Labirintos do Barroco

texto ◘ Oscar D’Ambrosio

A arte, para Percival Tirapeli, não é apenas uma experiência formal ou estética. Trata-se, acima de tudo, de uma vivência, uma emoção pura. Esse raciocínio faz o artista plástico e especialista em Barroco brasileiro ter uma fascinação por igrejas, onde acredita que a beleza visual se mescla à vida da própria liturgia e a que é dada pela comunidade.

Estudar o Barroco brasileiro, numa viagem de quase 300 anos, significa encontrar raízes e expressões da arte contemporânea, que, assim como ocorria no início do século 18, mistura pintura, escultura e arquitetura para ter efeitos de ampla teatralidade e visualidade.

Em uma perspectiva multidisciplinar, ao pesquisar a arte daquele período, Tirapeli encontra as bases que o levam a compreender desde as origens do Carnaval a expressões visuais vinculadas à arte contemporânea, como as realizadas pelos artistas Adriana Varejão, que encontra nos azulejos portugueses a sedução de sua criação, e Tunga, capaz de realizar complexas instalações com ímãs e cobre.

Em uma ”viagem” de quase 300 anos, o artista e pesquisador Percival Tirapeli encontra raízes e expressões da arte contemporânea

Nascido em Nhandeara, perto de São José do Rio Preto (SP), em 1952, Tirapeli estudou em um seminário de padres redentoristas e já na adolescência, vivida junto à basílica velha de Aparecida e em viagens a Minas Gerais, apaixonou-se pela arte colonial.

 

 

Aos 15 anos cuidava de um museu, em Aparecida, no Seminário de Santo Afonso. Junto com os padres recolhia imagens nas antigas capelas de fazendas do Vale do Paraíba, ajudando a formar o atual museu da Torre da Basílica de Aparecida.

Livre-docente em Estética e História da Arte, pesquisador e professor de graduação e de pós-graduação no Instituto de Artes da Unesp, câmpus de São Paulo, Tirapeli é autor de livros como As mais belas igrejas do Brasil; Patrimônios da humanidade; Arte sacra colonial: barroco memória viva; As mais belas igrejas do Brasil; Igrejas barrocas do Brasil e São Paulo artes e etnias.

Desde 1987, realiza, como atividade de extensão universitária promovida pela Universidade, viagens de cinco dias com alunos para as cidades históricas de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, São Paulo, Rio Grande do Sul e região das Missões. É o programa Barroco Memória Viva.

Como artista plástico, Tirapeli foi, em meados da década de 1970, pioneiro no uso de xerografia, processo que permite recortar, colar, modificar e interferir nas formas que se obtêm por meio de reprodução de imagens e/ou texto mediante o uso da máquina fotocopiadora. Participou de Bienais Nacional e Internacional de São Paulo e expõe em salões de arte desde 1972, em galerias de diversas cidades brasileiras e também de Roma (Itália). Possui, ainda, obras no acervo do Museu de Arte Contemporânea da USP e na Pinacoteca do Estado de São Paulo.

 

 

O desenho, para ele, é uma manifestação assídua, onde é possível explorar uma liberdade não tão fácil de encontrar em suas pinturas, geralmente de grandes dimensões, que exigem maior planejamento. O Barroco se faz presente no movimento e na intensidade das cores de suas telas. Há uma certa dramaticidade geralmente ligada à figuração, o que não exclui, porém, o exercício de se libertar de todas as referências adquiridas ao longo da carreira.

Um de seus projetos atuais é a construção de um ABC das artes, que passa pelas expressões gregas, a cerâmica pré-colombiana e a arte paleocristã. Se boa parte de seu trabalho plástico é a promoção de encontros imaginários entre referências da arte moderna, agora é o momento de Tirapeli conversar com a arte antiga.

As idas e vindas na linha do tempo são habituais. A região do Recôncavo Baiano é lembrada como uma área onde sempre há uma nova capela, engenho ou igreja para descobrir e restaurar. Já Belém (PA) traz o encantamento de uma arte que se relaciona com Lisboa e com uma produção de origem italiana presente, por exemplo, nos mosaicos da Basílica de Nazaré.

 

 

Cidades do interior paulista, como São Roque e Itu, também guardam numerosas riquezas visuais ligadas ao Barroco e ao Rococó. O desafio está em ver um edifício religioso como a existência de um tempo que passa e de uma sociedade que se modifica, se atualiza e se moderniza.

Visitar as igrejas barrocas de todo o Brasil representa, portanto, mergulhar em obras coletivas onde há arquitetos, que faziam os desenhos; canteiros, responsáveis pela extração das pedras; e mestres de obras, atuantes na construção propriamente dita.

A grandiosidade do barroco mineiro ou da pintura rococó do Mestre Ataíde estaria, para Tirapeli, numa alegria plástica que não se vê em Portugal. A devoção europeia à tradição perderia espaço, no Brasil, para uma arte pura, em que a liberdade, por exemplo, de colocar o rosto moreno de uma amante na imagem de uma Virgem revela o profundo envolvimento do artista com a obra e o seu potencial de extrapolar parâmetros rígidos europeus.

A trajetória de Percival Tirapeli dá-se num labirinto de signos, imagens e cores próprias e alheias. Seu poder de maravilhar os outros, seja na forma de dar uma aula ou de construir sua obra plástica, está na rara força de amalgamar originalidade, vocação para o ensino, ousadia de criar e talento para transformar cada trabalho numa imagem ou ação não cotidiana e inesquecível.

___________________

 

Deixe uma resposta

*