Bambu de lei

texto ◘ Fábio de Castro
Pesquisadores e estudantes do câmpus de Bauru fazem do Laboratório de Processamento de Madeira uma marcenaria diferente, usando como alternativa mais sustentável a gramínea de rápido crescimento

À primeira vista parece uma simples marcenaria. O conjunto de galpões está repleto de ferramentas e equipamentos: serra de esquadria, serra destopadeira, lixadeira, furadeira de bancada, prensa, refiladora e um túnel de vento para secagem de madeira. Na entrada, um mostruário dá uma ideia das sofisticadas peças de madeira de diversas tonalidades que são produzidas ali. São bancos, cadeiras de balanço, muletas, utensílios de cozinha, andadores, maquetes de casas, amostras de pisos, painéis e muitos outros objetos de fino acabamento.

Mas não é uma marcenaria qualquer. Em vez de marceneiros e aprendizes, ali trabalham pesquisadores e estudantes. No lugar da madeira comum, diversas espécies de bambu. Trata-se do Laboratório de Processamento de Madeira, da Faculdade de Engenharia (FE) do câmpus de Bauru da Unesp. Os objetos produzidos ali são todos feitos exclusivamente a partir do bambu, mas a maior parte não apresenta o formato cilíndrico característico desse material. A aparência surpreendente deve-se ao método de processamento empregado na confecção dos produtos: o bambu laminado colado (BLC), técnica desenvolvida na China e adaptada no Brasil para as espécies mais comuns aqui.

 

SHOWROOM
Peças produzidas no laboratório; pesquisadores e alunos usam o bambu
in natura, o laminado colado (BLC) e chapas de aglomerado de resíduos

 

“O bambu é cortado longitudinalmente em ripas, que adquirem uma forma plana. Essas ripas são então recortadas e coladas conforme a necessidade no projeto”, explica Marco Antonio dos Reis Pereira, professor do Departamento de Engenharia Mecânica e coordenador do Projeto Bambu, desenvolvido no laboratório desde 1992.

Mesmas aplicações da madeira
De acordo com ele, levantamentos feitos na China revelam que o bambu in natura pode ter pelo menos 4.000 aplicações, que vão do artesanato à construção de grandes estruturas. “Com o BLC – e com as chapas de aglomerado produzidas a partir dos resíduos do processamento –, as possibilidades são praticamente inesgotáveis. Absolutamente tudo o que pode ser feito com madeira pode ser feito com bambu”, afirma Pereira.

No laboratório, diariamente, grupos de estudantes realizam testes de todos os tipos. Em um galpão, um deles avalia a eficiência do uso de resíduos – folhas caulinares do bambu, misturadas ao bagaço de cana-de–açúcar – para a confecção de placas de aglomerado. Na sala ao lado, outro grupo fabrica três cadeiras com o mesmo desenho: uma com bambu in natura, outra apenas com ripas processadas e a terceira apenas com BLC. O objetivo é analisar todo o processo produtivo, incluindo demanda de energia e geração de resíduos, para comparar o desempenho de cada cadeira em termos de sustentabilidade.

Desde o início, o Projeto Bambu tinha como proposta avaliar cientificamente as diversas possibilidades de aplicação do bambu. Como era preciso dispor continuamente de matéria-prima, o projeto passou a ter suas atividades divididas entre o laboratório e o campo. A primeira muda foi plantada há 15 anos, na área experimental agrícola do câmpus de Bauru. Hoje existem ali grandes touceiras de 25 espécies diferentes, que servem para pesquisa e aplicações, além de um viveiro de mudas. Foram escolhidas as espécies consideradas prioritárias entre as mais de 1.300 espalhadas pelo mundo em várias latitudes e altitudes.

 

Preparação
Colmos de bambu são cortados longitudinalmente em ripas

 

Com acesso a uma plantação controlada, ao longo do tempo os pesquisadores da Unesp aprimoraram as técnicas de manejo e fizeram extensos estudos de caracterização e viabilidade do material. Foram testadas todas as características de resistência física e mecânica, tração, compressão e flexão das ripas de bambu. “Constatamos que a capacidade de compressão de uma peça de BLC é de 500 quilos por centímetro quadrado. Isso significa que a resistência mecânica é muito satisfatória. A capacidade de tração é semelhante à das melhores madeiras”, explica Pereira.

As virtudes que fazem do bambu uma boa alternativa à madeira de árvores, no entanto, não se limitam à alta resistência mecânica. A incrível velocidade de crescimento do bambu faz dele um poderoso sequestrador de carbono. Na plantação da Unesp, a gramínea gigante chega a crescer quase 30 centímetros por dia. Apenas três meses após o plantio, uma muda atinge os 30 metros de altura, dependendo da espécie. No Japão, onde o solo é mais apropriado que o de Bauru, há bambus que crescem 110 centímetros a cada 24 horas.

Quando acaba o crescimento – que ocorre entre janeiro e março –, começa o amadurecimento. Isto é, a planta começa a adquirir a resistência mecânica adequada. Com dois anos, já pode ser usada em artesanato. No fim do terceiro ano, o bambu está maduro e pode ser utilizado para construção. Para se ter uma ideia, o mogno, que tem um crescimento considerado rápido para as madeiras de lei, leva de 15 a 20 anos para começar a atingir uma dimensão mínima para corte (tempo semelhante ao do eucalipto). Mas precisa de pelo menos 30 anos para atingir realmente um valor comercial bom.

Outra vantagem do bambu é que as touceiras são perenes e, assim que a produção é estabelecida, o processo se torna contínuo. Novos brotos vão surgindo na mesma touceira, que tem bambus novos a cada ano, possibilitando o manejo. “A colheita é feita entre maio e agosto. Vamos colher, neste ano, apenas os colmos que cresceram no início de 2007. Em 2011, será a vez dos que cresceram em 2008, e assim por diante. A touceira não cessa nunca de gerar novos bambus e, ao produzir biomassa com tanta velocidade, sequestra carbono de forma fantástica – ao mesmo tempo em que seu uso poupa o corte de árvores. O que é fascinante, com esse manejo, é que podemos colher mil bambus sem que se note qualquer alteração na touceira. Podemos dizer que o bambu é visivelmente sustentável”, afirma Pereira.

Espécies de bambu plantadas no câmpus de Bauru crescem 30 centímetros por dia. Com dois anos já podem ser usadas para artesanato. Material é multiuso e, ao ser processado em técnica conhecida como BLC, pode substituir madeiras de lei

Mesmo com tamanho potencial, o bambu não é usado em larga escala no Brasil. O principal obstáculo para que a versátil matéria-prima conquiste espaço na indústria moveleira e na construção civil, na opinião do pesquisador, é o preconceito. “No Brasil pouca gente conhece o valor e as possibilidades desse material. O uso do bambu ainda é associado à falta de recursos. É a chamada madeira dos pobres”, diz Pereira, que mora, desde 1995, em uma casa onde o bambu substitui os tijolos, sendo apenas a parte externa recoberta com reboco. “As pessoas riem quando digo que moro em uma casa de bambu. Imaginam algo extremamente precário.”

Design para assentados
Exatamente por causa disso, quando o Projeto Bambu concluiu os principais estudos sobre sua viabilidade, a prioridade passou a ser o design. Os pesquisadores perceberam que, além da funcionalidade, a questão da aparência não é meramente acessória: para os produtos de bambu, a beleza é fundamental. Com base nos dados obtidos nas pesquisas de engenharia, o laboratório passou a explorar os resultados estéticos do bambu processado e laminado. A partir daí, a pesquisa passou a ser feita com base na geração de produtos, envolvendo alunos dos cursos de Design e de Arquitetura da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp de Bauru. Alunos de engenharia estão começando as pesquisas voltadas para a construção.

Em 2008, o laboratório conseguiu recursos do Banco Real para um projeto de extensão que previa a transferência do conhecimento gerado no laboratório para os moradores do assentamento rural Horto de Aimorés. A comunidade, situada a 18 quilômetros do câmpus, teve contato com o Projeto Bambu por meio da Incubadora de Cooperativas Populares da Unesp. Em maio de 2009, por iniciativa dos alunos, foi formado o Grupo Taquara, que integra o trabalho dos graduandos de Design e de Arquitetura ao projeto de extensão. Hoje, as atividades do cotidiano do Laboratório de Processamento de Madeira são exercidas principalmente por esse grupo.

“Diariamente trabalhamos no laboratório e às sextas-feiras recebemos os assentados para uma oficina conjunta. Todos atuam também na manutenção da plantação experimental. Trabalhamos em toda a cadeia de produção – desde o manejo das mudas, passando pela colheita, até o processamento e o acabamento dos produtos feitos em BLC. É uma interação horizontal”, conta Rodrigo Rocha Carneiro, um dos primeiros alunos do curso de Design a se envolver com a criação do Grupo Taquara.

Na área do assentamento, a comunidade já plantou 60 mudas e em breve plantará outras 60, que dentro de três anos produzirão cerca de mil colmos de bambu por ano. Na área experimental da Unesp, a colheita é feita nos três primeiros meses do ano, com participação de alunos e assentados. Mas os cuidados diários de manejo de mudas são geralmente realizados pelos assentados. Nas oficinas semanais, as famílias aprendem a manipular as ferramentas para as diversas aplicações do BLC. Os estudantes também aprendem com a vivência agrícola dos trabalhadores e têm a missão de compreender as necessidades deles e adaptar a elas o design do produto.

 

Matéria-prima e produto final
Área experimental agrícola do câmpus tem touceiras de 25 espécies, que são testadas para as mais diversas aplicações; acima, sala da casa de Pereira, feita com a planta

 

“Previmos, no estatuto do grupo, a participação de colaboradores de outras disciplinas. Percebemos que vamos precisar, em breve, de alunos das áreas de Humanidades para mediar as relações com o pessoal do assentamento, além de um aluno da engenharia de produção para otimizar os processos e a produção cooperada da comunidade. Já integramos também alunos de biologia”, diz Carneiro.

As rotinas do laboratório são estabelecidas por projetos de pesquisa que garantem bolsas e geram metas. Em 2009, o grupo conseguiu financiamentos por meio do Ministério da Educação e do Banco Santander. O grupo também organiza mostras dos produtos, com a intenção de saber se o que estão passando para os assentados é de fato viável para comercialização. Até agora, o resultado tem sido um sucesso.

Para os assentados, como Vicente Coimbra, o objetivo é adquirir conhecimento que agregue valor a sua produção artesanal de objetos em bambu, gerando renda para a comunidade. “Aprendemos todo o processo – do plantio à produção do BLC. Unimos forças com os estudantes, e a experiência está sendo um grande passo para nós. Esperamos que, com o dinheiro de um artesanato mais bonito, a gente possa comprar as máquinas para montar uma oficina no acampamento e aumentar a renda da comunidade”, contou Coimbra, que produz taças, copos, colheres e outros tipos de utensílios de bambu.

De acordo com Pereira, coordenador do grupo, o interesse da comunidade pelo projeto de extensão é fundamental para o laboratório, já que para divulgar e popularizar o uso do bambu também é preciso dispor de mão-de-obra qualificada. Cerca de 20 famílias já chegaram a participar, e seis delas se mantiveram assiduamente atuantes no projeto. Enquanto isso, os 14 alunos do Grupo Taquara abriram um novo processo seletivo e já tiveram a procura de 60 interessados. “É importante que haja essa adesão, porque o grupo precisa se perpetuar. E os estudantes universitários se renovam a cada ano. Assim como o bambu.”

___________________

 

Deixe uma resposta

*