Diplomacia e Defesa

Resenha do livro de Érica Winand Diplomacia e Defesa na gestão Fernando Henrique Cardoso (1995-2002): História e conjuntura nas relações com a Argentina

Diplomacia e defesa na gestão Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) História e conjuntura nas relações com a Argentina Érica Cristina Alexandre Winand Coleção Paz, Defesa e Segurança Internacional Editora Unesp 318 páginas
Diplomacia e defesa na gestão Fernando Henrique Cardoso (1995-2002)
História e conjuntura nas relações com a Argentina;
Érica Cristina
Alexandre Winand;
Coleção Paz, Defesa e Segurança Internacional;
Editora Unesp;
318 páginas

As relações entre Argentina e Brasil são um tema frequente nas agendas de pesquisa acadêmica no campo das relações internacionais. Historicamente marcadas por uma rivalidade persistente, as relações bilaterais ganharam impulso cooperativo no final dos anos 1980 e, no início da década seguinte, a criação do Mercosul cimentaria a tentativa mútua de alterar o padrão de relacionamento entre os dois maiores países da América do Sul. Enquanto os componentes estratégico e econômico dessas relações foram fartamente analisados ao longo do tempo, menos frequentes são os estudos que destacam os elementos subjetivos, relacionados às crenças dos atores políticos envolvidos no desenvolvimento concreto das relações.

É precisamente sobre este aspecto que se debruça a pesquisa realizada por Érica Cristina A. Winand, publicada no livro Diplomacia e Defesa na Gestão Fernando Henrique Cardoso (1995-2002): História e conjuntura nas relações com a Argentina. O livro – publicado pela coleção Paz, Defesa e Segurança Internacional da Editora Unesp – é resultado de tese de doutoramento defendida pela autora no programa de História e Cultura Política da Unesp, Câmpus de Franca, em 2010.

Como o título adverte, a análise é decomposta em uma face histórica e outra conjuntural, que se articulam para a construção do argumento central da autora: o de que a permanência de uma cultura política de rivalidade entranhada nos corpos diplomático e militar é, do lado brasileiro, um óbice ao aprofundamento de uma dinâmica cooperativa com a Argentina.

Apoiada no instrumental teórico-conceitual da escola francesa de História das Relações Internacionais e incorporando premissas construtivistas, Winand, no primeiro capítulo, esquadrinha minuciosamente a trajetória das relações argentino-brasileiras buscando identificar como a díade rivalidade/cooperação, somada à preponderância do Itamaraty em temas de política externa, moldou as ações brasileiras em relação à Argentina. Através de uma cartografia das relações bilaterais, realizada mediante a análise de fontes diplomáticas e militares, Winand ressalta como se forjou a rivalidade entre os dois países e como isso esteve intimamente relacionado à disputa pela preponderância regional, expressa em conhecidos episódios, como a disputa naval do começo do século XX, as tensões entre Vargas e Perón e o contencioso de Corpus e Itaipu, durante os regimes autoritários.

A autora sustenta que a rivalidade está presente na identidade internacional do Brasil e se incrustou no “âmago do Estado”, constituindo uma “corrente sentimental de longa duração” (p. 90), condicionante estrutural das relações com a Argentina. Aqui, cabe destacar o mérito da obra em evitar habilmente os esquemas estereotipados que, com frequência, marcam as análises do tema. A rivalidade é tomada como força profunda que limita o aprofundamento da cooperação, mas isso não importa dizer que outros padrões de convivência não possam existir e mesmo se impor em determinados momentos. De fato, o que se verifica ao longo da história é a alternância dessas duas gramáticas, sem a superação definitiva da rivalidade, nem tampouco sua conversão em afrontosa inimizade.

Mais adiante, Winand destacará ainda o pendor brasileiro a encarar a cooperação com os países sul-americanos através de um viés instrumental, em favor de sua ambição como ator de peso no âmbito mundial. Ser o fiador da estabilidade regional seria, nessa leitura, uma credencial valiosa para o país se legitimar na política internacional. A construção dessa estabilidade, por sua vez, está intimamente condicionada à forma das relações com a Argentina, o único país do entorno capaz de oferecer resistência concreta ao Brasil.

O livro, construído pela intersecção de passado e presente, retrata as relações bilaterais de forma equilibrada e com farta base empírica

Na última parte da obra são tratados os aspectos conjunturais que envolvem as gestões do ex-presidente FHC. Aqui, o objetivo é concatenar os elementos estruturais destacados – o ideário da rivalidade, a separação entre as burocracias do exterior e militar e a primazia do Itamaraty – na análise da feitura e desdobramentos da Ata de Itaipava, mecanismo de entendimento para cooperação em defesa entre os dois países. A análise realizada é interessante, embora perca em vigor para os capítulos anteriores, o que pode ser consequência de uma questão burocrática. Como a documentação diplomática, fonte primária empregada na tese, somente se desclassifica após  transcorridos dez anos, e o governo de Cardoso encerrou-se em 2002, a autora dispôs, na prática, de poucos meses para avaliar os documentos classificados referentes ao primeiro termo do presidente – liberados para consulta em 2009.

Ainda assim, o entrecruzamento de fatos costurados pela autora fornece um panorama rico do período. Mostra, por exemplo, como a diplomacia brasileira de fato assimilou o pleito argentino de ingresso na Otan, a visão do Brasil sobre exercícios militares conjuntos com a Argentina e a persistência de uma disputa pela liderança regional, mesmo sob um discurso que exaltava a amizade entre Brasília e Buenos Aires.

Ao final, tem-se uma obra relevante para a compreensão de um dos vértices centrais da política externa brasileira, um tema que, nos últimos anos, vem sendo objeto de crescente, embora ainda insuficiente, atenção social. O fato de o livro ser construído pela intersecção de passado e presente, e retratar as relações bilaterais de forma equilibrada e com farta base empírica, reforça a importância do texto.

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Matheus de Oliveira Pereira é mestre em Relações Internacionais pelo Programa San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp, PUC-SP).

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