Sim às cotas

Artigos discutem ações afirmativas, fraudes nas cotas raciais, escolaridade, vulnerabilidade, desigualdade, universidade pública e sociedade

O X de Malcolm e a questão racial norte-
-americana,
Autor: Vladimir Miguel Rodrigues,
Editora Unesp,
202 páginas. Disponível para download em <goo.gl/URxiwP>.

Um dos temas mais difíceis de discutir no Ensino Médio, atualmente, é o das cotas. Estudantes brancos, incrédulos por “perderem” a vaga para cotistas, sempre me questionam sobre o porquê de cotas para mais pobres e negros (pretos e pardos). Lembro-me da máxima de Sartre: “O inferno são os outros”, quando se procuram culpados pelos fracassos. Resolvi reproduzir essa discussão por meio deste texto.

Primeiramente, no terceiro colegial, um aluno disse: “As cotas raciais são racistas”.

Eu indaguei-lhe sobre o que é racismo e ele respondeu: “É isso aí, dar privilégio para os negros”.

Questionei: “Isso é realmente ser racista? Lembremos que o racismo se afirma por meio da falsa crença na diferenciação da humanidade em raças e na superioridade de uma raça sobre a outra. Na História, os europeus fundamentaram mais de três séculos de escravidão em uma superioridade sobre os africanos. Uma atitude racista é aquela que exclui alguém por cor da pele, e os negros são as principais vítimas. Você conhece alguém que deixou de ser contratado por ser branco? Se a cota visa incluir o negro, como ela pode ser racista?”.

O garoto destacou: “Mas por que para negros?”.

Afirmei que os negros são maioria no Brasil, mas minoria nas Universidades, nos melhores empregos; são as maiores vítimas da violência urbana e a maior parte da periferia e de presidiários. A escravidão terminou em 1888, época de nossos bisavós e isso é pouco para a História. Eles podem ter tido escravos e transmitido a noção de superioridade para seus filhos. O racismo é uma construção social. Como Mandela disse: “Ninguém nasce odiando alguém pela cor, as pessoas aprendem isso”.

Continuei: “Como foi o 14 de maio para uma família negra ‘libertada’? O que os governos fizeram para superar a escravidão? Marx disse que a ‘burguesia aceitou acabar com a escravidão quando descobriu o salário mínimo’. Vão-se os anéis, ficam os dedos. A exploração nas fazendas pelos coronéis continuou, pois não houve reforma agrária. Nas cidades, já no século XX, como no Rio de Janeiro, moraram nos cortiços e com a urbanização do presidente Rodrigues Alves (1902-1906) foram para o morro, formando as favelas. Na incipiente indústria, em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, não tinham direitos trabalhistas e políticos. Como iriam para a escola se até a década de 1930 não era obrigatório? E isso continuou posteriormente, na Era Vargas (1930-1945), mesmo com a obrigatoriedade do ensino. Os filhos auxiliavam os pais no trabalho, algo que ocorria principalmente com os negros, afinal ‘trabalho braçal’ era coisa de escravo, e por isso mal remunerado. A partir daí podemos traçar algo que vai construir a realidade atual.

Pense na República Populista (1946-1964), época em que muitos de nossos pais nasceram. Incentivados pela ideia da democracia racial de Gilberto Freyre, os políticos tentaram convencer a sociedade de que o problema era social e não racial. O Brasil, por ser uma sociedade mestiça, não possuía sentimento de superioridade. Todos teriam as mesmas oportunidades Isso é uma falácia. Infelizmente, a cor da pele pode ser determinante para o fracasso ou o sucesso de um brasileiro!”.

Acrescentei: “Nas décadas de 1950 e 1960, se o indivíduo era de família branca, de classe média, tinha muito mais oportunidades de concluir o Ensino Médio e entrar na Universidade, logo, construir carreira e ter acesso a bens. E, a partir disso, nós nascemos nas décadas de 1980 e 1990, herdando, como bem disse Bourdieu, um imenso ‘capital cultural’, manifesto através de todos os bens culturais que nossos pais adquiriram e nos proporcionaram, diferentemente das famílias negras.

Enquanto o ensino for diferenciado entre brancos e negros, ricos e pobres, não existirá outra maneira de levar os mais necessitados às Universidades senão por meio das cotas

Sendo assim, dá para ter uma noção dos motivos de vermos tantos médicos, advogados e engenheiros brancos, e, por outro lado, muitos pedreiros e domésticas negros. Estou falando de gerações pós-escravidão que não tiveram nem oportunidade e nem opção de estudar. Lembre-se que a ONU recomenda que os países invistam em Educação, pois quanto maior o nível educacional, maior a renda. Se o Estado não criar mecanismos para que negros e pobres ascendam, a situação não vai mudar”.

O aluno indagou: “E o negro da elite, ele não deveria receber a cota. O Joaquim Barbosa chegou ao STF sem cota. E a meritocracia?”.

Afirmei: “Esse negro é uma minoria que, aliás, não estou vendo aqui na sala de aula e, mesmo que esteja presente, será, possivelmente, a maior vítima de preconceito na classe. Pesquisa nas escolas de São Paulo mostra que as maiores vítimas de bullying são negros e gays. A sala de aula é um microcosmo do que é a sociedade. Torna-se um espaço de racismo e opressão. Percebo que os negros são prejudicados em sua autoestima. O cabelo é ruim, a cor é feia, a religião é magia, a história é de escravo. Tudo que é negro torna-se depreciativo. Alguém já ‘denegriu’ a sua imagem? A coisa já ficou preta pro seu lado? A professora já pediu para você pegar o lápis cor da pele, o bege? Temos que acabar com isso. Somos fruto de uma construção social que parte da autoestima, da oportunidade e da força de vontade. A meritocracia só existe em um ambiente de plena igualdade e hoje ela é uma utopia. Para o negro tudo é mais difícil. Joaquim Barbosa superou inúmeras barreiras, é uma exceção e conseguiu o seu cargo por indicação política, não se esqueça que ele foi reprovado no exame oral da diplomacia. O negro da elite econômica é uma pequena parcela e a sociedade o visa sempre com desconfiança e grita: ‘conseguiu por que é traficante’, ‘mexe com algo ilegal’, ‘é bandido’”.

No dia seguinte, uma aluna questionou: “A entrada dos cotistas vai reduzir a qualidade da Universidade brasileira?”.

Respondi: “É preciso lembrar que, independentemente do tipo de cota, ela é para os melhores dentro de seus níveis. A vaga não é dada, a concorrência é feita entre os iguais em condições. Estudos da UERJ apontam que, mesmo com dificuldades econômicas, com possibilidade de desistência, o cotista entra com uma nota menor, porém, quando conclui a graduação, sua nota é igual ou até superior, como ocorreu no curso de Medicina. As cotas incluíram nas Universidades milhares de negros e pobres que não teriam oportunidades e que hoje estão quebrando barreiras, ocupando cargos que até então eram monocromáticos e elitistas”.

Terminei a discussão enfatizando que o ideal seria o investimento maciço em Educação, da base ao ensino superior. Quanto tempo isso vai levar? Quantas gerações de negros e pobres ficarão de fora da Universidade até isso ser feito? Enquanto o ensino for diferenciado entre brancos e negros, ricos e pobres, não existirá outra maneira de levar os mais necessitados às Universidades senão por meio das cotas.

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TEXTO: Vladimir Miguel Rodrigues é professor e escritor. Bacharel em Letras/Tradução pela Unesp e licenciado em Filosofia pelo Claretiano. Mestre e doutorando em Letras pela Unesp. É autor do livro O X de Malcolm e a questão racial norte-americana (Editora Unesp).


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