O meio ambiente e o fim das ‘más notícias’

texto ◘ Maurício Tuffani

Todos os anos, por causa do Dia Mundial do Meio Ambiente, junho é o mês em que os assuntos ambientais estão mais presentes nos meios de comunicação. É o que ocorre, por exemplo, nesta edição de Unesp Ciência.

Considerado em seu aspecto mais amplo, ou seja, independentemente de ocorrências de problemas específicos, o tema geral do meio ambiente teve dois grandes momentos de fortalecimento nas décadas mais recentes. O primeiro foi em 1972, com a Conferência Mundial sobre o Homem e o Meio Ambiente, organizada pelas Nações Unidas, em Estocolmo, na Suécia. Nos anos 70, a antítese entre o progresso e a conservação tornou-se cada vez mais presente na esfera pública. No Brasil, até mesmo na música mais popular, com a canção O Progresso, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, de 1976.

O segundo momento foi de intensidade muito maior. Ele ocorreu 20 anos depois, com outro evento realizado no Brasil, a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio-92, que aqui em São Paulo o pessoal preferiu chamar de Eco-92.

Nos meses que antecederam a Rio-92, parecia que o tema do meio ambiente, no sentido da “questão ambiental”, havia chegado aos meios de comunicação para ficar. Muitos veículos criaram editorias específicas para cobrir esse assunto. Em São Paulo, por exemplo, apesar de todo o desconforto dessa problemática para o mundo dos negócios, o jornal Gazeta Mercantil, especializado em economia, manteve durante alguns anos espaço diá-
rio para essa cobertura com uma abordagem que não deixava de lado o ponto de vista ambiental.

Os temas ecológicos, assim como os de ciência, tendem cada vez mais a ser a sobremesa do cardápio indigesto de reportagens

Com base no que divulgaram pouco antes da Rio-92, os países mais desenvolvidos teriam destinado um total de US$ 69 bilhões para projetos ambientais naquele ano. Esses investimentos foram importantes não só para ações governamentais, mas também para a atuação eficaz de ONGs, tanto em iniciativas voltadas diretamente para pesquisas, campanhas de conscientização e ações conservacionistas, como para a vigilância do poder público e do setor privado.

Nesse início dos anos 90, as ONGs consolidaram sua imagem pública de instituições com propósitos independentes do Estado e do mercado. Em grande parte das reportagens, essas entidades tornaram-se o contraponto obrigatório às declarações de governos ou de empresas. Parte dessas associações manteve sua trajetória de independência. Outras foram – em certos casos longe demais – no rumo dos projetos de captação de recursos públicos e privados. De repente, aquele ativista com jeito de hippie, que jogava lixo em autoridades do governo ou em empresários, deixou de fazer isso e passou a usar terno e gravata, inclusive para aparecer bem na foto ao lado daqueles que ele antes hostilizava.

Aos poucos, a iniciativa privada também se transformou, tanto com a atuação em ações realmente voltadas ao desenvolvimento sustentável, como por meio da mera incorporação da retórica ambientalista e de artifícios publicitários destinados a colorir de verde seus resultados cinzentos.

No final das contas, veio a inevitável ressaca. O meio ambiente continua na pauta dos meios de comunicação. Mas raramente sob a forma da “questão ambiental”. Ou seja, os diversos fatos ambientais passaram a ser reportados por outras editorias. Em muitos casos, com menos importância justamente para os aspectos ambientais, e não só quando sob o enfoque de economia e negócios. Por outro lado, existem jornalistas até mesmo dessa área que não deixam de lado o ponto de vista ecológico, como Miriam Leitão, pegando um exemplo bem conhecido do grande público.

De um modo geral, em meio à crescente miscigenação da informação com o entretenimento, os assuntos de meio ambiente, assim como os de ciência, parecem tender a ser cada vez mais a sobremesa do cardápio indigesto de reportagens. Afinal de contas, não há espaço para o bucólico e o exótico nas notícias de muitas outras editorias.

Em tempo: antes que alguém reclame, esta não é uma coluna contra ONGs, empresas e governos, nem contra boas notícias.

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