Intercâmbio sem sair de casa

Texto de Pablo Nogueira

Espaço virtual para aprendizagem de idiomas por meio de conversas entre estudantes do Brasil e do exterior leva também ao conhecimento da cultura do parceiro; pesquisadores investigam como se dá essa educação focada no aluno e não no mestre

Quem chega distraído à porta do laboratório de Teletandem no câmpus da Unesp em Assis pode pensar que foi parar inadvertidamente em uma corretora de valores. Na entrada, uma parede repleta de relógios registra a hora em diferentes regiões do planeta e mostra que as pessoas que por ali transitam vivem em um cotidiano globalizado. Mas a riqueza que circula entre a pequena cidade do interior de São Paulo e capitais como Washington e Buenos Aires nada tem de financeira. Lá os valores trocados têm a ver com conhecimento, visão de mundo e o desenvolvimento de uma educação que atenda às necessidades do século 21.

A prática em questão – o tandem – pressupõe um trabalho de parceria (assim como aquelas bicicletas compridas com dois guidons que só saem do lugar se houver cooperação entre a dupla de ciclistas). A ideia ganhou um teor educativo após a Segunda Guerra Mundial, quando pessoas sem nenhuma formação para ensinar idiomas se correspondiam com o intuito de aprenderem as línguas das outras. Cada uma se dispunha a esclarecer as dúvidas do parceiro em relação à sua língua e recebia o mesmo apoio em troca. A proposta caiu em desuso com o tempo, mas ressurge agora numa versão 2.0 adaptada para o mundo virtual: o teletandem.

Nos últimos três anos, mais de 1.400 estudantes no interior de São Paulo e em uma dúzia de universidades estrangeiras de Alemanha, Argentina, Itália, França, Chile, México, Uruguai e EUA conversaram e aprenderam idiomas como parte de um projeto temático de pesquisa da Fapesp. O “Teletandem Brasil – línguas estrangeiras para todos” teve como base os câmpus da Unesp de Assis e de São José do Rio Preto.

Valendo-se de programas como Skype e MSN, 717 brasileiros tiveram a oportunidade de auxiliar estrangeiros a melhorarem seu português e, simultaneamente, puderam praticar seus conhecimentos de inglês, francês, espanhol, italiano e alemão com pessoas que têm esses idiomas como língua-mãe ou nos quais são proficientes.

“O teletandem não é um método, mas sim um contexto de aprendizado”, explica João Telles, professor da Faculdade de Ciências e Letras de Assis e criador e coordenador do projeto. “O tandem pode ocorrer até face a face. Mas é muito difícil para um aluno no interior ter contato com um estrangeiro. Esse contexto virtual oferece aos alunos a oportunidade de ultrapassarem barreiras geográficas e econômicas e colocarem à prova de verdade seus conhecimentos linguísticos.”

Além de oferecer o serviço aos estudantes, o projeto tem uma dimensão de pesquisa que busca responder a três perguntas essenciais: que uso o aluno faz do computador para aprender línguas estrangeiras; como se dá a interação em teletandem; e qual é o papel do professor nesse contexto. Pesquisadores da Unesp gravaram várias das conversas entre as duplas, e os dados colhidos já geraram duas teses de doutorado e nove dissertações de mestrado, além de publicações sob o formato de artigos em periódicos e capítulos de livros.

A maior parte das pesquisas ocorreu na pós-graduação em Linguística de São José do Rio Preto. Maria Helena Abrahão, professora do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (Ibilce), juntou-se ao projeto em 2005, interessada em analisar essa nova forma de aprendizado. “Antes as pessoas primeiramente estudavam o léxico e a gramática de uma língua e só depois partiam para a conversação. Hoje apoiamos uma perspectiva comunicativa, isto é, a pessoa se prepara para a comunicação por meio da comunicação”, afirma a vice-coordenadora do projeto e responsável pela criação do laboratório no câmpus de Rio Preto.

Aluna que tinha fortes sentimentos de preconceito contra norte-americanos surpreendeu-se após formar parceria com um jovem de lá que, além de crítico do próprio governo, se interessava por literatura, cultura e até pela política do Brasil

“No teletandem as dúvidas de gramática aparecem naturalmente, para dar conta das necessidades de comunicação. É um aprendizado mais interessante, e, pela análise das interações, podemos entender melhor como ele acontece”, complementa.

Como no teletandem não existem diferenças hierárquicas entre os participantes, o que ocorreria entre professor e aluno, por exemplo, é um fator essencial trabalhar bem em parceria. Os alunos brasileiros, ao se inscreverem no programa, recebem o contato de seu parceiro estrangeiro. Os organizadores do projeto orientam a dupla a decidir quantas vezes por semana farão os encontros, quanto tempo eles durarão, quais serão os tópicos debatidos a cada sessão e de que forma os erros serão apontados.

Ninguém, no entanto, vai obrigá-los a fazer esta negociação, nem supervisionar seu cumprimento ou punir eventuais faltas. A maior parte das parcerias dura dois meses, mas há todo tipo de possibilidade. Em alguns casos, os parceiros desenvolvem uma relação tão produtiva e pessoal que mantêm contato por anos. Mas também há casos em que um estudante revela-se desmotivado e a troca é pouca, frustrando o parceiro.

Interação negociada
Daniela Garcia, que é professora de inglês na Unesp em Assis, desde 2006 analisa gravações e registros de conversas para descobrir se as negociações iniciais podem influenciar no processo de aprendizagem final. “Os dados mostram que os alunos que estão realmente motivados para aprender combinam logo no começo a forma como vão fazer suas interações”, explica. Como a parceria envolve pessoas com bagagens culturais diferentes, alguns problemas de convivência podem acontecer.

Por exemplo, estudantes de sociedades muito pontuais, como os alemães, podem ficar ressentidos com alguém que considere normal atrasar-se sem dar nenhuma explicação. Outras pessoas podem ficar melindradas se forem corrigidas no mesmo instante em que falam uma palavra errada, respondendo com antipatia. “Ao combinarem logo no começo as regras da interação, os estudantes tornam-se mais aptos a lidar com os problemas que podem surgir ao longo do tempo em que dura a parceria. Isso possibilita um trabalho bem-sucedido”, diz Daniela.

Quando os alunos experimentam dificuldades na interação, recorrem à figura do mediador, que pode ser um professor ou um estudante treinado para prestar auxílio. Mas ele não oferece respostas prontas. Sua tarefa é ajudá-los a refletir e encontrar a melhor maneira de solucionar seus problemas por si mesmos. “Não dar respostas fechadas é um jeito de estimular a autonomia entre os alunos”, explica Telles.

Avaliar a importância da autonomia numa interação em teletandem foi o objetivo da pesquisa de mestrado de Emeli Luz no programa de pós-graduação em Estudos Linguísticos do Ibilce. Ela selecionou uma dupla formada por um americano e uma brasileira. “No início do trabalho, perguntei a ambos como definiam autonomia. Ele respondeu que era a capacidade de resolver problemas sozinho.” A parceria deslanchou. Os dois foram capazes de superar dificuldades com equipamentos, pensar em maneiras de resolver dúvidas do outro, selecionar os assuntos, renegociar horários.

Por trás de tamanha demanda por iniciativa e responsabilidade, porém, estava uma bem-vinda liberdade. Pois enquanto numa aula comum os alunos se veem obrigados a estudar um conteúdo definido pelo professor ou pelo livro didático, no teletandem eles se dedicam a estudar só os temas que lhes interessam. “Essa liberdade ajuda a tornar as interações mais estimulantes”, diz a pesquisadora.

A dupla interagiu por oito meses e, além do ganho nas capacidades idiomáticas, obteve outros benefícios. Após seis meses, Emeli pediu a ambos que definissem autonomia novamente. “O americano deu outra resposta, relacionando autonomia à capacidade de trabalhar colaborativamente com o parceiro para tomarem decisões juntos”, conta.

A parceria abre uma janela entre culturas e traz a oportunidade de espiar outra realidade mais de perto. Isso acaba contribuindo também para a formação dos estudantes. Em sua pesquisa para a dissertação de mestrado também no Ibilce, Ciro Mendes avaliou uma dupla formada por um americano e uma brasileira que tinha fortes sentimentos antiamericanos. Ele explica que é comum que muitos dos estudantes associem a língua inglesa aos Estados Unidos. Isso faz com que transportem para o idioma seus sentimentos sobre o país, sejam eles positivos ou negativos – sendo que a maioria é pró-americana.

A dupla realizou encontros semanais de duas horas durante seis meses. Nesse período, a brasileira pôde submeter a um teste de realidade suas crenças sobre o estereótipo do americano “típico”. “O preconceito tem como base o desconhecimento. Por isso quis ver como ela se comportaria e expressaria seus valores num contexto onde teria contato semanal com um americano”, conta Mendes.

As conversas giravam em torno de temas gerais: a vida nas respectivas cidades, as atividades universitárias, trabalhos etc. Com a conversação, a parceria foi sendo permeada por um sentimento de amizade. “O rapaz fazia doutorado em literatura latino-americana e contrariava todos os estereótipos que ela tinha dos americanos”, diz Mendes. Aos poucos, a estudante da Unesp foi se impressionando com o conhecimento de seu colega sobre a realidade verde e amarela.

O “gringo” lia jornais brasileiros e mencionava fatos políticos, como escândalos de corrupção e cassações de mandatos, dos quais a própria brasileira não sabia. Também se declarava fã de escritores e poetas brasileiros que a moça não conhecia. Ao estabelecer uma amizade com um americano que criticava o governo do próprio país e se interessava pelo que acontecia no mundo, a imagem que a estudante fazia ganhou complexidade.

“Crenças são elementos relacionados à personalidade, e por isso muito difíceis de serem mudados. Mas ao perceber que tinha encontrado um americano que se interessava pelo que acontecia no mundo e até criticava o presidente dos EUA, ela reviu seus estereótipos de que todos os americanos eram necessariamente preconceituosos e conservadores”, diz Mendes.

Tandem presencial
Algumas vezes, a proximidade entre os parceiros resulta em encontros pessoais. O italiano Sergio Standoli, 25, veio ao Brasil em 2008 para conhecer seu parceiro de dupla. Junto com mais quatro colegas italianos, ele queria fazer o tandem presencial por dois meses. Instalou-se numa república de estudantes e durante a semana praticava o tandem com três parceiros diferentes. Este ano, voltou ao Brasil para escrever sua monografia de final de curso, que vai abordar sua experiência no projeto.

Movimento semelhante fez Anna Elstermann, 27, que fez mestrado sobre o tema após passar uma temporada aqui e agora se prepara para abordá-lo também num doutorado, que será produzido em regime de cooperação entre Unesp e a Universidade Johannes Gutenberg, em Mainz (Alemanha). Tanto ela quanto Standoli contam que na Europa a maior parte dos departamentos de línguas ensina o português de Portugal. “O teletandem foi fundamental para que eu pudesse praticar a variante brasileira da língua. Mas foi ainda mais importante para eu conhecer a cultura. Eu não tinha acesso nenhum ao Brasil, então minha parceira era meu pé aqui”, diz Standoli.

“Eu já sabia bastante coisa da gramática do português. Mas nos pontos onde eu tinha mais dificuldades específicas, minha parceira sugeria exercícios bem pontuais. Esse é o tipo de atenção individualizada que você não obtém numa sala de aula”, conta Anna, num português quase sem sotaque. Para ela, porém, o aprendizado cultural suplantou o gramatical. “Aprendia sobre o país, sobre música, gírias… Uma vez fizemos uma sessão só para aprender palavrões. Porque é importante saber isso. Se não, é capaz de você ser xingada e nem perceber”, afirma. “O teletandem está nos ajudando a entender a interculturalidade, que é este espaço formado pelas compreensões que cada um tem a respeito da própria cultura e da cultura do outro”, explica a pesquisadora Maria Helena.

Como toda iniciativa pioneira, o projeto encontra dificuldades, como a captação de estudantes estrangeiros. No início do projeto, João Telles teve que fazer um ativo trabalho de visitação de universidades estrangeiras para encontrar parceiros nos departamentos de ensino de língua. “Nos Estados Unidos e na Europa, o português é visto como algo exótico e pouco importante. Mas a imagem está mudando, e a realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas deve aumentar a demanda de estudantes para o nosso idioma”, acredita ele.

Na América Latina, as expectativas são mais positivas. Argentina e Uruguai já incluíram o português na grade do ensino público, o que deve levar a um aumento na procura por professores da língua. Ano passado, 50 docentes de escolas do Uruguai e de unidades dos Centros de Estudo de Línguas de São Paulo participaram de um teletandem especial para professores de espanhol e português.

Outro problema diz respeito à tecnologia. Há quem prefira fazer as sessões em casa, devido às diferenças de fuso. Porém, surpreendentemente, mesmo em países como os EUA encontram-se universitários que não possuem em casa computadores e webcams e são forçados a recorrer a lan houses. E muitas vezes os dois lados da parceria se veem às voltas com panes em câmeras, microfones ou caixas de som mudos, conexões interrompidas. Já houve o caso de uma estudante argentina que testou três computadores diferentes numa mesma lan house, antes de desistir e se conformar em interagir por bate-papo.

“É muito frustrante quando o aluno tenta conversar, mas não consegue por causa de problemas tecnológicos”, diz Débora Ferreira, uma recifense que dá aulas de português na Universidade Utah Valley. Por isso, ela optou por encaixar os encontros semanais de teletandem numa disciplina regular. Dessa forma, os alunos usam, todos ao mesmo tempo, os computadores da universidade, e podem contar com o apoio dos técnicos em informática de lá. Mesmo assim, na segunda sessão de teletandem realizada pelo grupo, no começo de março, um dos quatro participantes americanos se viu forçado a interagir via bate-papo por mais de meia hora, pois não conseguia escutar seu parceiro brasileiro.

A opção por aprender português é considerada exótica nos departamentos de idiomas do exterior, e, na Europa, os professores trabalham com a variante de Portugal. O teletandem é uma alternativa para quem tem interesse na cultura e no idioma brasileiros

Educação do novo século
Por mais que a tecnologia ainda apresente problemas, não há dúvidas de que ela vai continuar interferindo na maneira como mestres e alunos se relacionam. “Hoje as escolas dispõem de recursos tecnológicos fantásticos, mas os professores não são preparados para usá-los. Percebi que esse projeto seria um meio para preparar os estudantes para lecionarem no meio virtual futuramente”, afirma Maria Helena.

Telles concorda: “Com a chegada das novas tecnologias é preciso pensar a educação de outra forma. O professor não é mais a única fonte de conhecimento. Ele não dá respostas prontas ao aluno, mas oferece um leque de possibilidades para que o estudante possa ser sujeito do seu aprendizado. Nós vamos passar de uma pedagogia centrada no professor para uma pedagogia centrada no aluno. Para isso, vai ser preciso ensinar os professores a dominarem estas novas tecnologias ainda na graduação. Sem essa preparação, estaremos formando um professor para o século 20, e não para o século 21”.

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