Todos os caminhos que levaram a Roma

texto ◘ Pablo Nogueira

Pesquisador francês reconstrói as origens de um dos mais vastos e duradouros impérios da história com base em análises que combinam literatura e mitologia com evidências arqueológicas

As origens de Roma
Alexandre Grandazzi;
Editora Unesp; 176 págs. R$ 26

Em novembro de 2007 arqueólogos italianos anunciaram a descoberta de uma gruta 16 metros abaixo do monte Palatino, no coração do centro histórico de Roma. Imediatamente os sites de notícias começaram a informar que “cientistas podem ter encontrado a caverna onde viveram Rômulo e Remo, os lendários fundadores da Cidade Eterna”. A repercussão mundial comprovou o interesse que existe além das fronteiras acadêmicas pelo mundo romano. É justamente um olhar crítico sobre esta seara, onde se misturam literatura, lenda e história, que o professor de letras latinas da Universidade de Sorbonne Alexandre Grandazzi propõe em As origens de Roma.

Visto sob a perspectiva de um estudioso com extensa experiência arqueológica, o surgimento da cidade que por séculos foi o centro político do Ocidente é um processo lento e cheio de idas e vindas. Na região do Lácio, onde ela se situa, já se encontraram vestígios do Homem de Neandertal. Três mil anos antes do início da era cristã, o capim que crescia nas futuras colinas romanas atraía pastores nômades.

Por volta do século 11 a.C. surge uma cultura conhecida como civilização lacial. A região onde se localizam as famosas sete colinas foi habitada por uma comunidade permanente que, gradualmente, urbanizou o espaço. O Palatino – onde, diz a lenda, Rômulo construiu o muro a partir do qual a cidade teria se originado – já havia sido ocupado antes do século 8 a.C. Ao longo dos séculos, seus habitantes passaram por uma roda viva de conflitos, alianças e trocas culturais com os demais povos que ocupavam a região central da Itália, sofrendo fortemente a influência de gregos e etruscos.

Ao contrário das cidades etruscas, mais fechadas e fiéis às tradições, Roma foi aberta a influências e, com o tempo, tornou-se autônoma nos campos da política e da cultura. Grandazzi discute as descobertas que permitem reconstituir este processo e elabora uma possível cronologia com base arqueológica. Esta é, talvez, a parte do livro que mais interessará ao leitor com bagagem acadêmica na área.

Para o leigo, a parte mais fascinante é a análise dos vários mitos e textos, esboçados por gregos e latinos, que descrevem a origem da cidade. O grego Hesíodo (séc. 8 a.C.) diz que na região teriam vivido dois reis, Agrio e Latino, que seriam filhos de Ulisses. Nos três séculos seguintes, outros autores passaram a atribuir a fundação de Roma a Eneias, personagem troiano da Ilíada. Por volta de 210 a.C. o aristocrata Fabio Pictor escreve Anais, obra que marca o nascimento do gênero histórico como forma literária entre os romanos. Nela, atribui a primazia a Rômulo, versão que depois se torna canônica.

As narrativas sobre a cidade esboçadas pelos cronistas da Antiguidade são cotejadas pelo autor francês com dados obtidos em pesquisas arqueológicas. Assim, ele consegue vislumbrar a história oculta sob a capa do mito. Embora a real existência de figuras como Eneias não seja cogitada, muitos dos eventos narrados podem ser interpretados como representações alegóricas de fatos importantes da história romana.

“É na lógica geral da lenda que se devem procurar os indícios de uma história real”, pondera o autor. “Trata-se não de tomar a tradição ao pé da letra, mas de entender os mecanismos e os motivos de suas afirmações”, escreve Grandazzi.

Visita ao reino dos mortos

As almas do purgatório
ou o trabalho de luto
Michel Vovelle; Editora
Unesp; 343 págs. R$ 65

Adepto da história das mentalidades, o autor propõe-se a estudar as mudanças na representação do Purgatório, o “terceiro lugar”, desde o século 13 até o século 20. A análise fundamenta-se numa riquíssima pesquisa iconográfica, com mais de uma centena de itens, que inclui desenhos, quadros, vitrais, esculturas, ilustrações, cenas de filmes, fotos e até capas de revistas eróticas. A reprodução das imagens é de boa qualidade. Por trás das imagens, Vovelle reconstitui as diversas maneiras pelas quais os habitantes do Ocidente geriram suas relações com o universo dos mortos. O Purgatório surge como uma elaboração teológica central da Igreja, presente tanto nas grandes basílicas quanto nos rituais realizados em catacumbas europeias, em pleno século 20. • PN

 

 

 

 

 

A música por um filósofo

Berg: o mestre
da transição mínima
Theodor W. Adorno; Editora Unesp; 285 págs. R$ 42

Famoso por suas análises de Wagner e Mahler, T. W. Adorno (1903-1969) dedicou ao compositor austríaco Alban Berg (1885-1935) seu último livro publicado em vida. Celebrizado por sua ópera Wozzeck (1925), Berg foi um dos principais compositores da Segunda Escola de Viena, que teve seu auge no primeiro quarto do século 20. O músico chegou a dar aulas particulares de composição ao próprio Adorno, quando este ainda era um jovem estudante de filosofia. Este conhecimento permitiu ao filósofo analisar com profundidade algumas das principais obras de seu ex-professor, inclusive reproduzindo, através de notação musical, as frases e motivos musicais que destrincha. Para o leitor leigo em música, talvez a parte mais interessante esteja na detalhada narrativa da convivência entre os dois, tema do capítulo “Recordação”, que aborda também passagens da vida de outros grandes nomes da música do século 20, como Arnold Schoenberg (1874-1951). • PN

 

 

 

 

 

Futebol comunista

Palmeiras x Corinthians
1945 – O jogo vermelho
Aldo Rebelo; Editora Unesp;
119 págs. R$ 34

No dia 13 de outubro de 1945, Palmeiras e Corinthians se enfrentaram num amistoso no estádio do Pacaembu, em São Paulo. O objetivo da partida era arrecadar fundos para o Partido Comunista do Brasil (PCB). Torcedor apaixonado do time alviverde, o deputado federal Aldo Rebelo, que também é jornalista, pesquisou em clubes, jornais e universidades, entrevistou ex-jogadores, ex-dirigentes e outras pessoas ligadas ao episódio para reconstruir o clássico, vencido por 3 a 1 pelo Palmeiras, em seus aspectos esportivos e partidários. Em forma de crônica, ele narra a preparação técnica das equipes, a cobertura da imprensa e os lances estratégicos que se desenrolaram nos bastidores políticos do jogo, que acontecia cerca de um mês depois do fim da Segunda Guerra Mundial. O livro traz boa quantidade de recortes de jornais e fotografias dos principais personagens. • LC

 

 

 

 

 

 

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