Quando a física mete a colher na economia

Pouco mais de uma semana antes de fechar esta edição, os sites de notícias começaram a dar destaque para as atividades do impronunciável vulcão finlandês Eyjafjallajökull (diz o colega Claudio Angelo, da Folha de S.Paulo, que se lê “êyafiatlaiêktl”, mas acho que ainda não ajuda muito). Na ocasião, sua coluna de fumaça já fechava o espaço aéreo britânico, e não passou muito tempo para impedir o tráfego em quase toda a Europa, causando um apagão aéreo de cinco dias e um prejuízo estimado de US$ 1,7 bilhão (cerca de R$ 3 bilhões) para o setor.

A erupção de um vulcão, assim como a ocorrência de terremotos, como se sabe, é algo que a ciência ainda não consegue antecipar. Mas, preocupada com a proximidade do evento com as minhas férias, e ainda atarantada com o fechamento, só conseguia blasfemar uma coisa: por que raios os físicos, em vez de tentar prever esses desastres naturais, inventam de meter a colher na área dos outros?

Desabafo irracional e injusto, claro, motivado pelo tema da nossa reportagem de capa: a econofísica, uma nova disciplina na qual físicos trabalham com modelos das ciências naturais para tentar antecipar as flutuações do mercado. Irracional de minha parte porque mais mentes que se esforcem a evitar crises financeiras são sempre bem-vindas num mundo que começa a se recuperar do mais recente crash. E injusto porque obviamente tem muito cientista debruçado sobre os desafios dos fenômenos da natureza. Mas ainda assim compreensível, vai… é o medo de perder as férias.

Drama pessoal à parte, o interessante da reportagem de Igor Zolnerkevic, físico que também mudou de área, vindo para o jornalismo científico, é que talvez os arroubos da economia sejam mais fáceis de prever que terremotos e vulcões. Essa ideia é atribuída a um dos principais estudiosos da econofísica, Didier Sornette, que coordena o Observatório de Crises Financeiras do Instituto Federal Suíço de Tecnologia (EHT), em Zurique. Antes de se aventurar no mundo das finanças, ele era geofísico e trabalhava com terremotos. É de se imaginar o quão frustante deve ser acompanhar desgraças como a do Haiti sem conseguir avançar muito. Agora ele tenta prever bolhas financeiras. Em qual se dará melhor?

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Giovana Girardi
editora chefe

 

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