O Gênesis segundo Kant

resenha ◘ Maurício Tuffani

Em pleno ‘século das luzes’, filósofo interpreta a origem do homem pelo relato bíblico da criação

Começo conjectural
da história humana
Immanuel Kant; tradução, apresentação e apêndice de Edmilson Menezes; Editora Unesp; 132 págs. R$ 22

Lançada pela primeira vez em língua portuguesa, a obra de Immanuel Kant (1724-1804) sobre a origem do homem foi publicada originalmente em 1786, quando o filósofo alemão já estava na fase madura de seu pensamento. Começo conjectural da história humana surgiu em meio ao debate público por meio de artigos que o filósofo travou com outro pensador alemão, Johann Gottfried von Herder (1744-1803), que fora seu aluno na Universidade de Königsberg, mas nunca se identificara com o pensamento do professor.

Após uma longa viagem à França, onde conhecera Diderot e outros expoentes do Iluminismo, Herder se convencera de que a pretensão iluminista de conceber a história como um processo conduzido pela razão não passava de uma simplificação grosseira, mecânica e linear. Segundo ele, para quem os destinos dos povos são conduzidos no plano local e nacional, o universalismo do espírito moderno das luzes estava levando a Europa à decadência. Essa tese foi diretamente contestada por Kant em 1785, em seu artigo Apreciação das ideias de Herder: Ideias em vista de uma filosofia da história da humanidade.

O projeto de uma história universal do gênero fundamentada na razão, que legitimaria a universalidade do conceito de homem e dos seus direitos naturais, foi um dos principais pontos-chave desse opúsculo e de dois outros de Kant: Ideia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita e Resposta à pergunta: o que é Iluminismo?, ambos publicados no ano anterior.

Nessa mesma linha surge a descrição da “pré-história” do homem, cujo itinerário, segundo o autor, “percorrido pelas asas da imaginação, mas não sem guardar um fio condutor ligado pela razão à experiência, reencontra exatamente o mesmo caminho já traçado nesse texto, de um ponto de vista histórico. O leitor consultará as páginas desse documento, e, passo a passo, verificará se o caminho assinalado conceitualmente pela Filosofia está em consonância com aquele indicado pela História” (págs. 14-15).

Merece atenção especial de Kant nessa obra o tema do Pecado Original, interpretado como resultado do instigamento do homem, pela razão, a deixar de se limitar aos ditames da natureza, com os quais se encontrava bem. A visão de um fruto diferente de outros alimentos não teria sido a causa por si só. Mas a comparação, por meio da razão, dos dados desse estímulo visual com os dos alimentos consumidos anteriormente, conhecidos por meio do instinto, provocou novos desejos, não só alheios às necessidades naturais, mas também em contraste com elas. Rompido o limite dos instintos, imposto pela natureza, seguiram-se a ansiedade e o medo face às possibilidades de o homem se servir de sua descoberta da “faculdade de escolher por si mesmo sua conduta e de não estar comprometido, como os outros animais, com um modo de vida único”.

Um dos desdobramentos do uso da razão pelo homem foi a descoberta da faculdade de transcender o presente e afirmar sua superioridade aos outros animais por meio da expectativa do futuro. Diferentemente de uma perspectiva teológica finalista, segundo a qual Deus teria criado o mundo dotado de soluções para as inquietudes e preocupações humanas, Kant concebeu a finalidade da providência como a colocação permanente de problemas e desafios para o homem. Desse modo, ele é obrigado a se superar, trabalhar e se adaptar, como esclarece uma das oportunas notas acrescentadas pelo tradutor Edmilson Menezes, estudioso da filosofia kantiana, autor da apresentação contextualizadora à edição brasileira e também do apêndice “Moral e vida civilizada: Notas sobre a avaliação moderna e seus nexos”.

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As bases da computabilidade

Teoria da recursão
Matias Francisco Dias e Leonardo Weber; Editora Unesp; 277 págs. R$ 45

Desenvolvida no âmbito da lógica matemática a partir dos anos 1930 pelo austríaco Kurt Gödel, pelo britânico Alan Turing, pelo polonês Emil Post e pelos norte-americanos Alonzo Church e Stephen Cole Kleene, a teoria da recursão criou as bases da linguagem computacional antes mesmo da existência de computadores e tornou-se uma disciplina autônoma. Como poucas obras em língua portuguesa se dedicam a essa especialidade, torna-se importante o lançamento da obra de Matias Francisco Dias, professor da Universidade Federal da Paraíba, e do doutorando Leonardo Weber.

Em que pese o formalismo lógico-matemático de seu conteúdo, Teoria da recursão foi escrito visando sua compreensão pelo leitor com algum conhecimento básico de teoria dos conjuntos e lógica matemática, restrita ao cálculo proposicional clássico e cálculo de predicados de primeira ordem. Segundo o prefácio de Newton da Costa, um dos maiores nomes da lógica atual, deverá tornar-se um clássico da literatura brasileira especializada no assunto. (MT)

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Uma polêmica trajetória intelectual

A tarefa do crítico: Diálogos com Terry Eagleton
Terry Eagleton e Mathew Beaumont; tradução de Matheus Corrêa; Editora Unesp; 375 págs. R$ 46

Destaque entre os convidados da edição deste ano da Festa Literária de Paraty, o escritor britânico é uma das figuras mais influentes do cenário cultural internacional. Aos 23 anos, em 1966, quando se doutorou pela Universidade de Cambridge, ele iniciou sua carreira como crítico literário e professor de teoria literária, nas universidades de Oxford e Lancaster (Reino Unido), Galway (Irlanda) e Notre Dame, em Indiana (Estados Unidos). Apesar de sua orientação marxista, ele é destacado como um pensador crítico dessa corrente. De seus mais de 40 livros, vários foram lançados no Brasil, entre eles, pela Editora Unesp, Ideologia: Uma introdução (1997), Marx e a liberdade (1999) e A ideia de cultura (2005).

Publicado originalmente no ano passado, A tarefa do crítico é resultado de 11 discussões entre Eagleton e o escritor britânico Mathew Beaumont ao longo de nove meses, entre 2008 e 2009. Começando pela influência da comunidade católica irlandesa de classes trabalhadoras sobre sua obra, o livro percorre a trajetória intelectual do crítico literário desde antes de sua formação superior. (MT)

 

 

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A crítica da razão finita

A construção do mundo histórico nas ciências humanas
Wilhelm Dilthey; tradução de Marco Casanova; Editora Unesp; 346 págs. R$ 60

Uma das principais características do pensamento de Wilhelm Dilthey (1833-1911) é o desenvolvimento de uma fundamentação para o conhecimento voltada à superação da clivagem entre as ciências naturais e as humanidades. Sua proposta da hermenêutica como crítica da razão histórica é uma contraposição não só ao idealismo de Hegel, mas também, e sobretudo, ao positivismo, por meio do qual, em pleno século 19, a sociologia tem seu status científico reconhecido ao ser estruturada com base nos preceitos das ciências da natureza.

Traduzido pela primeira vez para a língua portuguesa, A construção do mundo histórico nas ciências humanas abrange diversos ensaios, correspondentes a apresentações realizadas pelo filósofo alemão nas duas últimas décadas de sua vida e reunidos nessa obra em 1910, um ano antes de sua morte. O tradutor Marco Antonio Casanova, professor de Filosofia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, acrescenta importantes notas explicativas não só de termos da edição original, mas também contextualizadoras da obra. (MT)

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