo reflexivo cada vez menor

Texto ◘ Mauricio Tuffani

“… a linguagem é posta a serviço dos meios de comunicação, nos quais, desconsiderando qualquer limite, se expande a objetivação de tudo para todos. Desse modo, a linguagem cai sob a ditadura do espaço público. Este decide de antemão tudo o que é compreensível e que deve ser rejeitado como incompreensível.” – Martin Heidegger, Sobre o humanismo (1946) 1

Mal havia começado este ano quando chegou a notícia de que a média diária da circulação total dos 20 maiores jornais brasileiros teve queda de 3,5% em 2009. Segundo o IVC (Instituto Verificador de Circulação), que atribuiu a redução à crise econômica, no ano passado circularam em média diariamente 4.200.743 exemplares. Em 2008, o índice correspondente foi de 4.351.400. A notícia veio como uma ducha de água fria para o mercado jornalístico brasileiro, que comemorou avanços sucessivos no período de 2000 a 2008. Uma vez que circulação menor significa desvalorização dos espaços oferecidos para o mercado anunciante, os veículos se veem forçados a reagir à consequente previsão de queda de venda de anúncios.

Além das tradicionais medidas administrativas para buscar o aumento da receita e a diminuição da despesa, as empresas jornalísticas muitas vezes tomam decisões de ordem editorial para redirecionar seus veículos de comunicação para um público-alvo maior. Uma delas é a reformulação de projeto gráfico, que consiste em tornar o jornal mais moderno e amigável visualmente.

Outra alternativa é a mudança de abordagem no conteúdo, guiada, em princípio, pelo perfil sócio-econômico e cultural do público que se pretende atingir. Um exercício muito interessante de verificação desse tipo de reconfiguração é compará-la com as mudanças dos anunciantes. Isso vale também para as mudanças de forma e de conteúdo em outros tipos de veículos. De repente, aquele tal programa humorístico passa a apresentar quadros que se mostram mais toscos ou simplórios para seus telespectadores habituais. A explicação para isso muitas vezes está associada à mudança dos anunciantes e, consequentemente, do público-alvo. Como sempre, convém verificar o caminho do dinheiro.

O mundo da comunicação passou a pôr em curso um vigoroso processo de enxugamento do vocabulário

Na imprensa em geral, essas mudanças de conteúdo editorial não se restringem aos temas abordados em reportagens e artigos. Elas exigem também uma significativa simplificação do vocabulário. E essa é uma medida muito fácil de se pôr em prática. Nós, jornalistas, geralmente reagimos quase que por instinto contra a presença, nos títulos e subtítulos de matérias, de palavras que não possam ser imediatamente compreendidas pelos leitores. Desde o início o século 20, o jornalismo vem absorvendo cada vez mais o eficiente preceito publicitário Less is best (menos é melhor).

O que deveria ter sido uma simples baliza acabou por se tornar uma imposição levada a extremos. Muito além da simplificação das chamadas e títulos, o mundo da comunicação passou a pôr em curso um vigoroso processo de enxugamento do vocabulário, condenando à extinção uma parte substancial de nosso universo linguístico. Não é um processo semelhante à construção da Novilíngua, descrito por George Orwell em seu livro 1984, no qual funcionários do Ministério da Verdade diariamente decidem quais são as palavras que devem ser proibidas. Mas tem muito a ver com a consequência, que é o prejuízo da capacidade de reflexão.

“Os limites de minha linguagem significam os limites de meu mundo”, disse o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951) na proposição 5.6 de seu Tractatus Logico-Philosophicus, de 1922. Estamos restringindo cada vez mais nosso mundo.

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1 Martin Heidegger, Über den Humanismus. Vittorio Klostermann, Frankfurt, 2000, p. 9.
2 Os dados estão disponíveis no site da Associação Nacional de Jornais (www.anj.org.br).

 

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