Índios sem pajé

Com o perdão do clichê, o Brasil é mesmo um país de contrastes. Pesquisadores vão à região da Cabeça do Cachorro (AM) para tentar aprender com indígenas seu conhecimento de plantas antimaláricas em busca de algo que possa levar a uma nova droga. Ironicamente, encontram pessoas que precisam de ajuda para montar uma horta de plantas medicinais.

Quando a repórter Luciana Christante, que fez a nossa matéria de capa, contou que essa era uma das contrapartidas sugeridas por várias comunidades para consentir que os pesquisadores bioprospectassem as plantas que eles usam contra a maleita, foi impossível conter a estranheza. Afinal, não é exatamente esse tipo de conhecimento que os cientistas esperam alcançar?

Na verdade saber qual planta é melhor para o quê eles até sabem, observou ela, mas ao longo dos anos foram perdendo a noção sobre como cultivá-las e, inclusive, como usá-las: se o tronco, as folhas ou frutos, se como chá ou de alguma outra forma. Nas comunidades visitadas nos arredores do núcleo urbano de São Gabriel da Cachoeira, habitadas principalmente por índios tukanos, barés e baniwas, houve um esvaziamento nas últimas décadas dentro de um movimento provocado, de certo modo, pelas missões salesianas, que em 1914 se instalaram na região a fim de catequizá-la.

Se por um lado a presença deles foi fundamental para ajudar os índios a se libertarem de um esquema de quase escravidão imposto por comerciantes locais, por outro os levou para um caminho de erosão da cultura tradicional. As escolas da missão ensinavam o português, não incentivavam as línguas locais.

As crianças passavam anos no internato e quando voltavam já mais velhas para as comunidades tinham perdido os vínculos afetivos com as pessoas e com a cultura local. Acabavam indo para a cidade, o que causou uma quebra na transmissão do conhecimento. Hoje a situação é outra: valorizar ao extremo as raízes e tentar colar os cacos culturais que sobraram.

Nesse sentido até encaram o pesquisador branco que vem de fora como alguém que pode ajudá-los, desde que os trate com o respeito que faltou no passado, como esclarece o muito bem articulado Pedro Fernandes Machado, da etnia Tukano. “O índio nunca escreveu livro. Quando a pessoa morre levou tudo. Então não vou viver num mundo de ilusão, por isso eu sou favorável à tecnologia, à ciência de pesquisar as plantas, as raízes, para transformar em remédio. Eu tenho que aprender isso, porque eu não tenho pajé.”

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Giovana Girardi
editora chefe

 

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