O pantanal de Piracicaba

A barragem de Barra Bonita fez surgir um rico ecossistema que desaparecerá se for construída outra eclusa mais próxima. O projeto vem sendo acompanhado por pesquisadores de Rio Claro

texto Maurício Tuffani ● foto aérea Tipuana Imagens

Sob um sol quente de início de agosto, estamos em uma lancha que percorre uma enorme planície alagada, povoada por aves em grupos de dezenas e até em revoadas de centenas e milhares. São garças, colhereiros, jaçanãs, socós, irerês, biguás e muitas outras espécies, além de tucanos, gaviões em voos solitários e carcarás quase sempre em casais atentos a toda a movimentação por perto. Capivaras, lontras, ratões-do- -banhado e outros mamíferos completam a paisagem. O barqueiro informa que de noite dá para encontrar jacarés-de-papo-amarelo e que há onças-pardas em uma fazenda nas imediações. Bem próxima dessa fauna selvagem, a boiada pasta em trechos não alagados, e alguns bois até atravessam pequenos canais de água.

Por incrível que pareça, não estamos no Pantanal Matogrossense, que se originou do rebaixamento de terras há cerca de 2,5 milhões de anos. Estamos em um ecossistema cuja formação foi provocada inesperadamente por uma obra realizada há pouco mais de 50 anos e situada a dezenas de quilômetros de distância: a barragem da usina hidrelétrica de Barra Bonita, no Rio Tietê, bem no centro do Estado de São Paulo, onde turistas fazem passeios em grandes barcos em sua famosa represa, com direito ao sobe e desce na eclusa.

Estamos no final do prolongamento da área alagada por essa represa, que se mistura, em contrafluxo, com o sinuoso fim de curso do maior afluente do Tietê. É o Rio Piracicaba, após sua passagem pela área urbana da cidade batizada com seu nome de origem indígena que significa “lugar onde os peixes se juntam”. Aqui, a cerca de 200 quilômetros de São Paulo, é o Tanquã, o chamado “pantanal piracicabano”, que desaparecerá se for construída outra barragem, mais próxima, para ampliar a hidrovia Tietê-Paraná.

Na lancha está o geógrafo Roberto Braga, professor do Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE), do Câmpus de Rio Claro da Unesp. Ele conta que a construção da barragem, iniciada em 1957 e concluída em 1963, transformou em um grande banhado a antiga área de várzea no entorno do grande “S” formado por largos trechos do Piracicaba.

Antes e durante a travessia do rio pela cidade, explica Braga, suas águas aumentam seu teor de oxigênio na agitação das belas e famosas cachoeiras e corredeiras que tanto atraíram turistas e inspiraram poetas e músicos regionais. Passada essa turbulência, o rio reduz sua velocidade em trechos mais largos e curvos e sob a desaceleração pelo ameno contrafluxo de Barra Bonita. O ambiente é de estabilidade, com grandes extensões de baixas profundidades.

 

 

As águas rasas e lentas desse remanso ocupam uma superfície que durante o ano varia de 20 a 33 quilômetros quadrados entre as épocas de estiagem e cheia. Fora da interferência dos centros urbanos e da malha rodoviária, em poucos anos ali se desenvolveram as condições ideais para uma abundante fauna aquática, diz o professor da Unesp. Esse ambiente rapidamente atraiu aves, mamíferos, répteis e anfíbios que estavam perdendo seus habitats naturais com a crescente derrubada de remanescentes de Mata Atlântica e de Cerrado para a expansão da agricultura. Não demorou muito para o banhado se tornar área não só de pouso, alimentação e descanso, mas também de reprodução de aves migratórias, inclusive do hemisfério norte.

Esse cenário em que vive também o tuiuiú ou jaburu (Jabiru mycteria), ave-símbolo do Pantanal – que não avistamos porque sua permanência na região acontece somente nos meses de verão –, atraiu também famílias de trabalhadores que desistiram da agricultura para se tornarem pescadores profissionais.

Paraíso desconhecido
Especialista em planejamento territorial, Braga começou a atuar no Tanquã em 2012, ao receber do Ministério Público a incumbência de elaborar parecer sobre aspectos a serem considerados no estudo de impacto ambiental que estava então sendo elaborado para o projeto de ampliação da hidrovia Tietê-Paraná em cerca de 50 quilômetros. A iniciativa prevê outra barragem, mais próxima, no próprio Rio Piracicaba, na cidade de Santa Maria da Serra, de 1.390 metros, inundando uma área de 67 km2, nela incluída a do pantanal piracicabano  além de 8,81 km2 de fragmentos de vegetação nativa, que com o Tanquã fazem conexão de fauna com as vizinhas Fazenda Bacury e Estação Ecológica de Barreiro Rico.

O Câmpus de Rio Claro já havia desenvolvido alguns dos raros trabalhos de pesquisa relacionados a esse ecossistema praticamente desconhecido, até mesmo pela comunidade científica, apesar de sua rica diversidade biológica.

Uma das grandes dificuldades para prever os impactos dessa obra era e ainda é a escassez de estudos sobre o Tanquã. Na realidade, até recentemente, mesmo a população de Piracicaba ainda conhecia pouco sobre esse rico ecossistema. Na Wikipedia, por exemplo, no fechamento desta reportagem ainda não havia uma única menção ao Tanquã ou à fauna diversificada e abundante no local. Além disso, no verbete “Rio Piracicaba” não constava nenhuma referência a essa grande área úmida, seja sob a denominação de banhado, remanso ou até mesmo sobre a antiga várzea. Por outro lado, esse registro da enciclopédia on-line afirmava que a navegação de grande porte “poderá ser retomada com a construção de uma barragem próximo à foz do rio, em Santa Maria da Serra”.

Esse vácuo de informação perdurou até cerca de três anos atrás, quando começaram a surgir reportagens comentando sobre a retomada, pelo governo estadual, do projeto da nova barragem e sua eclusa (que, aliás, já havia sido rejeitado em 1998). E um ano antes dessas notícias, em 2010, grupos de observadores de aves, como o Centro de Estudos Ornitológicos (CEO), começaram a publicar em blogs e sites na Internet os primeiros relatos de suas visitas ao Tanquã.

Transformações
A retomada do esforço para ampliar a hidrovia chamou a atenção de promotores de Justiça em Piracicaba, que já sabiam serem poucos os estudos sobre o banhado da cidade. Ainda na fase de plano de trabalho do estudo de impacto ambiental (EIA) para o projeto, o Ministério Público Estadual recorreu a Roberto Braga, que desde 2006 é representante da Unesp na Câmara Técnica de Plano de Bacias do Comitê das Bacias Hidrográficas do PCJ (Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí).

Para atender à solicitação do Grupo de Atuação Especial de Defesa do Meio Ambiente do PCJ, o professor realizou trabalhos de campo no Tanquã e analisou pesquisas relacionadas ao projeto. Já era previsível que os impactos ambientais e sociais desde o local escolhido para a barragem até a área do remanso e de seu entorno viriam a ser considerados no EIA, como exigem a legislação e as normas técnicas vigentes sobre o assunto. Em seu parecer, Braga recomendou que o estudo de impacto a ser elaborado não deixasse de considerar aspectos relativos à área urbana de Piracicaba, especialmente o risco de agravamento de enchentes, que são comuns na cidade.

Braga contou também com a experiência no Tanquã de seus colegas do Departamento de Planejamento Territorial e Geoprocessamento da Unesp em Rio Claro. Entre eles está Cenira Maria Lupinacci, especializada em geografia física e geomorfologia, que coordenou de 2009 a 2011 um estudo sobre os sedimentos depositados no leito do Rio Piracicaba a partir da construção da barragem de Barra Bonita. Desse estudo participaram o geólogo Fabiano Tomazini da Conceição e Adriano Heck Simon, ex-aluno de doutorado e hoje professor da Universidade Federal de Pelotas (RS), que foi orientado por Cenira e também por Archimedes Perez Filho, da Unicamp, colaborador da pós-graduação do IGCE desde 1994.

Defendida em 2010, a tese de Simon mapeou as alterações no relevo do ambiente aquático e de seu entorno da usina de Barra Bonita ao eixo final do Rio Piracicaba – o que inclui o Tanquã –, associando-as a todas as formas de uso da terra praticadas ao longo dessa extensão desde um ano antes da conclusão da obra, em 1963. Diferentemente do surgimento do pantanal piracicabano com sua rica diversidade biológica, muitas das modificações em todo o fundo de vale do Rio Piracicaba não foram positivas para a conservação ambiental. De 1962 a 2007, por exemplo, como mostra a tese de doutorado de Simon, as áreas de florestas na área estudada foram reduzidas de 13,6 quilômetros quadrados para 7,5 quilômetros quadrados, ou seja, tiveram uma redução de 45%.

“Apesar das drásticas alterações provocadas pela barragem a toda a extensão do fundo de vale do Rio Piracicaba, no bairro Tanquã se reuniram as condições excepcionais para a formação desse diversificado ecossistema, inclusive no que diz respeito às transformações impostas ao relevo e à rede de drenagem”, disse Simon. “Os estudos do IGCE e meu trabalho de doutorado mostram que o frágil equilíbrio alcançado pelos componentes físicos dessa grande área úmida interceptada pelo reservatório de Barra Bonita pode ser prejudicado por formas agressivas de ocupação do solo, especialmente pela construção de outras barragens”, acrescentou.

Desde o início desses trabalhos, Fabiano Tomazini da Conceição tem realizado coletas e análises periódicas dos sedimentos da região para monitorar os efeitos do reservatório de Barra Bonita.

Esses estudos são importantes devido à escassez de pesquisas sobre a área do Tanquã e porque mostram a gênese dessa área úmida, do ponto de vista geomorfológico, afirma Braga. “Esses trabalhos são também subsídios importantes para estudos posteriores e medidas de preservação desse ecossistema. E têm contribuído para a compreensão e o correto dimensionamento dos impactos ambientais previstos para o projeto de barragem, bem como para as medidas compensatórias e mitigatórias”, diz o geógrafo.

Em janeiro deste ano, já tendo sido apresentado o estudo de impacto ambiental, Braga elaborou para o Ministério Público novo estudo, dessa vez em coautoria com Cenira e outro colega do departamento, o engenheiro civil Rodrigo Moruzzi. No trabalho, além de objeções sobre os impactos previstos no EIA para áreas urbanas, os pesquisadores questionaram outras considerações, como a de que, com a nova barragem, os habitats do Tanquã seriam substituídos por outros com características semelhantes em um novo remanso.

Fauna
Os primeiros trabalhos sistemáticos sobre a fauna do Tanquã foram feitos por observadores de aves do CEO. “Eu, que moro na cidade de Piracicaba, não conhecia esse ambiente”, diz Luciano Monferrari, coordenador dos trabalhos realizados pelo grupo em seu censo de áreas úmidas do Estado. “Cada vez que vamos lá encontramos uma espécie diferente”, diz ele, ressaltando o fato de já ter avistado no local uma ave encontrada até então somente nos estados de  Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, o marrecão (Netta peposaca). “Ainda falta conhecer muito mais o local”, afirma.

Até agora, algumas das aves migratórias já identificadas no Tanquã pelo CEO ou pelo levantamento do EIA foram cabeça-seca, águia-pescadora, marreca-caneleira, irerê, mergulhão-caçador, falcão-peregrino, batuiruçu, batuíra-de-bando, andorinha-de-bando e alguns maçaricos como os de-bico-virado, de-perna-amarela, grande-de-perna-amarela, solitário-de-colete e pernilongo, entre outras. Ao todo, já foram registradas nessa área úmida cerca de 170 espécies de aves, das quais 19 estão ameaçadas de extinção.

O projeto de ampliação da hidrovia prevê a construção de uma nova vila dotada de rede de esgoto e água tratada. Mas muitos moradores têm medo que  a obra leve ao desaparecimento do modo de vida tradicional, baseado na pesca e no turismo

O estudo de impacto detectou também a presença de 46 mamíferos, entre os quais os ameaçados de extinção onça-parda, lobo-guará, jaguatirica e raposinha. Entre as 39 espécies de répteis e anfíbios registradas, destaca-se a ameaçada jacaré-de-papo-amarelo. As espécies de peixes consideradas no EIA são as mesmas 73 associadas ao reservatório de Barra Bonita, destacando-se pacu-caranha, dourado, pintado, jaú, além de cascudo, piapara, lambari e outras.

O EIA destacou dificuldades enfrentadas para o levantamento de répteis, anfíbios e peixes. “Trata-se, junto com a comunidade de aves aquáticas, dos grupos que possivelmente maior impacto irão sofrer com a implantação da obra, pois irão perder parcial ou totalmente seu habitat”, afirmou Luciano Verdade, pesquisador da USP de Piracicaba, em seu parecer para o Ministério Público. “É possível que populações endêmicas inteiras de espécies ainda não descritas de anfíbios venham a desaparecer em decorrência do impacto da obra, por se tratar de espécies de várzea e não de grandes reservatórios ou de suas margens”, acrescentou.

Comunidade
Realizado em 2013 para o EIA, o levantamento prévio de moradores do Tanquã identificou 25 famílias. Todas têm direito de posse sobre os imóveis que ocupam e vivem da pesca e também de serviços de passeios de barco para turistas. Na vila de pescadores situada à margem esquerda do Rio Piracicaba, em um trecho não invadido pelo alagamento de Barra Bonita, vivem 18 famílias, e na direita, sete famílias. Também foram registrados 53 proprietários não moradores.

O Departamento Hidroviário informou que o levantamento está sendo atualizado e que realizou reuniões com moradores e rancheiros do Tanquã, as duas últimas em janeiro e fevereiro deste ano. O objetivo foi apresentar o projeto de ampliação da hidrovia e tirar dúvidas sobre as desapropriações e a nova vila que o Estado pretende construir, a cerca de 300 metros da atual, com rede de esgoto, água tratada e regularização fundiária. O DH  diz que é positiva a relação entre os benefícios do projeto e os impactos ambientais e sociais previstos, e descarta o risco de agravamento de enchentes na área urbana de Piracicaba. E ressaltou que os pareceres de pesquisadores da Unesp e de outras instituições foram incorporados ao trabalho de análise do EIA.

“Moro aqui há quase 26 anos. Aqui tem muita paz, não tem preocupação com violência”, afirma Carlos César Giacomini Bernal, 46, pescador, presidente da Associação dos Pescadores e Moradores do Bairro Tanquã de Piracicaba, que reúne moradores e donos de ranchos de pesca. Ele não quer que a barragem seja construída. “É bom ter título de propriedade e indenização, mas de que isso vai adiantar para nós, que vivemos da pesca e desta natureza? ”

Quem também não quer que o Tanquã seja submerso é o seu morador mais antigo. Anísio Evangelista, 84, há 48 deixou o trabalho agrícola para ser pescador. Ele acredita que não dá para impedir a construção da barragem. “Ninguém pode com o governo, não é mesmo?”, diz. “Esta é uma vida abençoada. A gente vive do trabalho daqui mesmo.”

BAIXAR PDF

2 comments

Deixe uma resposta

*