Ciência, religião e jornalismo

texto ◘ Maurício Tuffani

O jornalismo surgiu na virada entre os séculos 16 e 17, no mesmo contexto histórico de ascensão da burguesia mercantil e decadência do poder da Igreja Católica. Foi também o contexto de construção da ciência moderna, no qual se solapou a visão de mundo predominante no Ocidente medieval. Da tradição judaica, o saber teológico incorporara a concepção da Lei e da Ordem instauradas pelo Verbo. Do pensamento grego, ele interpretava a concepção aristotélica da causalidade fazendo de Deus a causa finalis, condutora de tudo no cósmos por Ele criado e ordenado. Como tudo já havia sido previsto no Gênesis, o conhecimento era imutável e concebido como re-conhecimento: tudo o que se pudesse acrescentar ao saber só poderia confirmar, e jamais modificar, as verdades eternas das Escrituras.

Essencial para a ordem feudal e a autoridade da Igreja, essa visão de mundo passou a ser desgastada desde o Renascimento. A partir da ocupação de Constantinopla pelos muçulmanos em 1453, expandiram-se as rotas marítimas, proporcionando novos espaços econômicos para a burguesia mercantil se libertar das amarras das relações feudais e fazendo costumes de outros povos serem amplamente conhecidos. Com a revolução deflagrada pela invenção da prensa por Johannes Gutenberg (1398-1468), muitas obras, especialmente da Antiguidade greco-romana, deixaram cada vez mais de ser restritas ao âmbito da Igreja, dando maior vigor ao Renascimento e, de um modo geral, à ampliação dos horizontes do homem europeu.

Apesar da força da Inquisição em alguns países, grande parte da difusão do conhecimento escapou de seu controle, invalidando a máxima do Eclesiastes de que “não há nada de novo debaixo do sol”.

Com a dessacralização do mundo, a imprensa participou ativamente da História, legitimando a apropriação da natureza

Os primeiros jornais surgiram na virada entre os séculos 16 e 17, muitos deles impressos para distribuição gratuita. Eles apareceram movidos pelas mesmas forças históricas que erodiram o poder da Igreja e a ideia do mundo finito e ordenado por uma hierarquia de valor e de perfeição, substituindo-o pelo universo infinito, homogêneo e geometrizado, onde as interações dos corpos não precisam mais ser explicadas por uma causa exterior a eles. A razão se torna autônoma.

Entre o Iluminismo e as revoluções Francesa e Industrial, o jornalismo atuou solidariamente a esse ideário da destruição do cósmos e geometrização do espaço, assim descrito pelo historiador da ciência Alexander Koyré em seu livro Do mundo fechado ao universo infinito. Dada a dessacralização do mundo, a imprensa participou ativamente da História, legitimando a crescente apropriação da natureza com base na scientia activa que substituiu a scientia contemplativa.

Na França, em 1789, a imprensa legitimou também, com fundamento nessa razão autônoma, o uso da violência para impor os ideais burgueses de liberdade, igualdade e fraternidade. A queda do Antigo Regime consagrou na política a mudança do papel do homem no mundo, da mesma forma que já havia se transformado o próprio espaço do mundo. Para esse novo papel do homem, já surgira, nas palavras de Hegel, uma forma de oração matinal – a leitura diária de jornais.

O evolucionismo surgiu na esfera pública em confronto com a interpretação bíblica da natureza e do homem. Por mais religioso que pudesse ser um jornalista, era inevitável seu posicionamento pelo menos em favor da divulgação dessa nova teoria, dado o ethos de defesa dos valores laicos da modernidade. No final do século 20, a causa final ressurge explicitamente com o Design Inteligente, com o qual, compreensivelmente, a imprensa nem quer saber de conversa.

No entanto, no século 19, ainda em pleno otimismo da modernidade, Nietzsche já havia ridicularizado a pretensão das “ideias modernas” de terem banido a causa final, inclusive da ciência. Hoje, vemos crescer objeções a idealizações platônicas na ciência, como parece ser o caso da busca da unificação da física por meio das simetrias. E, asssim como a ciência, a imprensa mal se dá conta de que esse tema exige abordagem histórica e filosófica.

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* Roteiro da palestra “O confronto entre evolucionismo e criacionismo na esfera pública”, apresentada em 29 de abril no III Simpósio Internacional “Darwinismo Hoje”, na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

 

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