Peixes sensíveis

texto ◘ Ricardo Bonalume Neto

Pesquisas com tilápias, pintados e pacus mostram que esses animais têm formas de memória e comunicação e são capazes, sim, de sentir dor 

“Se você chora por um rapaz/Você não será a última/Muitas vezes os peixes são muito mais carinhosos.” Quando o cantor e compositor francês Francis Cabrel optou por descrever a crueldade masculina com as mulheres na música La Cabane du Pêcheur (A Cabana do Pescador), a escolha natural foram os peixes. Compreensível. Mesmo como animais de estimação em aquários eles não costumam ser afeiçoados aos donos, nadando para lá e para cá com a mesma face imperturbável e olímpica indiferença. Há muitos cientistas que acreditam que peixes são mesmo incapazes de sentir dor.

Essa visão tradicional está mudando, contudo. Pesquisas não só mostram que eles sentem dor, como também possuem formas de memória e de comunicação, e, dizem alguns cientistas, até mostram traços de “personalidade” (há peixes mais tímidos e outros mais ousados na mesma espécie). O bem-estar dos peixes também passou a ser considerado como algo necessário. Um grupo da Unesp é um dos pioneiros em avançar nesse tipo de conhecimento no Brasil.

As pesquisas não são mera curiosidade acadêmica. Muitos dos peixes de água doce estudados têm valor comercial e fazem parte da dieta da população brasileira, como dourado, matrinxã, tilápia, pintado e pacu.

 

Preferência animal
Gilson Luiz Volpato investiga por que alguns animais crescem mais que outros e o que os incomoda, visando melhorar seu bem-estar na pesquisa e na piscicultura

 

Gilson Luiz Volpato, do Departamento de Fisiologia do Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu, trabalha com uma questão importante para a pesquisa e de claro interesse da piscicultura. Por que alguns crescem mais que outros? Peixes da mesma espécie interagem entre si, compõem redes “sociais”. “Um desdobramento disso é a diferença de crescimento”, diz.

A explicação que parece mais óbvia é que isso seria resultado da disputa pelo alimento – os peixes mais fortes impedindo o acesso de rivais à comida. Mas não é o caso; em um tanque de piscicultura, o alimento é abundante, mas ainda se notam as diferenças de tamanho. “Até os mais submissos acabaram comendo”, afirma. As pesquisas dele e de seus colegas mostraram que o principal fator para o “crescimento heterogêneo” é o estresse. Sim, peixes também ficam estressados!
“O animal que apanha tem maior taxa de estresse. Parte da energia vai para lidar com isso, não para o crescimento”, diz Volpato. O peixe submisso não só precisa fugir dos mais agressivos, como ficar em alerta constante para evitar um conflito, o que gasta energia.

Na prática comercial, esse dado significa que o piscicultor vai ter que escolher a densidade ideal de peixes em um tanque, que gere menos briga; mas ele vai precisar contrabalançar isso com a rentabilidade. Um número bem menor de peixes também pode significar um lucro menor e tornar sua produção inviável economicamente.

Falar em “estresse” do peixe faz sentido, pois os estudos de Volpato e colegas são canalizados para uma área básica: o bem-estar animal. Ele chefia o Centro de Pesquisas em Bem-estar Animal, que além de pesquisadores da Unesp, inclui pessoal da USP, UFRN e UFPR. Volpato também está vinculado ao Centro de Aquicultura da Unesp, uma unidade complementar que reúne docentes de sete unidades da universidade que atuam na área.

“Que os peixes sentem dor, não há dúvida, não há mais quem questione”, diz Volpato. Por isso ele é contra a pesca com fins recreativos, do tipo “pesque e solte”, pois o anzol de fato faz doer a boca do peixe. Ele não é contra a pesca e piscicultura para alimentação, desde que se imponha o mínimo de sofrimento possível ao animal, como é a norma em muitos países na criação e abate de bois e galinhas.

Na hora de escolher um parceiro, as fêmeas preferem os mais “fortinhos”, com melhores chances de se reproduzir; para decidir, elas se valem de dicas visuais e dos sinais químicos que os machos enviam sobre se estão mal ou bem nutridos

“Se eu fizesse com cachorros o que fazem com peixes eu estaria na cadeia”, brinca. Volpato acha que a questão tem um lado ético preocupante. Ao pescar com fins recreativos, uma criança aprende que é válido infligir dor a um animal para se divertir.

Como em outros animais vertebrados, o estresse aumenta o nível do hormônio cortisol nos peixes (o que serve de medida e indicação de que eles se estressam). Um dos resultados de pesquisa mais surpreendentes revelou que a cor da água tem efeito sobre isso. Água com luz verde ou branca fez o cortisol subir; já com a água azul o nível do hormônio se mantinha o mesmo.

O estudo, feito por Volpato e Rodrigo Egydio Barreto, também da Unesp, foi feito com a tilápia-do-nilo (Oreochromis niloticus), muito popular em piscicultura. Os peixes foram colocados em aquários com luz fluorescente branca, cobertos ou não com celofane colorido (azul e verde).

Antes dos experimentos o nível de estresse dos peixes foi avaliado pelos níveis de cortisol no sangue. Para estressar o animal, era feito um confinamento no aquário usando uma placa opaca que deixava o peixe em apenas 10% da área disponível.

Outro estudo de Volpato, desta vez com o matrinxã (Brycon cephalus), mostrou que este peixe foi mais agressivo sob a luz verde e cresceu quase três vezes mais nesta cor.

Nos peixes de hábitos diurnos a visão é um sentido fundamental. “Como em habitats naturais a cor do ambiente é uma característica que varia de acordo com o lugar, e pode até mudar ao longo do tempo no mesmo habitat, espera-se que o efeito da cor na vida do peixe esteja associado com a cor predominante no habitat”, escreveram Volpato e Barreto em artigo que descreveu o experimento com as tilápias.

Para ter uma ideia clara de como a cor e a luz de um ambiente aquático podem mudar, basta visualizar o famoso “encontro” das águas próximo a Manaus do escuro rio Negro com o barrento Solimões, que juntos formam o Amazonas. Peixes de um rio e de outro têm de se adaptar a ambientes bem distintos, envolvendo menor ou maior uso de sentidos como a visão ou de sensores químicos e elétricos.

Ter uma boa noção do ambiente em torno é crucial para um peixe detectar e escapar de predadores. Em espécies que formam cardumes, essa informação, muitas vezes de origem visual, como uma reação de medo, pode levar a dramáticas e instantâneas mudanças de rota do grupo. Mas em águas mais turvas os peixes dependem mais de sinais químicos.

Sinal de alerta
Muitas espécies ao serem atacadas, e feridas, por um predador liberam esses alarmes químicos, pois as substâncias ficam armazenadas na pele. O caso de peixes não feridos também emitirem alarmes químicos é bem menos estudado. Volpato e sua colega Luciana Jordão demonstraram a existência dessa “comunicação química” no pacu (Piaractus mesopotamicus).

A dupla expôs grupos de pacus à visão de um predador, a traíra (Hoplias malabaricus), de um não predador herbívoro, a piracanjuba (Brycon orbignyanus), ou de um aquário vazio. Depois eles transferiram a água desses aquários para outros com pacus isolados. O trabalho mostrou que os pacus, mesmo juvenis, identificaram visualmente a presença de outro peixe e reconheceram-no como predador ou não predador. Eles deram, então, avisos correspondentes, liberando substâncias químicas na água. A água com o sinal de alerta foi suficiente para o pacu do aquário que a recebeu fugir na direção oposta.

Este tipo de estudo envolve a mesma paciência que tem um pescador – só que, no caso, para observar e filmar os peixes. Às vezes é preciso usar câmara lenta, filmar mais de uma vez e por horas. E são testados múltiplos peixes em vários aquários. Em geral o grupo de pesquisa lida com os peixes no verão, estação que facilita a criação, e deixa o inverno para descrever os resultados em artigos científicos.

O trabalho pode se resumido em entender as “preferências” dos peixes. “O que ele quer?”, pergunta Volpato. Fica em toca ou não? Quantas tocas? Que temperatura prefere? E o substrato, a cor, a luz? “Às vezes leva meses para termos certas respostas”, diz. “O estagiário tem que ter paciência para sobreviver neste laboratório.”

 

Teste de preferência
Pesquisa com aquários coloridos, com ou sem toca e com ou sem substrato aponta quais as condições favoritas dos peixes; as tilápias preferem a cor amarela

 

Mas o resultado é instigante para quem tem curiosidade pelo comportamento animal. “Eu vi que o aspecto descritivo da biologia não me encantava, e sim como o animal funciona fisiologicamente e como se comporta”, diz outra pesquisadora do Departamento de Fisiologia, Percília Cardoso Giaquinto. Seu mestrado é sobre a tilápia, um peixe trazido da África, e o doutorado é sobre o pintado (Pseudoplatystoma coruscans), nativo do Brasil. O primeiro é de manejo relativamente fácil, tolera grande variação de temperatura e água. Já o pintado requer uma água com composição química mais estrita.

A tilápia também é um peixe briguento, por isso Percília queria saber se ele conseguiria reconhecer com quem da mesma espécie brigou no passado. Descobriu que o animal tem uma “memória química” de até três meses. “De acordo com essa memória, ele foge ou enfrenta o outro peixe, assim como nós sentimos o cheiro de perfume e lembramos de uma pessoa”, afirma Percília. A tilápia depende bastante do visual para se comunicar e interagir, eriçando nadadeiras e mudando de cor.

Como o pintado é um peixe de comportamento noturno, preferindo ficar entocado de dia, a comunicação química é mais importante. “O pintado tem sensores químicos e elétricos bem aguçados”, diz. Esse peixe, no entanto, é cheio de manias para ser criado. Então, no momento é mais fácil achar a mais tolerante tilápia nos aquários da Unesp em Botucatu.

Um trabalho de Percília e uma estudante de iniciação científica, a nutricionista Ariane Aguiar, mostra como o estudo do peixinho pode dar pistas valiosas até para a alimentação humana – e não se trata de apenas comer peixe. As pesquisadoras observaram que tilápias com baixo nível de colesterol são mais agressivas. Essa agressividade pode ser uma espécie de sinal evolutivo para o organismo.

Extrapolando para os seres humanos, a baixa gordura no corpo do homem pré-histórico e a diminuição do colesterol indicariam que “está na hora de sair e caçar de novo”, uma atividade que exige agressividade. A descoberta deixa claro como o colesterol é uma substância importante no organismo. “Ele é matéria-prima para a estrutura da membrana celular, dos hormônios”, lembra Percília.

Bem nutridos fazem mais sexo
Percília e mais dois colegas da Unesp, Claudia Militão da Silva Berbert e Helton Carlos Delicio, publicaram recentemente um artigo mostrando o papel da comunicação química também para o sexo das tilápias.

A ideia básica é que as fêmeas precisam de informações confiáveis sobre a qualidade genética do macho com quem vão reproduzir. Um bom sinal disso seria a condição de nutrição do macho, pois um animal desnutrido pode ter qualidade inferior do esperma, doenças sexualmente transmissíveis e parasitas.

Como a tilápia é uma espécie de hábitos diurnos, dicas visuais são importantes na escolha do parceiro; e já se demonstrou que elas preferem os machos maiores. Mas haveria também um “sex appeal” químico?

Os pesquisadores testaram a preferência sexual das tilápias usando pistas químicas de dietas diferentes. Machos foram alimentados com pouca ou muita proteína. Os experimentos envolveram aquários “doadores” e de teste. Os machos ou as fêmeas, bem ou mal nutridos, ficavam nos primeiros; o aquário de teste continha a fêmea avaliada e podia receber água em dois pontos distantes vindos dos aquários-doadores.

Com isso era possível ver a reação da fêmea ao receber água com substâncias químicas emitidas por outros peixes. Elas não só preferiram os bem nutridos, como demonstraram pouco interesse na água que vinha de aquários com outras fêmeas.

A pesquisadora da Unesp fez um estudo semelhante com o mais caprichoso pintado. E como era de se esperar em um peixe que usa muita comunicação química, as fêmeas também preferiram os mais bem nutridos. Elas tinham opções de escolher os machos de várias maneiras. Podiam receber dicas visuais e químicas ao mesmo tempo, apenas químicas e apenas visuais.

Os machos mais nutridos foram preferidos sempre que havia uma dica química, com ou sem apresentação do visual. Quando apenas a dica visual era apresentada, as fêmeas ficavam mais indecisas. As pistas químicas podem ser diretas – como a emissão de hormônios sexuais, os feromônios – ou indiretas, em que substâncias excretadas dão indicação do alimento consumindo.

Os aquários de Percília também trouxeram mais argumentos para a discussão sobre a sensibilidade à dor. “Sentem dor, sim”, resume a pesquisadora, que dá três argumentos para justificar a afirmação.

Em primeiro lugar, o comportamento do animal. “Não tem como perguntar para o peixe o que ele sente”, diz. Logo, é preciso ver como ele reage a estímulos nocivos como choques, desconforto térmico, tirar da água. As contorções do peixe deixam claro que ele quer evitar o tal estímulo.

Em segundo lugar, a similaridade das estruturas e suas funções com outros vertebrados. Peixes também têm nociceptores, receptores de estímulos de dor ligados ao sistema nervoso central. Peixes também têm opioides endógenos.

Em terceiro lugar, a questão evolutiva. A evolução dos organismos implica que não há descontinuidade entre as espécies, existe um contínuo entre elas, apenas com diferentes graus de complexidade. Peixes não são animais fofinhos como pandas ou cachorrinhos e gatinhos. “O peixe foi infeliz por ser menos romantizado.”

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