De graça e on-line

Texto ◘ Pablo Nogueira

Coleção de 44 livros produzidos a partir de teses e dissertações especialmente para a web permite livre acesso ao conhecimento produzido na Universidade

Uma parceria entre a Editora Unesp e a Pró-Reitoria de Pós-Graduação (Propg) da Universidade levou à produção de 44 livros novos, concebidos especialmente para serem oferecidos através de download gratuito na internet. Organizados sob o nome de “Coleção Propg Digital”, os títulos foram disponibilizados a partir da segunda semana de março e podem ser encontrados no site www.culturaacademica.com.br. Seus autores são professores e pesquisadores ligados à Unesp que atuam em diferentes áreas das humanidades. Em uma semana, o total de downloads já havia ultrapassado a marca dos 10 mil. Alguns dos acessos foram feitos por pessoas que residem em regiões remotas do Brasil, como o interior dos estados do Acre e de Roraima.

Jézio Gutierre, editor-executivo da Editora Unesp, explica que a iniciativa surgiu a partir de uma demanda da Propg, que se mostrou interessada em encontrar novas formas para que os pesquisadores divulguem os resultados de seus estudos. A motivação era de alguma forma retornar à sociedade o dinheiro investido nessas pesquisas sob a forma das bolsas de financiamento. Atualmente, as dissertações e teses produzidas nos programas de pós-graduação da Unesp já ficam disponíveis on-line para download.

O objetivo do novo projeto, porém, era ofertar não teses, mas realmente livros, escritos e concebidos de forma a alcançar leitores situados fora do ambiente acadêmico. Foi feito então um convite a todos os programas de pós-graduação da Universidade para que eles participassem do projeto. A orientação foi para que em cada programa se constituísse um miniconselho editorial, que deveria identificar dois trabalhos de pesquisa para serem posteriormente transformados em livros. As indicações foram feitas por 22 programas diferentes. Essa diversidade é uma das características da coleção, que contém obras de áreas como educação, design, filosofia, geografia e comunicação.

 

Demanda desreprimida
Em apenas uma semana, títulos disponibilizados para download pela Editora Unesp já foram acessados por 10 mil leitores

 

Uma vez recebidos os trabalhos, iniciou-se o processo de edição, que levou à eliminação de elementos característicos das obras acadêmicas, tais como a profusão de notas de pé de página e as considerações metodológicas, que normalmente contribuem para uma experiência de leitura mais pesada e menos fluida. “Hoje em dia é comum cobrar-se pelo acesso a artigos científicos. Não seria nada de anormal se cobrássemos pelo acesso a obras tão densas, que não são artigos e sim livros inteiros”, diz Gutierre. “Porém resolvemos quebrar com este paradigma da cobrança e proporcionar o acesso gratuito.”

Por trás dessa opção está uma ação estratégica. “Hoje todas as editoras estão procurando maneiras de se inserirem no mercado digital. Percebemos que a parceria nos daria a oportunidade de criar conteúdos digitais e fazer uma experiência com acesso gratuito. Apresentamos algo que o mercado brasileiro ainda não possuía, uma massa de títulos publicada originalmente para meio digital.” A iniciativa atraiu a atenção de outros editores. “Por meio da Associação Brasileira de Editoras Universitárias, recebemos muitas mensagens de congratulação. Por ora todo mundo está tateando, e o mercado está ávido por aprender com experiências concretas.”

Mercado editorial ainda não sabe qual a melhor forma de lidar com os livros digitais, cujo consumo deverá explodir com a popularização dos e-readers, prevista para os próximos anos. Coleção da Unesp vai ganhar mais 58 títulos ainda em 2010

Para o professor de filosofia Pablo Ortellado, os 10 mil downloads registrados pela iniciativa em uma semana sinalizam que o livro virtual pode vir a ter um alcance bem maior do que o seu congênere de papel. Ortellado é professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP e coordenador do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para Acesso à Informação. “Se levamos em conta que um livro técnico costuma levar três anos para vender apenas mil exemplares, este número de downloads é extraordinário. O livro eletrônico e gratuito tem a possibilidade de ser acessado por estudantes com menos dinheiro e que vivem fora dos grandes centros”, defende. Segundo ele, pelo número de livros disponibilizados, o projeto da Unesp é comparável às principais iniciativas semelhantes empreendidas por editoras universitárias de outros países.

Devido ao seu trabalho como pesquisador na área de acesso à informação científica, Ortellado foi convidado a acompanhar o projeto. Ele ressalta o caráter experimental do programa como um de seus méritos. “Entre este ano e o próximo, os e-readers hoje oferecidos por empresas como Sony, Apple e Amazon devem se tornar mais populares. E ninguém sabe quais serão as consequências disso para a indústria editorial. Tudo é especulativo ainda, por isso queremos observar este processo.” Até o final de 2010, mais 58 livros produzidos pela Editora Unesp serão acrescentados à coleção Propg.

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