Objeção e resposta

texto ◘ Maurício Tuffani

O professor Jairo José da Silva, titular da disciplina de Lógica e Fundamentos da Matemática do câmpus de Rio Claro, enviou a seguinte crítica ao texto de minha autoria publicado nesta coluna na edição anterior.

Escrevo-lhe primeiramente na condição de professor desta universidade (que gostaria de não ter lido o que leu em Unesp Ciência, sobre o qual trataremos a seguir) e, depois, como possuidor de um título de doutor em Lógica e Epistemologia. Há vários pontos em seu artigo “Teorias da verdade e da mentira” que merecem reparos e críticas.

Um deles é sua afirmação que não lhe parece que “uma definição de verdade seja válida para todas as ciências”. Ora, Maurício, as definições não estabelecem condições de aplicabilidade de conceitos, papel dos critérios, mas sua significação. A definição de verdade nos diz o que significa a palavra “verdade”; e se não temos uma única definição do termo, ele não denota sempre o mesmo conceito. Ademais, as ciências formam um corpo epistemologicamente coerente, e se alguma empreitada intelectual não acata o conceito científico de verdade, ela não é uma ciência (a matemática e a lógica são exceções, mas elas não são a rigor ciências).

Outro ponto delicado: você acredita que nosso intelecto não busca necessariamente a verdade. É verdade, ele busca, nas palavras de Simone Weil (que buscava muito mais que verdade), a realidade. A verdade é o caminho. Quem não busca a verdade, busca uma fantasia de realidade. Ou algo mais pernicioso, o que nos leva a Nietzsche.

Esse senhor, que antes de filósofo, na acepção técnica do termo, foi um enfant terrible, um iconoclasta brilhante, um magnífico escritor e um eloquente perversor, coloca à frente da verdade a Vontade de Potência (que foi como ele entendeu a Vontade de Schopenhauer, o que só alguém física e psiquicamente doente como ele poderia ter feito). Nós sabemos no que deu isso: na besta ariana, no anti–intelectualismo da direita furibunda, na glorificação das pulsões, e, no limite, no indigente pós-modernismo que você parece cortejar.

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Devido à limitação de espaço desta coluna e à necessidade de objetividade, comento apenas dois pontos que me parecem ser os essenciais dessa contestação.

1. O professor ressalta que é papel dos critérios de verdade – e não das definições – estabelecer as condições de aplicabilidade de conceitos. Isso me leva a supor que ele não deve ter notado a ressalva da nota 2 de meu artigo, na qual afirmei: “A rigor, há uma distinção entre definição e critério de verdade, assim como há outras teorias. Ver sobre o assunto em Filosofia das lógicas, de Susan Haack (Editora Unesp, 2002, capítulo 7)”.

Além disso, não teria havido erro mesmo sem essa ressalva. Tomando como exemplos divergências entre Tarski, Popper, Mackie e Russell, a autora do livro acima citado afirma: “Desconfianças podem surgir em razão da existência de desacordo sobre que teorias da verdade são consideradas definicionais, e quais são tidas como criteriais” (p. 130). Ou seja, se há teorias cujas definições de verdade já envolvem critérios de verdade, não houve engano na forma como me expressei, de modo que a objeção a ela só seria válida como manifestação de divergência de concepção. E não como correção, pois o tema é controverso.

2. Com o devido respeito ao professor, suas considerações sobre Nietzsche parecem incorrer no que os lógicos chamam de falácia do argumentum ad hominem, que “é cometida quando, em vez de tentar refutar a verdade do que foi afirmado, se ataca o homem que fez a afirmação” (Irving Copi, Introdução à lógica. São Paulo: Mestre Jou, 1974, p. 75).

Fora essa inadequação argumentativa, não procede, à luz das desmistificações da obra do filósofo alemão, associar a ele anti-intelectualismo, glorificação das pulsões e racismo. Apesar da inegável competência acadêmica do professor Jairo, essas afirmações não são corroboradas nem mesmo pelos críticos atuais mais contundentes do pensamento nietzscheano. Além disso, Nietzsche deixou muito claro que sua Vontade de Poder (ou de Potência, como preferem alguns estudiosos) não tem nada a ver com o conceito de Vontade de Schopenhauer.

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