Desafios para o etanol brasileiro

De 17 a 21 de fevereiro foi realizada a 20.ª Conferência Nacional do Etanol “Going Global”, em Grapevine no Texas, com a participação de vários representantes da cadeia produtiva do etanol nos Estados Unidos e outros países como Brasil, Alemanha, Canadá, Itália, Peru, Irlanda, México, Inglaterra, Índia e Gana.

Uma questão ficou bem clara: o atraso da divulgação dos volumes obrigatórios do mandato de combustíveis renováveis (Renewable Fuel Standard RFS) está deixando o setor apreensivo em relação ao mercado americano, o que impulsiona ainda mais as iniciativas de explorar o mercado internacional.

Bob Dineen, presidente da Renewable Fuels Association (RFA), destacou em seu discurso de abertura que incluiu os 10 pontos da agenda do etanol, o fato da associação estar trabalhando junto com a US Granis Council e a Growth Energy em um Programa de Exportações de Etanol.

O objetivo é manter o recorde de exportações atingido em 2011 de 1,2 bilhão de galões de etanol. Já mapearam 61 países que possuem mandatos de etanol e podem ser explorados, além de terem missões comerciais planejadas para Brasil, Peru, Panamá, Filipinas, Japão, Coreia do Sul e China.

Essa proposta vai ao encontro do discurso do ex-representante dos EUA para assuntos comerciais (USTR, em inglês) Ron Kirk, que enfatizou a importância de o setor do etanol apoiar a aprovação do Trade Promotion Authority, o qual facilitará a conclusão dos acordos como Parceria Transpacífica (TPP, sigla em inglês) e Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP, na sigla em inglês). Jim Galvin, presidente da Lakeview Energy, também apontou que entre os desafios do setor está o de não ficar de fora de tais acordos.

A apresentação que mais ressaltou o Brasil foi a de Owen Wagner da LMC International. Wagner apontou que apesar de os custos de processamento do etanol brasileiros serem menores do que nos EUA, os custos totais de produção (incluindo custos de matéria-prima) dos EUA foram inferiores aos do Brasil ao longo dos últimos anos. Essa é uma das razões pelas quais a indústria brasileira de etanol tem sido menos rentável nos EUA desde 2011.

Isto colabora para o fato de Brasil e Estados Unidos terem mudado de posição no cenário internacional. Pedro Paranhos da Eco-energy destacou que, em 2014, as exportações dos EUA representaram 70% das exportações de etanol no mundo e as do Brasil apenas 30%. Em 2004, os EUA representavam 10% e o Brasil 90%.

Por outro lado, Wagner destaca que pode haver melhoras na eficiência de produção no cenário futuro. Do lado da demanda, o aumento do preço da gasolina e a adoção de 27% de etanol na mistura gasolina também devem colaborar para mais incentivos no setor. Outro destaque está no fato de o governo de Minas Gerais ter reduzido o ICMS do etanol em 14%. De toda forma, Wagner defende que neste momento abriu-se uma janela de oportunidade para o etanol americano aumentar as exportações para o mercado brasileiro.

Paranhos ressaltou que os mercados japonês e sul-coreano ainda privilegiam etanol brasileiro, devido a regulações que restringem o mercado ao etanol de cana. Vale ressaltar que os representantes brasileiros do setor têm tido sucesso na defesa do etanol brasileiro dentro da política estadual da Califórnia (Low Carbon Fuel Standard – LCFS). Nesse sentido, mais cem usinas brasileiras são registradas no CARB, e na safra de 2013/14 um quarto das exportações brasileiras de etanol foram para esse estado. Assim, o mercado californiano se consolida como uma opção para exportações brasileiras.

Laís F. Thomaz é pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP) e pesquisadora visitante na Georgetown University. Foi vencedora do prêmio promovido pela RFA, que seleciona estudantes para participar da National Ethanol Conference.

Este artigo foi publicado originalmente no Estadão Noite de 27 de fevereiro de 2015.

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