Relações entre objeto e espaço

Texto ◘ Oscar D’Ambrosio

A pesquisa dos potenciais e limitações da verticalidade é o grande desafio da obra de José Spaniol. Nascido em São Luiz Gonzaga (RS), em 1960, o artista plástico, professor do Instituto de Artes da Unesp, na capital paulista, realizou, em janeiro e fevereiro últimos, em parceria com os artistas Carlos Eduardo Uchoa, também monge beneditino, e Marco Giannotti um de seus trabalhos mais expressivos: a exposição Arte e Espiritualidade.

A proposta, inserida em um programa do Iphan e patrocinada pela Petrobras, era dialogar com a arquitetura do Mosteiro de São Bento, um prédio projetado por volta de 1910 pelo arquiteto alemão Richard Berndl, da Academia de Artes de Munique, e construído no estilo românico das grandes abadias europeias.

As obras de Spaniol dão prosseguimento ao seu trabalho de pesquisa do espaço. A mais reveladora é a ocupação de uma sala com uma instalação de troncos de eucaliptos que representam o firmamento. Mas também há genuflexórios fixados de ponta-cabeça no teto dos parlatórios e armários suspensos.

 

 

Escultor, desenhista, gravador e professor, Spaniol já utilizou em suas obras materiais como barro, metais, papel e parafina. Desde pequeno, tinha no desenho elaborado em cadernos uma manifestação importante. A decisão de se tornar artista plástico aconteceu em 1971, quando visitou, com o irmão mais velho, a 11ª Bienal de Arte de São Paulo.

Ficou impressionado com aquele universo e decidiu fazer o curso de Artes Plásticas na Faap, onde atuou como monitor do gravador Evandro Carlos Jardim. Inicialmente lidou mais com pintura e gravura, mas foi se deslocando, no final dos anos 1980, para a escultura e a instalação, principalmente com figuras esticadas de madeira, como cadeiras.

Essas imagens vêm geralmente de anotações feitas na forma de desenho, que já nasce associado ao pensamento de um determinado material. Mestre e doutor em Artes, com orientação de Giannotti, Spaniol considera essencial uma exposição que realizou, em 2003, no Centro Universitário Maria Antonia, em São Paulo. Ali colocou, em uma sala que já tinha seis colunas assimétricas, mais 30 idênticas, de gesso acartonado, transformando a desordem em ordem.

O trabalho no mosteiro com troncos de eucalipto escorados no teto vem dessa experiência. Além disso, ele suspendeu um genuflexório, vários livros e uma almofada onde se posiciona a Bíblia. O nome da ocupação – Firmamento – é ambíguo: por um lado, tem o sentido de estável, apoio, firme e seguro; por outro, designa a abóboda celeste, completamente dinâmica, que pode desabar a qualquer momento.

Assim, os objetos de uso cotidiano ganham uma nova dimensão, dentro da preocupação cada vez maior do artista de estudar a relação entre objeto e espaço. Por isso, Spaniol, nos últimos anos, sempre que vai criar um trabalho, busca conhecer o lugar onde vai expor para fazer o objeto conforme a área escolhida. De modo que cada nova obra se contamina um pouco das proporções e das relações internas do espaço.

Cada nova obra de José Spaniol se contamina um pouco com proporções e relações internas 01do local onde será exposta

Um exemplo disso ocorreu em 2006, em uma exposição na Galeria Oeste, em São Paulo, com peças de quatro metros de altura concebidas em madeira. Eram cadeiras, mesas, escadas e cama. Suas dimensões alteradas e o fato de serem colocadas de ponta-cabeça geravam um rico estranhamento e obrigavam a repensar a relação de cada um de nós com o espaço.

 

 

A concepção do artista mostra como uma ideia aparentemente simples (alongar um objeto e invertê-lo) pode ganhar uma dimensão quase épica nessa aparente despretensão. A discussão de apresentação do espaço torna-se visceral nas mesas, com seu formato dominado pelos retângulos. Esquece-se aí que se está perante um objeto de uso e começa-se a pensar naquela peça escultórica como um elemento tridimensional dominado por jogos de luz e planos, quase uma aquarela de Paul Klee.

A cama inverte qualquer conceito de descanso ou de morte associado a ela. Dependurada no espaço, ganha conotações de inquietação e medo. Deixa de ser um bom lugar para ver o tempo passar ou para deixar de existir fisicamente. Torna-se objeto estético, como muito bem reforça a escada, que se torna um enorme “X”.

A solução da questão por ela proposta está na dinâmica sugerida pelos degraus, que convidam a subir e a descer, a olhar e a voltar a olhar, num infinito de leituras propostas pela composição de um universo autônomo, em que a lógica é subvertida em nome da plasticidade.

As criações de José Spaniol, seja as realizadas para galerias ou para o Mosteiro de São Bento, não se limitam a ser um ponto de partida para uma reflexão estética. Constituem, em si mesmas, um resultado visual e plástico de rara simplicidade, beleza e densidade, numa experiência que convida a múltiplas visões e permite desenvolver novos e surpreendentes conceitos.

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