Antônio Klar – Pioneiro da agronomia brasileira

Texto ◘ Pablo Nogueira

Referência nacional em irrigação e drenagem, pesquisador teve de ser flexível ao escolher carreira e acabou consolidando a área no Brasil

“Pai, meu sonho é ser engenheiro.” Foi com esse argumento que, com 18 anos, o jovem Antônio Evaldo Klar abriu mão da carreira de comerciante que estava a sua espera como herdeiro do armazém que sustentava sua família em Piracicaba. O pai, um imigrante alemão que havia chegado ao Brasil na década de 1920 para trabalhar na lavoura de café, apostou no pendor do filho para física e matemática. Decidiu vender o armazém e ajudou o rapaz a instalar-se em São Paulo, onde foi viver sozinho antes mesmo de terminar o colégio. Klar matriculou-se numa escola com período noturno para concluir o segundo grau. As tardes eram passadas num puxado cursinho, destinado a preparar os estudantes que ambicionavam vagas em instituições concorridas, como as escolas de engenharia da USP em São Paulo e São Carlos.

Ao longo daquele ano (1957), Klar percebeu que suas chances de ser aprovado para o curso de engenharia eram pequenas. Foi quando um colega lhe sugeriu candidatar-se ao curso de agronomia, argumentando que a concorrência era menor e que lá ele também estudaria suas disciplinas favoritas. Além disso, poderia retornar para Piracicaba e estudar na Escola Superior de Agricultura Luis de Queiróz, a Esalq.

“O ser humano tem uma grande capacidade de adaptação, e eu tinha de me adaptar. Meus pais não tinham mais condições financeiras de me manter em São Paulo, por isso resolvi fazer o concurso para Agronomia”, conta Klar, aos 73 anos. Passou em segundo lugar. E iniciou uma carreira com a qual nunca sonhara, mas que o levou a tornar-se referência nacional na sua área de pesquisa e um dos responsáveis pela consolidação da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) de Botucatu.

Embora seja conhecido pelo trabalho na área de irrigação e drenagem, Klar começou sua carreira de pesquisador em genética. Na graduação, fez sua iniciação científica com Friedrich Brieger, considerado o introdutor dos estudos de genética vegetal no Brasil. Depois de formado, Klar recebeu de Brieger o convite para tornar-se professor na área de genética. “Era um homem excepcional”, recorda-se sobre o mestre. Seu temperamento germânico, porém, levava-o a cobrar bastante de professores, que não tinham direito a férias – viagens para congressos já eram consideradas como “folgas”, lembra Klar.

O alemão lhe deu a tarefa de montar um banco de dados com espécimes de milho dos Andes. Klar varou a Argentina e parte da Bolívia atrás de amostras. “Chegamos a colher milho a 4 mil metros de altitude.” Ele coletou espécimes raros, como uma variedade argentina que possuía grãos de 2 cm de diâmetro. O resultado de dois meses de viagem foram dois sacos de 60 kg de amostras. Foi preciso arranjar um passaporte diplomático para o pesquisador poder entrar com o material no Brasil.

Mas Klar não se sentia satisfeito e em 1964 mudou de área, indo trabalhar como professor na área de edificações rurais. O tão sonhado encontro com a engenharia finalmente acontecia. Mas de forma invertida. Como era professor, teve que aprender por si só a disciplina que iria ensinar. “Aprendi sozinho toda a parte de cálculo de construção, na base do esforço. Foi algo que usei até quando construí minha casa.”

O ser humano tem uma grande capacidade de adaptação, e eu tinha de me adaptar. Por isso fui para a agronomia

Do ponto de vista da pesquisa, porém, a área era pouco promissora. E a familiaridade no trato com plantas adquirida nos estudos de genética lhe abriu outro caminho, e ele começou a fazer experimentos em irrigação e drenagem. Em três anos, tornou-se mestre e doutor no assunto.

Na época, a tecnologia atraía a atenção de poucos agricultores brasileiros. “E mesmo os que a empregavam, não tinham embasamento técnico. Era mais um exercício de molhar a lavoura usando água demais ou de menos, pois não se usava nenhuma medição”, lembra. Na universidade, a pesquisa era igualmente incipiente. Sua tese de doutorado, defendida na Esalq em 1967, foi uma das primeiras no Brasil sobre o tema.

Como doutor, passou a receber visitas de pesquisadores do curso de Agronomia da então Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu (FCMBB). O contato resultou num convite e, em 1968, ele assumiu uma cadeira no curso. Foi lá que sua carreira como pesquisador na área de irrigação deslanchou. Ele decidiu focar nos efeitos da água sobre a fisiologia das plantas. Em especial, buscou compreender melhor a resistência das plantas de clima temperado às condições de seca .

Orientação de 15 minutos
Em busca de aprimoramento, realizou dois pós-doutorados nos anos 1970. Um deles o levou à Califórnia, local onde a irrigação havia feito o deserto do sul do estado florescer. E lá, mais uma vez, mostrou-se capaz de se adaptar às circunstâncias. “Quando cheguei, meu orientador, professor Henderson, disse que estava com mais 23 orientandos e perguntou se eu queria desistir. Eu disse que não.” O professor, porém, só tinha uma janela às sextas-feiras, entre 14 h e 14h15. Klar aceitou. “Mesmo assim aprendi muito lá”, recorda.

De volta ao Brasil percebeu a carência de bibliografia brasileira para sua área. Escreveu então o livro A água no sistema solo/planta/atmosfera, hoje uma das referências no setor. “Já teve até professor que me pediu dedicatória no livro”, diverte-se.

Ao longo da carreira, Klar publicou 90 artigos. Em 2003, por ocasião do 23º Congresso de Engenharia Agrícola, os pesquisadores Marcos Veloso, da Embrapa, e Sérgio Duarte, da Esalq, fizeram um levantamento entre 450 cientistas do país na área de irrigação, avaliando a produtividade em 21 itens, a fim de encontrar os 14 mais produtivos. Klar foi um deles.

Embora tenha recebido o título de professor emérito em 2006, continua se dedicando aos experimentos com a mesma paixão, agora como professor titular voluntário. “Até em finais de semana ele ainda vai a campo acompanhar experimentos de alunos”, conta João Cury Saad, ex-orientando e hoje professor da FCA. A continuidade na atividade científica, apesar da aposentadoria, permitiu que ele mantivesse uma bolsa de produtividade do CNPQ.

Paralelamente à atividade como pesquisador, Klar ajudou a consolidar a FCA institucionalmente. “Quando me convidaram para vir para Botucatu, ofereceram o dobro do salário. Mas ao chegar me perguntava: ‘onde fui amarrar meu burro?’”, lembra. A Agronomia não tinha instalações próprias nem laboratórios ou equipamentos. Contava com apenas 11 docentes, duas salas, uma fazenda experimental incipiente e meia dúzia de funcionários. Como era um dos poucos a possuir o título de doutor, foi eleito supervisor do setor de Agronomia três meses após sua chegada.

“Eu não tinha experiência em administração. Mas um antigo diretor do Instituto Agronômico da Esalq, o Paiva Neto, me tranquilizou. Ele disse que não é possível formar um bom pesquisador em dez anos, mas é possível tornar-se um bom administrador em seis meses.” Klar se dedicou e quase semanalmente se reunia em São Paulo com a direção da Coordenadoria dos Institutos Isolados do Estado. Após dois anos, a Agronomia tinha 53 docentes em tempo integral. Só o Departamento de Engenharia Rural, ao qual Klar pertencia, pulou de 1 pra 25 funcionários.

Era necessário criar novas instalações, e Klar foi convidado a participar da comissão de obras. “Me escolheram porque eu era novo, tímido e maleável, não brigava com os mais velhos”, admite. O que não foi empecilho para que ele conquistasse um prédio próprio para a Agronomia. O desafio seguinte foi gerir as fazendas experimentais, como a de São Manuel. Nos anos 1970, o curso de Agronomia aos poucos foi sendo instalado na fazenda do Lageado, que posteriormente se tornou o câmpus onde hoje fica a FCA. Os professores foram instalados em antigas casas de colonos. Os quartos eram os escritórios, a sala servia de secretaria e as cozinhas, de laboratórios. A estrutura atual só surgiu em 1982.

 

Durante a cerimônia em que recebeu o título de professor emérito, em 2008

 

O apelo federal
Em 1987, a irrigação ganhou força quando José Sarney, como presidente da República, apostou que sua difusão em grande escala poderia revolucionar a atividade agrícola no país. Um ministério extraordinário foi criado para cuidar do assunto com dois projetos principais: o Programa de Irrigação do Nordeste (Proine) e o Programa Nacional de Irrigação (Proni). Junto com outros 15 pesquisadores da área, Klar foi a Brasília e ouviu do então ministro Vicente Cavalcante Fialho um apelo para que criassem cursos de pós-graduação na área.

Ao voltar a Botucatu, iniciou os procedimentos para criar um mestrado. “Tinha de levantar todos os equipamentos, existentes em todos os laboratórios, que poderiam ser usados pelos alunos do curso. Também tinha de identificar todos os textos que existiam na biblioteca sobre o tema”, conta. Uma vez reunida a papelada, descobriu que com aquele processo poderia pleitear também a criação de um curso de doutorado em irrigação, inédito no país. “Decidi arriscar. Até então todo mundo que queria se graduar num curso assim tinha que sair do país.” A iniciativa deu certo, e em 1988 surgia na FCA o primeiro doutorado em irrigação no Brasil.

Klar coordenou o curso por oito anos. Com a chegada dos alunos de pós, a produção científica da Agronomia aumentou bastante. Os artigos gerados pelas pesquisas, porém, às vezes levavam anos para serem publicados, o que levou o agrônomo a sugerir a criação de uma revista para publicá-los. Nascia assim a Irriga, a única revista especializada em artigos sobre irrigação e drenagem no Brasil. Atualmente, os artigos escritos por alunos da FCA correspondem a cerca de 20% do total, sendo que mais da metade tem como autores pesquisadores de fora de São Paulo.

Klar dedica às atividades de orientação o mesmo esforço que investe na pesquisa. Possui hoje nove orientandos, sendo cinco de doutorado. Ele também aceita alunos de iniciação científica. Cleber Jadoski, tão logo se matriculou na FCA, foi bater em sua porta. Foi seu aluno de iniciação durante toda a graduação, período em que publicou cinco artigos. Sua produtividade lhe valeu ao final do curso, em 2009, o prêmio de destaque em pesquisa conferido pela Fundação de Estudos e Pesquisas Agrícolas e Florestais (Fepaf), na categoria de estudantes de agronomia. Thais Lopes, que também foi orientanda de Klar, foi premiada na categoria de engenharia florestal.

Seus conselhos também podem se destinar a não orientandos. Em março, no primeiro dia de volta às aulas, ele entrou por acaso numa das estufas destinadas a experimentos agronômicos. Lá encontrou uma jovem pós-graduanda, às voltas com sua pesquisa. Mesmo olhando de longe, Klar identificou problemas e foi conversar com a moça. “Disse a ela que, daquele jeito, iria perder o experimento. Quando vejo algo assim, vou lá e falo com o aluno”, diz.

Sua relação com os estudantes também teve um viés mais humanístico, como lembra Hélio Grassi Filho, seu ex-aluno e atualmente coordenador do curso de Agronomia. “Em 1984 nós fizemos greve pelo direito de votar para reitor. Ele não era de se juntar a greves, mas dessa participou. E explicava aos alunos a importância de termos esse direito, que USP e Unicamp mesmo hoje não têm. Ele foi um dos responsáveis por termos participado dessa história.”

Dez anos pode não ser tempo suficiente para treinar um pesquisador de ponta. Mas um bom administrador pode ser formado em seis meses

Em março, durante a aula inaugural na disciplina que leciona na pós-graduação da FCA, Klar exortou a turma a buscar a produtividade. Disse a eles que “se a gente não produz, o tempo passa, e lá na frente vamos ter que competir contra alguém que usou esse tempo. Precisamos aproveitar para produzir o máximo que pudermos.”

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