A(s) face(s) (in)visível(is) da(s) vulnerabilidade(s): desigualdade, gênero, raça

Artigos discutem ações afirmativas, fraudes nas cotas raciais, escolaridade, vulnerabilidade, desigualdade, universidade pública e sociedade

Na análise contemporânea dos desastres naturais a detecção de processos e condicionantes que colocam em xeque o olhar naturalista dos riscos tem sido um exercício fundamental. O interesse é entender o risco para além da perspectiva objetivista e da noção de probabilidade de ocorrência de um evento perigoso, incorporando-o enquanto uma construção social.

Como construção social, o risco inclui fatores subjetivos – associados às diferentes concepções do que seja tolerável ou intolerável, segundo a condição social; e objetivos – relacionados aos diferentes níveis de segurança e defesa civil, que se dá segundo as condições de moradia e dos lugares de convivência.

A identificação dos fatores remete necessariamente à análise da vulnerabilidade. Essa, por sua vez, é considerada lato sensu como o grau de perda do conjunto de elementos expostos em resultado da ocorrência de um processo perigoso (UNISDR, 2012).

Enquanto conceito, a vulnerabilidade evidencia o modo como as estruturas socioespaciais colocam os diversos grupos sociais, indivíduos e áreas de maior ou menor exposição aos perigos. Essa noção mostra que o risco não é só construído socialmente por diferentes grupos, mas que atinge de forma desigual e discriminatória os diversos grupos sociais (ACSELRAD, 2014).

A este exemplo, podemos citar a seletividade dos impactos dos desastres naturais, que repercutem mais significativamente nos países pobres, em uma razão que representa cerca de 96% de óbitos a mais em relação aos países ricos, conforme apontam Leone e Vinet (2006).

Estes autores explicam que a causa mais explícita da vulnerabilidade é indiscutivelmente a pobreza, e faz com que ela seja mais um produto da desigualdade social. A interpretação sugere que grupos sociais e indivíduos vulneráveis são aqueles que não têm acesso a recursos, e a um modo de vida seguro o suficiente para se recuperarem de um acidente ou desastre.

Além das desigualdades, outros pesquisadores incluem outros fatores como faixa etária, gênero, etnia, deficiência (motora e cognitiva), alfabetização, escolaridade, migração, etc. E, neste caso, os exemplos são relativos aos prejuízos e às mortes associados ao Furacão Katrina, quando atingiu as comunidades em Nova Orleans e seu estado vizinho, Mississipi, nos Estados Unidos, e aos desastres em decorrência de fortes chuvas, escorregamento de massa, fluxo de detritos e desmoronamento da região serrana do Rio de Janeiro, no Brasil.

Em ambos os casos, o desastre mostrou que as populações vulneráveis são aquelas que se encontram em risco não porque estão expostas aos perigos, mas como resultado da marginalidade em que vivem, fazendo das suas vidas uma “emergência permanente” (CUTTER, 2003).

No contexto estadunidense, a maioria das vítimas foram mulheres negras e seus filhos. Coincidência ou não, trata-se do grupo mais pobre que faz parte do país, e esta situação parece não ser diferente no caso brasileiro. Veja o mapa sobre o índice de vulnerabilidade social a desastres naturais que mostra que pobreza, raça e gênero formam o rol das principais componentes dos municípios brasileiros.

Mulheres, meninas, meninos e homens, brancos, negros, indígenas, pertencentes a diferentes idades e condições socioeconômicas apresentam vulnerabilidades distintas

Enquanto resultado das condições de desigualdade social, racial e sexual que precedem a ocorrência de eventos perigosos, a vulnerabilidade está relacionada a múltiplos fatores e causas. E ela tem sido revelada cada vez mais claramente, que a problemática dos desastres e dos riscos carece de uma inversão das definições mais correntes, afirmando que a condição de vulnerabilidade não está posta nos sujeitos sociais, mas sim nos processos que os tornam vulneráveis (ACSELRAD, 2014).

Em outras palavras, trata-se de uma alternativa explicativa que coloca que os limites das definições de risco não são definidos a partir das vítimas dos perigos, mas das formas de proteção desigual às quais as populações estão submetidas, como mais uma face dos sistemas de opressão (RIBEIRO, 2014) que em uma organização conjunta e combinada tende a tirar e negar direitos a uma parcela específica da população.

Gênero, raça, faixa etária e classe social formam o rol dos principais fatores explicativos desta questão, e têm sido observados em diversos trabalhos que tratam da questão. Em geral, os estudos mostram que as combinações formam um paradoxo, que explica como problemáticas sociais e ambientais determinam fatores qualitativos para compreensão do risco e da vulnerabilidade na história e no conjunto social. Entender esse processo implica em considerar que a caracterização da vulnerabilidade é mais latente nas populações marginalizadas, isto é, aquelas que estão submetidas a níveis de segregação socioespacial, incorporada também em dimensões racial e de gênero.

Inserir essa discussão na análise da vulnerabilidade aos desastres naturais é entendê-la enquanto face visível e invisível ao mesmo tempo, pois enquanto produto da desigualdade social, de gênero e raça, ela só tende a aumentar e ampliar o distanciamento do direito, da justiça e da dignidade humana.

De outra forma, considerá-la no contexto da Década Internacional de Afrodescendentes (2015-2024) é indicar que a população feminina e preta representa não só um grupo distinto cujos direitos à saúde e à educação precisam ser promovidos e protegidos, mas também que, historicamente subjugadas, essas populações sofrem com um sistema de opressão em outra dimensão. Uma situação que lhes tira a vida cotidianamente, e é tão mais violenta quando da ocorrência dos desastres e dos perigos naturais.

Ou seja, mulheres, meninas, meninos e homens, brancos, negros, indígenas, pertencentes a diferentes idades e condições socioeconômicas apresentam vulnerabilidades distintas, e isso molda a forma como cada grupo experimenta os desastres, os perigos e os riscos, bem como sua capacidade de suportar e recuperar-se de evento danoso.

Essa afirmação é importante, principalmente quando se considera que a razão tem sido de que as mulheres e crianças são 14 vezes mais susceptíveis à morte do que os homens em ocorrência de desastre, conforme aponta o relatório do United Nations Development Programme – UNDP.

Neste contexto, nos países em que a discriminação de gênero é tolerada, mulheres e meninas são particularmente vulneráveis a perigos naturais não somente de percentagem de pessoas atingidas, mas também da maior incidência de estupro, de tráfico e de abuso. Estes, por sua vez, tendem a aumentar exponencialmente em situações durante e pós-desastres. Além disso, na recuperação dos desastres as mulheres e meninas também são submetidas a trabalho não remunerado, como a prestação de cuidados, água e comida e segurança da casa, o que reforça e agrava suas condições e suas vulnerabilidades.

Sem sombra de dúvida, podemos destacar que a visibilidade de temática que considere a vulnerabilidade e a explicitação de cortes de gênero e de raça concorre consideravelmente em parceria com outras lutas por direitos e dignidade humana.

Colocá-la em destaque neste ensaio foi um dos nossos objetivos, e com isso esperamos ter oferecido não só uma contribuição básica e inicial para superação teórica e metodológica do risco e da vulnerabilidade, mas também e principalmente uma contribuição política, para que mulheres, pretas e pobres tenham o direito de existir também nessas análises.

De outro modo, essa discussão só reconhece e problematiza que a segregação socioespacial e a desigualdade são latentes em todas as dimensões da vida dessas populações. É necessária também a orientação para um princípio de desenvolvimento da justiça, dos direitos e da dignidade, inserindo a situação dos perigos naturais e da vulnerabilização como mais uma estratégia de luta e busca de igualdade e democratização entre os seres humanos dotados de humanidade.

___________________________

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ACSELRAD, Henri. Vulnerabilidade ambiental, processos e relações. In: II Encontro Nacional de Produtores e Usuários de Informações sociais, econômicas e territoriais. Rio de Janeiro. Comunicação. Rio de janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 2006.

ACSELRAD, Henri. Justiça ambiental e construção social do risco. In: Desenvolvimento e Meio Ambiente, nº 5, 2002, p. 49 – 60.

CUTTER, Susan. The vulnerability of Science and the Science of vulnerability. Annals of the Associaton of American Geographers, v. 93, n 1. 2003.

ENARSON, Elaine; CHAKRABARTI, PG Dhar (Ed.). Women, gender and disaster: global issues and initiatives. SAGE Publications India, 2009.

HUMMELL, Beatriz Maria de Louyola; CUTTER, Susan L.; EMRICH, Christopher T. Social vulnerability to natural hazards in Brazil. International Journal of Disaster Risk Science, v. 7, n. 2, p. 111-122, 2016.

LEONE, Frédéric; VINET, Freddy. La vulnerabilité, un concept fondamental au coeur des méthodes d’évaluation des risques naturels. In : LEONE, F.; VINET, F. La vulnerabilité des sociétés et des territoires face aux menaces naturelles: analyses géographiques. Montpellier : Université Paul Valery, Collection Géorisques n. 1, 2006.

RIBEIRO, Djamila. Falar em racismo reverso é como acreditar em unicórnios. São Paulo: Carta Capital, 2014.

UNISDR. United Nations Internacional Strategy for Disater Reduction. Annual report 2012, Geneva, Switzerland, 2012.

___________________________

LEIA OS OUTROS ARTIGOS:

Autodeclaração e a ética nas Universidades – Roseli Farias e Frei David Santos OFM

Ações afirmativas na promoção profissional: uma nova ferramenta para o empoderamento – Mônica Gonçalves Matos

Fraudes nas cotas raciais e a persistência do racismo – Marcilene Lena Garcia de Souza

Perspectivas das cotas no Brasil – Irapuã Santana do Nascimento da Silva

Autoidentificação e heteroidentificação como ferramentas de monitoramento – Eueliton Marcelino Coelho Junior

Juventude e escolaridade média de negros e não negros brasileiros – Paulo Pires de Queiroz

Sim às cotas – Vladimir Miguel Rodrigues

Reflexões de um branco: denegrindo mulato e pardo – Adilson Roberto Gonçalves

Conto: João Pedro – Rafael Almeida Ferreira Abrão

___________________________

TEXTO: Lindberg Nascimento Júnior é estudante de doutorado em Geografia na Unesp, Presidente Prudente, onde participa como membro do Coletivo Mãos Negras – Juntas contra o racismo e o preconceito. É professor substituto no Instituto Federal de Santa Catarina, câmpus de Xanxerê, e foi estudante cotista na Universidade Estadual de Londrina.

 

 

 

Deixe uma resposta

*