Entre os acordes e a história da música sacra

texto ◘ Oscar D’Ambrosio

O maior sonho de um organista é tocar um instrumento que possua a história de uma tradição. Foi o que ocorreu, em agosto último, com Dorotéa Kerr. Ela teve a oportunidade de realizar dois concertos na cidade de Riga, Letônia, um deles na sede do Arcebispado da Igreja Evangélica Luterana local, o maior e mais antigo templo da região báltica, inaugurado em 1211.

 

 

A professora do Instituto de Artes da Unesp, câmpus de São Paulo, tocou num dos mais bonitos e valiosos órgãos do período romântico, fabricado em 1884, com 6.718 tubos. Com 25 m de altura, 11 m de largura e 10 m de profundidade, e tubos variando entre 13 mm e 10 metros de altura, esse órgão era, na época de sua construção, o maior do mundo. Sua instalação foi notícia em toda a Europa devido à grande variedade de sons que emitia e ao seu “poder de representar uma verdadeira orquestra”.

Dorotéa está ligada desde cedo ao órgão. Filha de pastor presbiteriano, foi estimulada a estudar música. Aprendeu a tocar piano com 6 anos e órgão eletrônico, aos 14, em Jandira (SP), onde o pai ensinava. No ano seguinte, conseguiu o primeiro emprego de organista na Igreja Presbiteriana Unida, onde tocou por 21 anos.
Esse primeiro vínculo com a música era principalmente religioso, ela ainda nem pensava em se dedicar ao ensino de órgão no mundo leigo. Fez o antigo Normal, lecionou no primário em escolas públicas e cursou História e Pedagogia. Mas a música se tornava mais forte em sua vida. Fez o curso de órgão na Escola Superior de Música Santa Marcelina, em São Paulo, e foi uma das fundadoras, em 1977, da Associação Paulista de Organistas.

 

 

Essa experiência a levou a reunir um amplo material, que resultou, em 1984, em seu mestrado na UFRJ sobre as causas do declínio do órgão no Brasil. Logo em seguida, ao participar de uma convenção de organistas nos EUA, conheceu instrumentos maravilhosos. Decidida a estudar lá, obteve bolsa da Capes para fazer o doutorado na Universidade de Indiana.

Em 1990, Dorotéa retornou ao Brasil. Ingressou na Unesp quatro anos depois, fazendo sua livre-docência, em 2006, sobre a atividade organística no Brasil, o que incluiu organistas, compositores e organeiros. Foi assim se apaixonando cada vez mais pelo visual e pela sonoridade do instrumento.

Fascinada pela música sacra, Dorotéa admira as composições para órgão de Johann Sebastian Bach (1685-1750), que deixou uma vasta obra religiosa. Preocupa-se em retomar a história do instrumento, principalmente no Brasil, a partir do período colonial, mas não sem buscar novos repertórios e linguagens diferentes que ele comporta.

 

 

Isso envolve o estudo das possibilidades de diálogo do órgão com o desenvolvimento tecnológico. Para isso, estuda os materiais tradicionalmente usados em sua construção e a introdução de novos, assim como a incorporação da informática, que ajuda a resolver questões práticas de funcionamento.

A chegada da eletricidade, por exemplo, alterou a forma de construção do órgão, envolvendo uma imensidão de fios. Hoje eles estão sendo progressivamente substituídos pela informática, inclusive em órgãos tradicionais, como o da catedral de Notre-Dame, em Paris.

A pesquisadora considera que entender a história dessa cultura é essencial. No período Barroco, o órgão era o instrumento mais poderoso dentro da Igreja, antes do surgimento das grandes orquestras, no início no século 19. Paradoxalmente, no final daquele século, quando foi manufaturado o órgão em que Dorotéa tocou na Letônia, surgiram criações grandiosas, pois os compositores queriam que o instrumento sozinho soasse como uma orquestra inteira.

 

Dorotéa ao órgão, instrumento que começou a tocar profissionalmente aos 15 anos

 

A compreensão histórica da cultura do órgão passa também pela sua beleza plástica, pois a fachada mostra o gosto de uma época. No Barroco, os instrumentos eram ornamentados, com passarinhos e anjinhos. Hoje, são completamente lisos e existe até um modelo, chamado de French Fries, em forma de leque, como batatas fritas numa embalagem de lanchonete.

O órgão começou a perder importância com a Revolução Francesa, que colocava em xeque tudo aquilo que estava ligado à igreja, como a música sacra. Em paralelo, o piano ia ganhando espaço, por ser mais fácil de ser executado e adquirido e por poder ser tocado no espaço privado, em casa. Com o passar do tempo, mesmo nas igrejas protestantes e católicas o órgão foi ficando de lado, substituído por conjuntos musicais que tocam um repertório de música popular, com mais percussão e ritmo.

Tal análise mostra bem como o conhecimento da trajetória da sociedade, além do aprendizado da execução propriamente dita, auxilia a usufruir melhor o poder de um instrumento que está fortemente ligado à tradição da música sacra e ao qual Dorotéa Kerr dedica a sua existência, seja como intérprete ou como pesquisadora de sua história e transformações.

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