Internacionalização de Instituições de Ensino Superior no Brasil

Na sociedade do conhecimento em que vivemos, as universidades desempenham papel central no mundo atual, na formação de quadros para a consolidação dos países e desenvolvimento da pesquisa que sustenta a sociedade. Embora o cenário universitário seja bastante heterogêneo, com instituições de ensino superior (IES) de tamanhos e vocações diferentes, um interesse comum se destaca: a internacionalização da educação superior.

Ainda que reconhecida como importantíssima dimensão da educação superior, o verdadeiro significado da internacionalização ainda não é suficiente e adequadamente compreendido. Uma definição que julgo bem descrever o conceito é a da canadense Jane Knight, que define internacionalização como “processo de integração da dimensão internacional, intercultural ou global nos propósitos, funções e realização de educação superior”.

Esta definição mostra a distância que a maioria das instituições de ensino superior brasileiras ainda tem em relação a uma efetiva internacionalização.

Além disso, como indicou o Prof. José Marques dos Santos, Reitor da Universidade do Porto, em evento realizado na Unesp em 2012, deve-se compreender que “a internacionalização não é um fim ‘só por si’, mas um instrumento hoje indispensável para cumprir os objetivos estratégicos que emanam da missão de cada universidade”.

As universidades de maior prestígio no mundo atuam de forma estratégica para integrar a internacionalização transversalmente em suas estruturas e dinâmicas de funcionamento. Para tanto, contam com unidades e equipes profissionais que atuam em diferentes setores e respondem pelas diversas atividades de internacionalização desenvolvidas por essas instituições, focadas em objetivos bem definidos, como parcerias interinstitucionais, projetos conjuntos de pesquisa, captação de estudantes internacionais, programas de estudos de curta duração no exterior etc.

A situação no Brasil é bem diferente. Em 2011, quando o Governo Federal lançou o Programa Ciência sem Fronteiras (CsF), com o objetivo de enviar 100.000 estudantes ao exterior, a falta de estrutura adequada para tratar da mobilidade de estudantes – uma das principais atividades do processo de internacionalização das IES – expôs uma grande lacuna ainda existente no país. Poucas instituições contam com um escritório internacional estabelecido, com dotação orçamentária e recursos humanos bem capacitados para desenvolver suas atividades. Muitas instituições tiveram que rapidamente se adequar e criar escritórios de relações internacionais, tanto para operar as atividades associadas ao programa CsF, como para acolher as inúmeras delegações de IES estrangeiras que passaram a vir cada vez mais ao Brasil, em busca de parcerias e de alunos.

Deste modo, pode-se dizer que este programa, ao mesmo tempo em que foi um grande catalisador, também ressaltou o problema da falta de estrutura e, sobretudo, a enorme importância do tema da internacionalização da educação superior no atual cenário internacional.

Mas, se as IES já estão se adaptando para tratar da questão da mobilidade de estudantes, muitas outras atividades internacionais ainda precisam ser mais adequadamente abordadas.

A principal delas é como efetivamente implementar a transversalidade da internacionalização na estrutura e no funcionamento das IES. Como transformar um escritório, que muitas vezes funciona com apenas um profissional, em agente e motor de transformação das instituições.

Em minha opinião, isso depende fundamentalmente da vontade política e do compromisso dos dirigentes da instituição. Este é o primeiro e mais importante passo no caminho do sucesso. A conscientização de todo o ambiente acadêmico para a importância e vantagens associadas à internacionalização da educação superior também tem um papel central, pois apenas com o compromisso de todos os envolvidos pode-se construir um efetivo projeto de internacionalização.

A questão da mobilidade também merece ser aprofundada. O Programa CsF, com a oferta de bolsas de mobilidade no exterior para estudantes e docentes, certamente contribuiu para a internacionalização de parte das instituições. A visibilidade internacional obtida deve poder ser aproveitada para se construir parcerias que contribuam para o processo de internacionalização de cada instituição, levando em conta seus objetivos e vocações.

É importante reconhecer que tanto as grandes IES brasileiras, em que a pesquisa atua como motor de desenvolvimento e nas quais o processo de internacionalização já é mais desenvolvido, como as IES menores e mais voltadas para a formação de pessoas podem e devem se beneficiar das oportunidades trazidas pela internacionalização. Para cada tipo e tamanho de IES, existem oportunidades a ser exploradas.

Mas é necessário ir além da questão da mobilidade. Outras ações de internacionalização devem ser efetivamente abordadas pelas IES brasileiras. A chamada “Internacionalização em Casa” (Internationalization at Home), que envolve o desenvolvimento de atividades internacionais no câmpus, voltando-se para aqueles que não têm a oportunidade de ir ao exterior. A “Internacionalização do Currículo”, que prevê, dentre outras atividades, a inclusão de componentes internacionais nos currículos dos cursos, o ensino de línguas estrangeiras (principalmente o inglês) e o aumento da presença de estudantes e professores estrangeiros (que passa pela oferta de disciplinas em inglês) são algumas das ações que devem ser desenvolvidas.

Além disso, é de conhecimento da comunidade científica internacional que importantes soluções para problemas comuns relacionados à sustentabilidade da sociedade global como mudanças climáticas, água, alimentos, políticas públicas, energia limpa, saúde, etc. não podem ser obtidas senão com a aglutinação de conhecimentos e experiências de diferentes nações.

Para que tudo isso possa ser realizado de forma adequada, é necessário que os responsáveis por essas atividades estejam capacitados para estas tarefas. É neste contexto que atua a FAUBAI – Associação Brasileira de Educação Internacional. Criada há mais de 26 anos, conta atualmente com representantes de mais de 200 IES de todos os setores (federal, estadual, comunitário e privado) e regiões do país e tem forte atuação no aperfeiçoamento do intercâmbio e cooperação internacionais e na inserção da educação superior brasileira no cenário mundial. Realiza anualmente a mais importante conferência sobre a internacionalização da educação superior no país, contribuindo de forma efetiva para o processo de internacionalização das IES brasileiras.

A FAUBAI 2014, realizada de 12 a 16 de abril em Joinville (Santa Catarina), contou com cerca de 400 inscritos, 137 deles estrangeiros, representando IES dos Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia, Irlanda, França, entre outros países. O evento também contou com a participação dos presidentes das mais importantes associações de educação internacional do mundo – como Fanta Aw da Association of International Educators (NAFSA), Laura Howard da European Association for International Education (EAIE), Helen Zimmerman da International Education Association of Australia (IEAA), Lavern Samuels da International Education Association of South Africa – IEASA, entre outros –, com os quais se discutiu a declaração conjunta “Global Dialogue on the Future of Internationalisation of Higher Education”, proposta em 2013, na África do Sul, com bases para uma efetiva internacionalização da Educação Superior no mundo.

O evento também contou com a importante participação do Sr. Francisco Marmolejo, Coordenador de Educação Superior do Banco Mundial, que proferiu a conferência de abertura sobre Novos Cenários para a Internacionalização da Educação Superior.

A FAUBAI 2015 ocorrerá em Cuiabá (Mato Grosso), de 25 a 29 de abril de 2015, com o tema geral “Criando Parcerias Sustentáveis através de uma Internacionalização Equilibrada” e um número ainda maior de participantes e uma importante representação da América Latina, contribuindo para que a educação superior brasileira alcance cada vez mais padrões internacionais de excelência.

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