O Terror em Israel e na Palestina

Texto discute se há uma luz no fim do túnel

Atos de terror sempre foram comuns na região que compreende atualmente Israel e Palestina. Mesmo antes da criação do Estado de Israel, na década de 1930, já existiam ataques terroristas (por parte tanto dos judeus quanto dos árabes). Nas últimas décadas o que vemos são ondas de terror esporádicas, mas longe de um fim definitivo. Apesar de toda a repressão por parte dos israelenses e do contínuo aperfeiçoamento de seus aparatos militares, os atos terroristas não são erradicados. Podemos nos perguntar se a raiz deste problema não seria a própria postura de Israel em relação a eles.

No dia primeiro de abril completaram-se seis meses da atual rodada de violência na região, e as Forças Armadas de Israel veem um declínio no número de ataques, a maioria dos quais ocorre nos finais de semana. Os dados do mês de março ainda não foram computados, mas estima-se que foram menos que os 155 ataques que ocorreram em fevereiro.

Em outubro de 2015, quando a “onda de terror” começou, houve 620 ataques na Cisjordânia, em Jerusalém, dentro da Linha Verde[i] e ao redor da Faixa de Gaza. Esse número inclui também a utilização de dispositivos incendiários. A nova onda de terror, conhecida também por “A Intifada das Facas” (por ter como principal fonte de ataques esfaqueamentos), tem um significado claro: o cansaço da população palestina pela presença (civil e militar) de Israel nos territórios ocupados, com destaque para a Cisjordânia. Os ataques são realizados em sua maior parte por civis palestinos não ligados a grupos extremistas, como o Hamas,  que portam apenas facas. O estopim da atual situação foi o esfaqueamento de civis em um ponto de ônibus em Be’er Sheva, uma cidade israelense localizada no deserto do Negev. O primeiro ataque foi no dia primeiro de outubro de 2015 em Nablus, com o assassinato, também por esfaqueamento, de um casal de civis israelenses.

Muito ainda deve ser debatido sobre como as Forças Armadas israelenses são empregadas em relação aos palestinos na Cisjordânia e em Gaza

Uma diferença entre o que existe hoje na região em relação às últimas intifadas[ii], com destaque para a de 2000, é que ainda há liberdade de movimento na Cisjordânia; um palestino que quer ir do norte da cidade de Jenin, na Cisjordânia, para Ramallah, ao norte de Jerusalém, pode fazê-lo sem passar por postos de controle das Forças Armadas de Israel. Mesmo quando o acesso a aldeias ou cidades foi ostensivamente limitado esses limites eram temporários. De acordo com o site oficial do Ministério das Relações Exteriores de Israel, o governo israelense leva em consideração as necessidades da população palestina e por isso não quer limitar por completo o direito de ir e vir dos habitantes locais. Entretanto, o cerne da questão que acaba por incentivar a população a lutar de forma extrema contra, que é a ocupação por israelenses dos territórios palestinos, não vê mudança.

Um incidente do fim de março, em que um soldado atirou e matou um terrorista palestino já ferido e deitado no chão em Hebron, mais uma vez levantou a questão das regras de engajamento[iii]. De acordo com as regras das Forças Armadas de Israel, antes de iniciar as operações militares na Cisjordânia, os soldados são testados por escrito sobre os seus conhecimentos de instruções para abrir fogo e simulações são conduzidas. “Se a sua vida está em perigo – não há dilema. Essa é a base para as regras para abrir fogo. Elas são claras, eu não acho que há uma zona cinzenta”, disse um comandante de brigada da infantaria, falando antes do incidente em Hebron.

Muito ainda deve ser debatido sobre como as Forças Armadas israelenses são empregadas em relação aos palestinos na Cisjordânia e em Gaza. O Ministro da Defesa disse que as negociações com os palestinos não são sobre um fim completo da atividade israelense em cidades palestinas, mas um acordo para que Israel realize as operações nos casos em que as forças de segurança palestinas não ajam com o intuito de frustrar atividades terroristas.

Moshe Ya’alon conclui sobre a situação com uma frase um tanto problemática sobre o futuro da Cisjordânia e o conflito Israel-Palestina: “Não é uma questão política, mas de segurança. O que eles não fazem nós vamos ter que fazer, mas de forma alguma nós vamos abster–nos completamente da entrada na Área A[iv]”. Com essa frase podemos esperar que muitos ataques ainda estejam por vir e por um longo tempo, apesar do atual declínio, como forma de retaliação à postura de Israel na região, sem dar a devida autonomia para os palestinos, como eles esperam e necessitam.

NOTAS
[i] Fronteira entre Israel e os Estados vizinhos definida após a Guerra de Independência de 1948.
[ii] Levante popular palestino contra Israel.
[iii] Regras de engajamento em uma operação militar determinam quando, onde e como deve ser usada a força.
[iv] Definida nos Acordos de Oslo (que dividiam a Cisjordânia em três áreas, A,B,C), a área A corresponde a 18% da Cisjordânia e possui controle militar e civil palestino.

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Karina Stange Calandrin é mestranda em Relações Internacionais no Programa de Pós–Graduação San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp, PUC-SP) e pesquisadora do Gedes – Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional da Unesp de Franca.

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