Nós e as baratas

Quando se definiu que 2010 seria o Ano Internacional da Biodiversidade, foi lançada a meta de que o mundo deveria tentar reduzir “de maneira significativa” a perda de espécies até este ano. Mas já em 2009, a IUCN (União Internacional para a Conservação na Natureza), que divulga a Lista Vermelha de espécies ameaçadas, anunciou que mais de 800 espécies de animais e plantas foram extintas nos últimos cinco séculos e outras 17 mil estão ameaçadas. A mensagem era nada sutil: o mundo não vai cumprir a meta.

A comparação do ritmo atual de perda de formas de vida com as extinções padrões do planeta sugere, porém, algo bem mais drástico. Até o final do século, metade das espécies pode desaparecer, o que nos coloca no curso da sexta grande extinção em massa da Terra.

Os motivos são vários – destruição de habitats, exploração predatória, aquecimento global. A pesca excessiva, por exemplo, fez a IUCN declarar neste ano o esturjão, de cujas ovas se faz o caviar, o grupo mais ameaçado do mundo. As grandes extinções anteriores foram causadas por elementos astronômicos e geológicos. Há 65 milhões de anos, quando os dinossauros foram varridos do planeta, o principal motivo foi o impacto de um asteroide. Como afirma Peter Ward, paleontólogo da Universidade de Washington, em seu livro O fim da evolução (ed. Campus, 1997), “100 mil anos atrás, outro grande asteroide atingiu a Terra, dessa vez na África. Esse asteroide chama-se Homo sapiens”.

Pesquisadores ouvidos na nossa reportagem de capa deste mês afirmam que esse processo começou há algum tempo e a tendência é que só se intensifique. Populações humanas também serão afetadas pela perda de espécies que lhe prestam serviços ambientais, mas poucos acreditam que o H. sapiens vá desaparecer. Mas a que custo? De tudo o que podemos perder, só me ocorre um pensamento, imaginar que talvez os filhos dos nossos filhos só vejam em museus o que hoje ao menos vemos em zoológicos.

Um cenário muito bem descrito por Ward. “Muitos museus (…) estão se tornando mensageiros de más notícias, uma última chance de ver tesouros raros e em desaparição; são os museus que documentam quanto já perdemos e quanto ainda temos por perder. Muitos museus são agora tristes cemitérios, contendo os ossos de criaturas fabulosas ou comuns que pereceram na atual extinção, bem como os corpos empalhados de outras criaturas prestes a se juntar ao rol dos mortos.”

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Giovana Girardi
editora chefe

 

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