Caçadores da Amazônia perdida

texto ◘ Pablo Nogueira | foto ◘ Gui Gomes

Escavações em Santarém questionam ideias sobre a complexidade das gigantescas sociedades que viveram na planície amazônica antes da chegada dos portugueses

Indiferente ao inverno do hemisfério sul, o sol queimava forte no final de julho na cidade de Santarém, no Pará. Nas proximidades da igreja de São Raimundo, sentada num quadrado de 2×2 m escavado diretamente na terra, a estudante Sara Herter revolvia o solo com uma pá de pedreiro. Aluna do curso de Ciências Sociais da Faculdade de Ciências e Letras (FCL) da Unesp de Araraquara, ela delicadamente retirava do buraco camadas de uma terra escura, na expectativa de se deparar com algum fragmento da cerâmica produzida pelas populações indígenas que viveram ali até três séculos atrás.

De repente, junto com a terra veio também um monte de formigas. Sem querer, ela havia desmanchado um formigueiro. Em modo de defesa, elas rapidamente se espalharam por todo o buraco. Algumas escalaram a ferramenta e subiram pelas mãos da estudante. Em pouco tempo estavam mordendo também as outras duas pessoas que trabalhavam na escavação, o estudante Felipe Petenussi e a arqueóloga Denise Gomes. Assustados, eles tamparam o buraco e abandonaram o sítio. “Tivemos de desistir de escavar ali. Não parecia haver perspectiva de cerâmica, e essas formigas picaram feio”, disse Denise.

 

ANTES DO ATAQUE
Os estagiários Sara e Felipe iniciam a escavação num quintal em Santarém; poucas horas depois, o trabalho foi interrompido quando as pás roçaram num formigueiro

 

Pequenas aventuras como esta rechearam todo o mês em que durou a expedição arqueológica que Denise capitaneou em Santarém. Doutora pelo Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP, ela é referência nos estudos feitos na região, e desde o início do ano está como pesquisadora associada ao Centro de Estudos Indígenas Miguel Angel Menendez (Ceimam), da FCL. Por causa desta associação, Denise contou com o apoio da Unesp para montar a expedição, que incluiu a participação de quatro estudantes bolsistas, além do arqueólogo Robson Rodrigues, também associado ao Ceimam. O grupo montou base em Alter do Chão, distrito de Santarém, e passou o mês trabalhando em duas frentes. Enquanto um time escavava sítios na cidade – nos bairros Centro e Aldeia –, o outro prospectava estradas, matas e as margens do rio Tapajós em busca de sítios para escavar no futuro.

Após o inesperado revés causado pelas formigas, Denise teve de procurar em Santarém um novo ponto de escavação. Seu foco era identificar terrenos com terra preta – um tipo de solo de cor escura, muito fértil, resultado das modificações ambientais causadas pelas populosas sociedades que viveram por lá no passado. Em muitos lugares na Amazônia a terra preta aflora na superfície, mas em Santarém é mais comum encontrá-la em camadas a metros de profundidade, o que às vezes gera conflitos com moradores. “As pessoas têm medo de que, se encontrarmos peças em suas terras, elas venham a ser desapropriadas, o que é uma fantasia”, conta a arqueóloga.

 

DE OLHO NO CHÃO
Em meio à mata, a equipe de prospecção busca novos sítios para escavar

 

Outro desafio para a pesquisa é a própria urbanização da cidade. Santarém é uma massa de concreto, com pouquíssimos quintais e jardins, o que faz com que a equipe às vezes tenha de escavar em locais inóspitos. “Semana passada estávamos trabalhando num terreno baldio sem nenhuma árvore. O sol incidia direto, não havia banheiro nem fontes de água por perto. Foi difícil”, contou o estudante Roberto Ávila Filho, que formava, junto com Adriana Cardoso da Silva, Sara e Felipe, o time de estagiários da expedição.

Não que o cotidiano da equipe de prospecção fosse muito mais fácil. Apesar de eles se inspirarem nos registros que o alemão Curt Nimuendaju (sobrenome indígena que adotou um dos maiores estudiosos de etnografia brasileira) fez na década de 1920 de 65 sítios arqueológicos da região (veja quadro na pág. 26), esses dados são bastante vagos. Eles mencionam, por exemplo, a presença de um sítio ao redor de uma laguna conhecida como lago do Pirarucuri, mas não detalham exatamente onde o alemão teria encontrado vestígios arqueológicos.

 

ARTE REALISTA
Representação de jacaré é exemplo do realismo da cerâmica de Santarém

 

Por isso, um dos objetivos da expedição era tentar recuperar os locais visitados por Nimuendaju. A tarefa ficou a cargo de Rodrigues, líder do grupo de prospecção. Partindo da ideia de que a região abrigou grandes grupos no passado, ele recorreu às imagens geradas pelo programa Google Earth que retratam Santarém, Alter do Chão e a cidade vizinha, Bel Terra.

Nelas, ele identificou elementos estratégicos para o estabelecimento de comunidades sedentárias, tais como a proximidade de fontes de água e de igarapés – assim foram marcados terrenos nas margens do Tapajós e de seus afluentes – e pontos de relevo mais destacado, como picos e colinas. Ao visitar as áreas indicadas por Nimuendaju, Rodrigues e equipe procuravam essas características, e iniciavam ali a busca por cerâmica e terra preta. Na região do lago do Pirarucuri, por exemplo, isso significou romper mato com facão, durante algumas horas, a fim de alcançar os pontos dominantes, como a serra do Pirarucuri.

 

 

Cerâmica de brinquedo
Além de usar o trabalho do alemão como referencial, Rodrigues e Denise empregaram outras estratégias. Uma foi a de vasculhar também as zonas distantes do rio, algo ainda pouco conhecido pelos pesquisadores. Outra foi a de recorrer às dicas de moradores sobre onde encontrar depósitos de terra preta. Foi esse conhecimento que os levou a Iruçanga, uma pequena vila com apenas 129 moradores.

Lá a terra preta é visível ao nível do chão, e crianças como a pequena Natalha (assim mesmo, com “lh”), de 3 anos, que ilustra a capa desta edição, brincam em meio a fragmentos de cerâmica arqueológica que afloram no chão. “A vila foi construída em cima de uma aldeia indígena, que ficava às margens de um rio. Mas encontramos também sinais de grupos que viviam bem no interior da floresta, no alto de colinas”, conta Rodrigues. A soma de estratégias foi bem-sucedida, e nada menos que 27 novos sítios foram encontrados.

 

A CIDADE SOBRE A CIDADE
Vista atual dos bairros Centro e Aldeia, em Santarém, em cujo subsolo
estão os vestígios de uma grande aldeia, descrita pelos cronistas do século 17

 

A expedição é o desdobramento de mais de uma década de pesquisa. Ainda estudante de graduação em História, nos anos 1990, Denise se interessou pela cerâmica conhecida como santarém, uma das mais sofisticadas produzidas pelos povos indígenas antes da colonização europeia.

No mestrado, ela analisou a coleção tapajônica do MAE e desde 2001 dedica-se ao trabalho de campo na região de Santarém. Hoje, junto com a americana Anna Roosevelt, da Universidade de Illinois, em Chicago, é a principal especialista na arqueologia do local. E sua pesquisa tem afetado a arqueologia da Amazônia como um todo, repercutindo até no estudo da arqueologia das Américas.

 

MARCAS DO PASSADO
Terra preta sob o asfalto em Alter do Chão, e cerâmica aflorada em Iruçanga

 

 

As primeiras investigações arqueológicas modernas na Amazônia brasileira foram levadas a cabo pela norte-americana Betty Meggers, na década de 1940. À época, questionava-se o que teria causado o aparente “subdesenvolvimento” dos amazônidas pré-colombianos. Enquanto nos Andes os povos indígenas haviam desenvolvido sociedades complexas, nas quais havia poder centralizado, hierarquia, cidades, estradas etc. Os grupos que viveram na planície amazônica seguiram um estilo de vida que passava longe de quaisquer destes itens.

Meggers sugeriu que a causa seria o ambiente. A floresta seria um fator limitante por oferecer pouca possibilidade de desenvolvimento da agricultura. Com pouca comida, a tendência seria as populações se manterem pequenas, focadas na subsistência, o que favoreceria uma organização social mais igualitária, avessa a noções como hierarquia, poder centralizado ou estado. E sem uma organização social centralizada, adeus estradas, cidades, etc.

 

EFEITOS DO DESMATAMENTO
Derrubada de floresta abre novos caminhos para pesquisadores, mas também destrói sítios potenciais

 

Essa polarização, que opunha “sociedades complexas” vivendo nas terras altas a “sociedades simples” habitando a Amazônia, foi sustentada por décadas. Somente nos anos 1970, o conceito da floresta como fator limitante ao aparecimento de grandes populações começou a ser questionado. E, a partir dos anos 1980, essas ideias foram colocadas de cabeça para baixo com as pesquisas que outra arqueóloga americana realizou no Pará.

Escavando numa caverna conhecida como Pedra Pintada, Anna Roosevelt encontrou evidências de ocupação humana há 11 mil anos, e fragmentos cerâmicos considerados os mais antigos das Américas, com 8 mil anos de idade. Em Santarém, onde começou a trabalhar na mesma década, também encontrou sinais de que, no passado, o lugar onde hoje fica a cidade era ocupado por uma grande comunidade indígena.

Recuperando os relatos de Nimuendaju, ela lançou a hipótese de que essa sociedade numerosa se organizaria sob o que os cientistas sociais chamam de cacicado, que é uma forma de governo intermediária entre o igualitarismo e o poder absolutamente centralizado. “Nos cacicados o indivíduo não é chefe apenas do lugar onde vive. É um poder supralocal, regional, que, no entanto, não se exerce pela violência”, explica o historiador Antonio Porro, especialista em etno-história da Amazônia.

 

NOS PASSOS DO ALEMÃO
Rodrigues baseia-se nas informações de Nimuendaju para planejar expedição de barco pelo rio Tapajós

 

Santarém seria, então, uma espécie de capital, onde viveria um grupo que exercia algum tipo de poder. Anna Roosevelt encontrou vestígios sugerindo que essas sociedades teriam se fortalecido entre os anos 1000 e 1200, tornando-se guerreiras com liderança política sobre as comunidades que viviam ao redor – seu poder se estenderia por uma área que Nimuendaju estimou em 20.000 km².

Relatos de dezenas de viajantes que, entre os séculos 16 e 18, cruzaram a região reforçam essa noção de que, no passado, os índios da Amazônia experimentaram uma organização diferente da vivida pelos índios atuais. Eles descreveram aldeias com quilômetros de extensão, ligadas por uma rede de caminhos que eram pontuados por estalagens e usados para fazer comércio intertribal através da selva. Em muitos casos, essas aldeias eram administradas, segundo os viajantes, por um único “senhor”; em outras, haveria alguma forma de estratificação social.

É o que escreveu, por exemplo, o cronista português Maurício de Heriarte, que passou por Santarém em 1637: “Governam-se estes índios por principais, em cada rancho um, com vinte ou trinta casais. E a todos governa um principal grande sobre todos que é muito obedecido”. Ele também relata que quando chegou à região onde hoje é Santarém foi recebido por “60 mil guerreiros com arcos” em suas canoas.

Já o padre João Felipe Betendorf, natural de Luxemburgo, que viveu em Santarém no século 18, falava sobre uma índia poderosa – “princesa desde seus antepassados de todos os [índios] Tapajós, e chamava-se Moacara, quer dizer, fidalga grande, porque costumam os índios, além de seus principais, escolher uma mulher de maior nobreza, a qual consultam em tudo como um oráculo”.

Sem sinais de uma grande metrópole
A combinação de pesquisa arqueológica e crônica histórica influenciou toda uma geração de arqueólogos brasileiros, que nos últimos 15 anos têm se embrenhado em diferentes pontos da floresta em busca de vestígios arqueológicos do mundo perdido descrito pelos viajantes. Um deles é a própria Denise. No entanto, motivada pelos resultados de suas pesquisas, ela está começando a repensar esta associação.

Assim como a cidade do México, Santarém é uma cidade moderna construída sobre um grande centro indígena, que ficava onde hoje se erguem os bairros Centro e Aldeia. Após realizar mais de uma centena de perfurações de sondagem, e utilizando o referencial do GPS, Denise estimou que o sítio arqueológico “Aldeia” tem dois quilômetros de extensão – nesse local ela fez escavações em oito diferentes setores. A pesquisa mostrou que o sítio não é contínuo; em certo trecho, deixa de se encontrar terra preta, que reaparece mais à frente.

 

PATRIMÔNIO AMEAÇADO
Morador de Iruçanga mostra a coleção que montou com peças obtidas na vila; Algumas pessoas fazem comércio irregular de peças na região, dizem arqueólogos

 

“Não se pode dizer que uma formação que a gente chama de sítio arqueológico tenha sido gerada, necessariamente, por uma única ocupação”, diz. “Tenho encontrado vestígios de várias atividades e ocupações diferentes, inclusive no tempo. Para mim está claro que não houve uma metrópole ali no passado”, conclui.

Outro elemento questionador surge de fora de Santarém. Com o objetivo de checar a hipótese de que a cidade teria sido um centro político com autoridade sob as comunidades vizinhas, Denise foi escavar em Parauá, a 100 km de distância. “Meu objetivo era pôr à prova essa concepção de uma grande sociedade tapajônica do passado. Por isso, fui trabalhar num lugar que ficaria na periferia desse mundo, em busca de sinais de dependência cultural, política ou social”, explica. Lá, ela abriu 30 km de picadas na mata e localizou dez sítios, dentre os quais escavou os restos de três aldeias indígenas. Elas foram habitadas entre 2000 a.C. e 1200 d.C.

As escavações trouxeram à superfície um estilo diferente de cerâmica, bem mais simples do que o que estava sendo feito em Santarém no mesmo período. Para a pesquisadora, a ausência de intercâmbio cerâmico entre os grupos reflete autonomia política. “A meu ver, isso enfraquece a ideia de um centro de poder hegemônico na região. Esses grupos podiam simplesmente ignorar os habitantes de Santarém, ou ir para outro lugar. Não parece que eles vivessem como grupos submetidos, que eram partes integrantes de uma sociedade centralizada.”

 

PONTA DE FLECHA PRÉ-HISTÓRICA
Com idade entre 11 mil e 8 mil anos, é um dos mais antigos vestígios de ocupação do Brasil

 

Ela indaga se não foram os preconceitos políticos dos arqueólogos que os levaram a defender a existência de sociedades mais hierarquizadas no passado amazônico. “Esse enfoque de dominação, de centro, de capital, talvez não corresponda à visão de mundo que tinham os indígenas. Pessoalmente, vejo nessa argumentação uma visão etnocêntrica do que é o poder.”

Embora ainda estejam em processo de formulação, surgidos diretamente do trabalho de campo, os questionamentos de Denise encontram suporte no trabalho de outros pesquisadores da área. Atual presidente da Sociedade de Arqueologia Brasileira, Eduardo Neves, ligado ao MAE, é referência na área de Amazônia pré-descobrimento.

“Há 15 anos, o debate era se a Amazônia teria ou não sido capaz de abrigar grandes populações. Como havia pouca pesquisa consolidada, era comum o arqueólogo utilizar as informações dos cronistas para apoiar a noção de um povoamento denso. Uma consequência era associar essas populações à presença de sociedades hierarquizadas, que eram os cacicados a que Anna Roosevelt se referia”, diz.

Trabalhando desde 1995 na região central da Amazônia, entre Manaus e Coari, Neves já identificou duas centenas de sítios, muitos com áreas de dezenas de hectares, e um sítio “monstro”, o Açutuba, de 900 hectares. Quando solicitado a comentar as propostas de Denise, ele faz uma avaliação do próprio trabalho.

“Em linhas gerais o que encontramos corrobora as narrativas dos cronistas, com vestígios de aldeias onde viveram milhares de pessoas. Mas as escavações não deixaram claro se o modelo de organização social e política dessas sociedades correspondia a um padrão quase estatal, bem hierarquizado, como alguns de nós e eu mesmo sugerimos anos atrás”, afirma.

 

UMA DÉCADA DE PESQUISA
Denise Gomes baseia-se em seu trabalho na região de Santarém para
questionar algumas das ideias mais debatidas sobre o passado da Amazônia

 

“Há 15 anos parecia mais óbvia esta correlação, mas hoje não existe nada na arqueologia da Amazônia Central que me permita falar que existiram padrões bem delineados de diferenciação social. Além disso, esses padrões podem ter variado ao longo do tempo. Entender essas questões é o nosso próximo grande desafio teórico.”

Ao ser confrontado com as observações de Denise, o historiador Antônio Porro tenta evitar que elas levem a uma polarização no debate. “Não é correto interpretar as diferentes posições como sendo o grupo dos que acreditam que houve sociedades complexas e o grupo dos que acham que não houve. As pessoas sérias envolvidas nesta discussão estão abertas a novas ideias”, diz.

Porro é o autor de vários livros sobre os relatos dos primeiros cronistas, e as análises que fez dessas viagens foram aproveitadas por muitos dos arqueólogos que passaram as últimas três décadas tentando decifrar o passado amazônico. Para ele, não se pode estabelecer divisões categóricas entre sociedades simples e complexas. “Não existe uma dicotomia absoluta. Podem ocorrer muitas variações entre as duas formas.”

Mesmo assim, considera que é grande a chance de que muitas aldeias no passado fossem submetidas a uma única chefia. “Isso foi dito com todas as letras por viajantes que visitaram a Amazônia Central”, lembra. E não crê que a ausência de evidência arqueológica até o momento seja um argumento definitivo.

“Há um relato de um viajante, vindo do Equador, que esteve em Santarém em 1630 e ficou hospedado na casa de um chefe, que era bonita e decorada. Mas os índios construíam suas casas com materiais como madeira e palha. Tudo isso um dia acaba e não deixa vestígios“, diz.

Não é bem assim
Anna Roosevelt, cujo trabalho influenciou tão profundamente a arqueologia feita na Amazônia nas últimas duas décadas, faz questão de deixar claro que foi Nimuendaju, ainda no começo do século 20, quem primeiro argumentou que a região de Santarém abrigava um cacicado. Para isso, o alemão baseou-se em elementos como o grande número de sítios espalhados numa área vasta, a sofisticada cerâmica, as estruturas artificiais que encontrou e os relatos dos cronistas.

Após uma década e meia de escavações em Santarém, Anna diz ter feito uma importante descoberta: os Tapajós descritos pelos viajantes do período colonial não seriam o mesmo povo que moldou os belos vasos de cariátides que até hoje encantam os visitantes de diversos museus do mundo. As datações arqueológicas mostraram que a época dos grandes ceramistas acabou por volta de 1500, séculos antes que os relatos de viagem fossem escritos. Se os Tapajós encontrados pelos brancos eram descendentes diretos dos ocupantes mais antigos, ou se constituíam uma outra população que se instalou no mesmo local vinda não se sabe de onde (o que seria um caso de reocupação do local), ela diz que não se sabe ainda.

As escavações em Santarém levaram a americana a concluir que os índios pré-colombianos viviam em grandes casas, em comunidades densamente povoadas, construíam estruturas artificiais e praças públicas para a realização de cerimônias, cremavam seus mortos, realizavam elaboradas cerimônias rituais e produziam belas joias e muitas armas. Segundo ela, eles também confeccionavam estátuas de homens e mulheres em poses que sugerem poder, como se fossem lideranças políticas ou xamãs. Será essa descrição suficiente para afirmar que, realmente, tais sociedades estavam organizadas de forma centralizada – isto é, complexa?

Se a pergunta fosse feita em 1999, quando ela publicou um artigo de análise sobre as informações disponíveis até então sobre o passado de Santarém, a resposta provavelmente seria sim. “Os relatos dos viajantes e a evidência arqueológica são ambos consistentes com a interpretação de que tal sociedade tenha sido um cacicado ou um estado mais simples. Mas conclusões mais firmes sobre sua estrutura e função vão exigir uma investigação mais sistemática dos sítios”, escreveu.

Hoje, ao falar sobre o mesmo assunto, ela deixa a impressão de que está mais distante daquelas conclusões firmes. “Em Santarém os vestígios mostram que as casas eram muito semelhantes. Isso não combina muito com a ideia de uma sociedade estratificada, onde há diferenças nas habitações de ricos e pobres”, pondera.

Ao refletir sobre o estado atual da pesquisa, suas conclusões soam parecidas com as de Eduardo Neves. “Uma eventual ausência de cacicados não significa que não existiram sociedades complexas, centralizadas e estratificadas na Amazônia. Não acredito que apenas cacicados fossem capazes de abrigar populações densas e produzir grandes obras de construção ou cerâmica sofisticada. O que precisamos é descobrir como estas sociedades se organizavam. Este é um assunto que requer investigação, e não pronunciamentos teóricos retumbantes”, complementa ela.

Embora atuem de forma independente, Anna Roosevelt e Denise Gomes estão trazendo à luz informações sobre o passado de Santarém que têm o potencial de apontar novos caminhos para a pesquisa em toda a região. Talvez a próxima geração de arqueólogos da Amazônia encontre, nos questionamentos sobre a forma de organização dos povos indígenas antes de Cabral, uma tarefa tão desafiadora quanto foi, para a geração atual de pesquisadores, a busca pelos supostos “grandes senhores” indígenas, mencionados pelos cronistas. Pode revelar-se uma missão um pouco mais complexa. Mas, com certeza, será igualmente fascinante.

 

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