Codornas à beira de um ataque de nervos

texto ◘ Luciana Christante

Aves criadas em granjas se estressam com calor, com vento e até com o criador, se ele estiver de roupa vermelha; pesquisadores de Jaboticabal tentam diminuir o problema com camomila e passiflora

Viver em granjas, em pequenos espaços, com vários indivíduos não deve ser muito agradável para nenhuma espécie, mas para as codornas, em especial, a vida se torna um estresse só. Longe de seu habitat original, muitas se agitam de lá para cá com as penas desgrenhadas e a cabeça ferida, obra do bico nervoso das companheiras de gaiola onde geralmente vivem grupos de até dez aves. Outras caem em depressão, e muitas vezes são vistas imóveis, congeladas num silêncio que pode durar de segundos a horas.

A situação é tão “triste de ver”, como conta a zootecnista Vera Maria Barbosa de Moraes, pesquisadora da Unesp de Jaboticabal, que ela estuda formas de aliviar esse sofrimento com fitoterápicos tradicionalmente usados para sossegar humanos, como camomila, passiflora e valeriana.

Talvez não seja a solução que os militantes pela libertação animal aplaudiriam, mas é um avanço nas pesquisas sobre bem-estar animal. Também os produtores se incomodam com a histeria codornícola, sobretudo pelos prejuízos econômicos. A agressão aumenta a mortalidade e subtrai os momentos de paz tão necessários para se botar ovos. O problema, generalizado no país, cresce à medida que a coturnicultura se expande. Segundo o IBGE, de 2007 a 2008 a produção de ovos da ave cresceu 20%, chegando a 157 milhões de dúzias. Metade saiu de granjas do Estado de São Paulo, cujo rebanho é estimado em mais de três milhões de codornas.

Segundo Vera Maria, o consumo da carne da pequena ave também cresce no Brasil, mas, longe da popularidade do frango, ainda está restrito a cardápios mais sofisticados. “Tem um gosto exótico”, afirma. O principal atrativo para os produtores ainda são os ovos, pois a codorna come pouco, cresce rápido e, uma vez atingida a maturidade sexual (aos 42 dias), bota até 300 deles ao longo da vida, que dura em média um ano. Com toda essa eficiência, “cada vez mais os granjeiros estão percebendo que a codorna é muito lucrativa”, diz a pesquisadora, ainda que cada dúzia de ovos saia da granja custando em torno de R$ 1. Se as codornas não vivessem sob estresse tão intenso, portanto, os lucros poderiam ser ainda maiores.

Ave calorenta
A codorna japonesa (Coturnix coturnix) é a ave de escolha na coturnicultura brasileira. Seus ancestrais ainda podem ser encontrados nas matas nativas do sudeste asiático, onde a temperatura é mais amena que a média paulista. Aí está um dos fatores que mais estressam essas aves: o calor. “A temperatura boa para elas seria em torno de 23°C, mas aqui em Jaboticabal, por exemplo, raramente faz menos de 30°C”, diz Vera Maria. Não adianta refrescar o ambiente com ventiladores, porque os animais se incomodam com vento e param de botar ovos. “Por isso é necessário um bom planejamento das instalações, que evite a incidência direta de luz solar, por exemplo”, afirma a pesquisadora

Animais desesperados bicam uns aos outros e às vezes entram em momentos de depressão. Além de prejudicar a qualidade de vida das aves, o estresse compromete a produção de ovos. Passiflora foi o fitoterápico que apresentou melhor resultado

Outro problema é que, diante do estresse, os animais ficam bicando com insistência, até machucar, a cabeça e o corpo uns dos outros. Pesquisadores acreditam que isso acontece pela falta de ter o que ciscar no chão da gaiola, então uma solução seria deixar os bichos livres, em criação extensiva. Mas, do ponto de vista prático, a solução parece utópica, pelo menos em curto prazo.

Alguns cuidados simples no manejo das codornas, entretanto, surtem bons efeitos. Exemplo: os tratadores nunca devem usar roupas de cores fortes, principalmente vermelhas. “Elas ficam desesperadas”, diz a pesquisadora. Perfumes ou qualquer produto com odor também devem ser evitados pelos profissionais. Mas isso ainda é pouco para melhorar a qualidade de vida das aves, razão pela qual Vera Maria partiu para o estudo dos calmantes fitoterápicos.

Em suas pesquisas com camomila (Matricaria chamomila), valeriana (Valeriana officinalis) e passiflora (Passiflora alata, tipo de maracujá nativo da Amazônia), ela avaliou, além dos ferimentos corporais e dos momentos de imobilidade tônica, o consumo diário de ração e a produção de ovos. Medidas fisiológicas também foram tomadas, como a concentração plasmática de corticosterona e a relação entre linfócitos e heterófilos (um tipo de célula do sangue), que também são indicadores de estresse.

Dos três fitoterápicos usados, todos adicionados à ração das aves, apenas a passiflora trouxe alívio significativo. A agressividade diminuiu, os períodos de imobilidade tônica se encurtaram, a produção de ovos aumentou e as medidas plasmáticas melhoraram. Também foi observado que as codornas gastaram mais tempo em ócio ou fazendo movimentos de conforto, como abrir asas e sacudir penas. Os resultados foram obtidos na tese de doutorado de Janaína Della Torre da Silva, defendida em 2009. Mas a orientadora Vera Maria não está satisfeita, ainda acha que camomila e valeriana podem ser úteis e planeja novos experimentos com uma mistura das três plantas. “Nos fitoterápicos vendidos nas farmácias, elas geralmente vêm juntas”, justifica.

Em tempo — Ao contrário do que prega a canção eternizada na voz de Luiz Gonzaga, as propriedades afrodisíacas do ovo de codorna nunca foram comprovadas cientificamente, seja ingerido sozinho ou com cerveja preta. Em compensação, do ponto de vista nutricional, “ele é o mais completo alimento que existe depois do leite materno”, afirma Vera Maria.

___________________

 

Deixe uma resposta

*