Baby boom bovino

texto ◘ Pablo Nogueira

Pesquisadores da Unesp em parceria com empresa desvendam os mecanismos de ação de um suplemento energético que tem como efeito
colateral o aumento da taxa de prenhez

Pode o simples consumo diário de um suplemento energético resultar num aumento de cerca de 10% das chances de prenhez? Essa pergunta ressoava na cabeça da veterinária Catarina Nobre Lopes, de 31 anos, enquanto examinava os primeiros resultados de um experimento em reprodução animal feito na fazenda Santa Neide, em Coxim (MS), em dezembro de 2006. Catarina era a veterinária da fazenda e, através de um aparelho de ultrassonografia, perscrutava os úteros de 179 vacas submetidas algumas semanas antes à inseminação artificial.

As fêmeas haviam sido divididas em dois grupos: 92 delas receberam o tal suplemento, desde antes da inseminação, enquanto 87 mantiveram a alimentação normal. Após 28 dias foi possível constatar que 52% das reses do primeiro grupo ficaram prenhas, contra 43% do segundo. Os pesquisadores ficaram animados com o aumento, verificado já na primeira fase dos experimentos. Mas como o estudo, em todas as suas etapas, envolvia mais de 900 animais, preferiram aguardar os resultados finais. Em janeiro de 2007 os registros mostraram que a média de taxa de gestação entre as vacas alimentadas com o suplemento foi de 51%, contra 39,6% das que mantiveram uma dieta normal.

Que as gestantes precisam de uma alimentação reforçada todo mundo sabe. Quando, além de gestante, a fêmea está amamentando um recém-nascido, a adoção de uma dieta especial parece algo mais do que fundamental. E este era exatamente o caso dos animais envolvidos no experimento. Os veterinários enfrentam cotidianamente o desafio de aumentar as taxas de prenhez das vacas chamadas de primíparas. Assim são chamadas aquelas que ainda não concluíram seu processo de crescimento, mas já geraram um bezerro e estão na fase de amamentar a cria e ainda precisam emprenhar de novo.

 

Próximas pesquisas
Até agora, os estudos de Catarina Lopes e seus colegas focaram-se apenas em gado de tipo nelore. Os seguintes vão envolver outras variedades

 

Com o corpo do animal demandando energia para produzir leite e, ao mesmo tempo, concluir o próprio processo de amadurecimento, não é de se espantar que muitas vezes ele não consiga sustentar a formação de um novo bezerro em seu ventre. As vacas da fazenda Santa Neide ainda enfrentavam mais um obstáculo: o pasto pouco nutritivo, único disponível devido ao regime de chuvas do Pantanal.

A Santa Neide foi o primeiro emprego de Catarina, hoje mestre pela Unesp de Botucatu. Natural de Moçambique, cresceu numa família apaixonada por cavalos. Começou a montar aos 9 anos e venceu alguns títulos nacionais de hipismo. Seu irmão e suas duas irmãs foram ainda mais longe, conquistando torneios importantes, alguns até na vizinha África do Sul. A mãe até hoje ocupa um cargo na diretoria do Centro Hípico de Maputo, capital moçambicana. Com toda essa experiência com potros e éguas, Catarina veio para o Brasil estudar veterinária nos anos 1990. E resolveu especializar-se em reprodução de… bovinos. “A reprodução bovina envolve trabalhos numa escala maior. Achei uma área mais desafiante”, diz.

Até então, o aumento das taxas de prenhez era atribuído ao ganho de energia, mas os estudos sugerem que a ação dos ácidos graxos facilita a comunicação do feto com a mãe, reduzindo o risco de expulsão de embriões

E também cheia de oportunidades. Afinal, o Brasil é hoje o maior exportador mundial de carne bovina. O setor agropecuário é responsável por cerca de 25% do PIB brasileiro. E 27% deste total deve-se justamente ao gado de corte. A manutenção da lucratividade da atividade está ligada diretamente à eficiência reprodutiva do rebanho. “Se você tem 100 vacas e apenas 60 delas ficam prenhas uma vez por ano, é como se tivesse 40 funcionários que não trabalham”, afirma José Luiz Moraes Vasconcelos, o Zequinha, professor da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) da Unesp em Botucatu. “Com um percentual baixo, talvez as contas do criador não fechem. Mas se conseguir elevar esse número, ele pode ter lucro”, explica.

O problema de como aumentar a taxa de prenhez das primíparas da Santa Neide levou Catarina a entrar em contato com uma multinacional da área de saúde animal. Por meio da empresa, ela conheceu Zequinha. Professor de reprodução de gado leiteiro, ele conhecia a literatura científica da área e sabia que a indicação para este caso era o uso de suplementos energéticos adicionados à alimentação para fortalecer o animal. “Os trabalhos sugeriam que qualquer fonte de energia extra poderia aumentar o diâmetro dos folículos das vacas e aumentar a taxa de prenhez”, diz Catarina. Zequinha, porém, apostou que a consultoria era a oportunidade para fazer um experimento científico.

 

Efeito colateral
O produto, composto de sais de cálcio misturados a óleo de soja, era usado apenas para reforçar a dieta do gado leiteiro; pesquisadores inovaram com gado de corte

 

Dentre todos os possíveis suplementos energéticos disponíveis no mercado, Zequinha sugeriu à veterinária adotar um com apenas dois anos no mercado, fabricado aqui por uma empresa americana. Não era uma opção óbvia, pois, além de novato, o produto, chamado de Megalac E, tinha outra finalidade: aumentar a produtividade de vacas leiteiras. Não se sabia que efeito teria em gado de corte, mas alguns experimentos sugeriam que o produto tinha uma propriedade inusitada. Além de tornar os animais mais produtivos, também fazia com que ficassem mais férteis. As razões pelas quais isso acontecia, porém, não estavam lá muito claras. O porte da fazenda Santa Neide era a oportunidade para tentar pelo menos verificar o que dizia a literatura.

“Nós usamos estatística para avaliar os experimentos em reprodução bovina, e por isso é preciso gerar dados em pelo menos 150 animais. Por isso, quando recebemos os resultados das primeiras 300 vacas, já podíamos perceber que havia algo acontecendo. Um efeito fantástico, e após apenas 30 dias”, diz Catarina.
Zequinha convidou Catarina a cursar mestrado em Botucatu, a fim de poder aprofundar os estudos sobre os efeitos do suplemento alimentar E. Para a moçambicana, a mudança implicava diminuir seus rendimentos em dois terços e passar um ano entre Botucatu e MS, viajando 1.200 km a cada 20 dias. “Mesmo assim, não tive dúvidas em aceitar. Sempre quis ter ligação com a academia”, conta ela.

Surgiu ali uma linha de pesquisa na FCA, que, desde 2006, já gerou uma dúzia de projetos. As descobertas atraíram a atenção da QGN, a empresa fabricante, que passou a apoiar as pesquisas da Unesp. Hoje, após quatro anos de investigação científica, os pesquisadores já conseguiram responder a muitas perguntas sobre o funcionamento do produto.

Uma das dúvidas iniciais girava em torno das causas do aumento da prenhez. Embora a literatura relacionasse o efeito ao ganho de energia, talvez um fator adicional estivesse associado à composição química. Ocorre que o produto manufaturado aqui tem uma composição diferente da versão americana. “Nos EUA ele tem como base o óleo de palma. Aqui, por razões econômicas, adotaram o óleo de soja”, explica Zequinha.

Ele idealizou então um experimento em que 504 vacas foram divididas em dois grupos. Um deles recebeu a versão nacional do suplemento, outro, a versão americana. Os exames detectaram a ocorrência de gestação em 47,9% dos animais alimentados com a versão nacional, contra 35,5% dos que receberam o similar americano. O produto brasileiro possui os ácidos graxos poli-insaturados ômega 3 e ômega 6 em sua fórmula. Os pesquisadores acreditam que são eles os responsáveis pelo aumento no número de vacas emprenhadas. “Conseguimos mostrar claramente que o que causa o aumento da prenhez não é a energia extra nem o óleo. É o que tem dentro do óleo”, diz Zequinha.

Resultado positivo
Para confirmar a ocorrência da gravidez após o período de alimentação reforçada, as vacas passam por exames de ultrassonografia, feitos 28 dias após a inseminação

 

Outra dúvida dizia respeito à melhor maneira de usar o produto. Hoje muitos criadores recorrem a uma técnica conhecida como inseminação artificial de tempo fixo (IATF). Inicialmente, um dispositivo com hormônios é colocado nos animais por alguns dias. Isso cria uma sincronia dos ciclos reprodutivos, de modo que todo o rebanho entra no cio ao mesmo tempo. Assim, a fertilização de todas as vacas pode ser feita numa única visita do veterinário. Os pesquisadores queriam determinar se a melhor forma de iniciar a administração de Megalac era no estágio de sincronização ou após a inseminação, e por quanto tempo essa dieta deveria ser mantida. Os testes comparativos mostraram que os animais que receberam o produto por 28 dias, a contar da data da inseminação, apresentaram taxa de prenhez cerca de 10% maior em relação aos grupos controles.

Ação dos ácidos graxos
Responder a essa pergunta foi um passo importante. “Não havia nada em literatura sobre o uso do produto após a inseminação”, diz Catarina. A pesquisa também abriu as portas para a realização de mais meia dúzia de experimentos que buscaram desvendar o mecanismo efetivo pelo qual os ácidos graxos aumentam as taxas de gravidez. Atualmente, a hipótese é que eles auxiliam o desenvolvimento embrionário. Talvez estejam ajudando os fetos a sinalizar melhor sua presença para a mãe. Essa sinalização reduziria a ocorrência da expulsão de embriões por causas naturais, fenômeno comum entre as vacas.

Mas os efeitos das pesquisas foram muito além dos periódicos especializados. As descobertas do grupo da Unesp foram incorporadas pela empresa ao manual técnico do produto, que passou a recomendar aos compradores que adotem a estratégia de IATF em associação com a dieta por 28 dias. Catarina foi contratada pela QGN e hoje vive o outro lado da história: sua tarefa é visitar criadores que buscam melhorar a produtividade de seu rebanho. Já Zequinha ressalta o potencial que a tabelinha entre indústria e academia tem de melhorar a vida do cidadão comum. “Enquanto a empresa cria novos produtos, nós procuramos testá-los adequadamente. Quem se beneficia dessa parceria é o produtor rural”, afirma.

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