Fim dos jornais ou do jornalismo?

Texto ◘ Maurício Tuffani

Eu não pretendia abordar pela segunda vez consecutiva nesta coluna más notícias sobre a imprensa. Mas não tenho como deixar de comentar o estudo “The State of the News Media 2010” (www.stateofthemedia.org), o mais recente dos publicados anualmente desde 2004 pelo Projeto para a Excelência do Jornalismo (PEJ), que até a edição de 2006 estava diretamente sob a responsabilidade da Escola de Jornalismo da Universidade Colúmbia, em Nova York. Depois disso, o PEJ tornou-se diretamente vinculado à fundação Pew Charitable Trusts, sediada em Washington, que foi desde o início o grande suporte financeiro desse empreendimento. As pesquisas baseiam-se em amplos levantamentos sobre os diversos tipos de veículos jornalísticos dos EUA, com foco em vários eixos temáticos, como conteúdo, audiência/circulação, financiamento, investimentos em redações e atitudes públicas.

Além da queda de 26% na receita publicitária dos jornais dos Estados Unidos durante 2009, acumulando perdas totais de 43% nos últimos três anos, o documento destaca não só previsões para essa tendência, como também a de precarização das condições de produção de conteúdos devido ao declínio do suporte financeiro para essa atividade. Essa queda não foi detectada apenas para a imprensa na chamada “velha mídia”. Ela aconteceu com todos os outros tipos de meios jornalísticos, como televisão (22%), rádio (22%) e revistas (17%). A exceção foi a TV a cabo. No que se refere ao jornalismo on-line, o relatório de 2010 ressaltou que ainda não há evidência de algum modelo de negócio sustentável financeiramente. Para complicar, o estudo mostrou também que 79% dos leitores habituais desse tipo de veículo jamais clicam em anúncios on-line.

É cada vez maior a confusão entre a informação bruta e aquela elaborada por meio de contextualização e verificação

Todos esses aspectos quantitativos são importantes, assim como diversos outros que também são analisados pelo PEJ, que tratam de abordagens e conteúdos. No entanto, o projeto tem deixado de enfatizar um tema importante em seus últimos relatórios.

Os três primeiros relatórios – de 2004, 2005 e 2006 –, ao destacar as tendências principais da imprensa em seus períodos correspondentes, se diferenciaram nitidamente de seus sucessores ao ressaltarem pontos caros para os princípios do jornalismo.

O estudo de 2004 mostrou que a maior parte da atividade das redações nos EUA consistia em distribuir conteúdos e não em produzi-los, e que esse quadro era de tendência crescente. Mais que isso, mesmo entre os veículos geradores de conteúdos era cada vez maior a confusão entre a informação bruta e aquela elaborada por meio de contextualização e verificação. O documento destacou também a influência crescente, nas pautas, das fontes governamentais e empresariais e a “perda do poder de barganha” dos jornalistas com seus editores.

Em 2005, o PEJ ressaltou a tendência para a diversificação de modelos editoriais, mas quase todos eles com o padrão faster, looser and cheaper (mais rápido, mais vago e mais barato). O relatório de 2006 destacou que apesar do número cada vez maior de canais informativos, a diversidade de assuntos cobertos tendia a diminuir, sem falar na crescente similaridade das abordagens dos diversos veículos sobre os assuntos principais. Ou seja, a homogeneização do noticiário.

Em meio a todas essas tendências, parece supérflua a discussão recorrente sobre se os jornais impressos vão desaparecer. A questão essencial é se o jornalismo, entendido como uma atividade baseada no pensamento crítico e comprometida com o interesse público, vai sobreviver.

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