Pesquisando dobras

A união entre ensino, ciência e design por meio do origami

Virar, curvar, torcer, inclinar, rebater, vincar… São todos verbos cuja ação tem em comum o ato de dobrar, que nos remete ao origami, antiga arte oriental que foi redescoberta por cientistas, em meados do século passado, quando iniciaram uma série de estudos voltados à matemática das dobras.

A partir de então, o origami tem permeado por inovações em diversas áreas do conhecimento e tecnologia no mundo todo, como as Ciências da Computação, Engenharia, Arquitetura, Robótica, Astronomia, Medicina, Design e até Genética, com a reformulação de estruturas de DNA de proteínas. Todas estas investigações de técnicas em dobras buscam continuamente o aprimoramento da forma e da estruturação de materiais diversos, como tecido, metal, madeira, otimizando suas propriedades físicas e aprimorando características como resistência, flexibilidade, achatamento e compactação. Há também uma constante procura em resolver questões de economia de espaço e material, melhorias no processo de fabricação, montagem e transporte, o desenvolvimento de produtos com multifuncionalidade e a cinemática de estruturas que se modificam conforme a necessidade de espaço ou situação – estado da arte que o pesquisador Robert J. Lang caracteriza como “pequeno para viagem e grande para o destino”.

 

Concepção de bolsa-origami com reaproveitamento de tecidos usados e embalagens tetra pak - Mestrado Samante Teixeira
Concepção de bolsa-origami com reaproveitamento de tecidos usados e embalagens tetra pak – Mestrado Samante Teixeira

 

A busca por novas fontes de ideias além das existentes no universo do Design é muito importante para o processo e desenvolvimento projetual. Por isso na Unesp de Bauru o origami tem sido um dos mais novos assuntos explorados por duas alunas do Programa de Pós-graduação em Design, em uma linha de investigação que pesquisa a viabilidade de aplicações das técnicas de dobra em estruturas de materiais diversos, possibilitando sua projeção em produtos que podem trazer reais benefícios à indústria, ao usuário e ao meio ambiente.

Em busca de concepções inovadoras, funcionais e práticas para o design de produtos, as pesquisas com origami foram pautadas pela sustentabilidade por meio do reaproveitamento de materiais recicláveis (como caixas tetra pak e roupas usadas) e materiais ecologicamente eficientes (como o Bambu Laminado Colado- BLaC), assim como atentou-se aos processos que gerassem poucos resíduos e desperdícios.

Muitas estruturas projetadas com o raciocínio do origami possuem uma inerente dinâmica de movimento que não prejudica a integridade física dos materiais, mas que potencializa a gama de funções e estratégias de uso dos produtos. Hoje, estudar as técnicas do design de dobras é um imperativo no mercado e nas pesquisas acadêmicas, pois já apresentam aplicações concretas em painéis solares, cujas estruturas em dobras e cortes potencializam a captação da energia solar; telescópios espaciais que se compactam para viagem e inflam no destino; stents medicinais com formas mais compactas que melhoram o desconforto dos pacientes, além de prevenir doenças; arquitetura de abrigos práticos e de fácil locomoção voltados para moradores de rua e vítimas de desastres naturais; embalagens de comida e bebida com dobras estratégicas, que possibilitam acomodar mais conteúdo com menos material. Esses são alguns dos muitos exemplos de design benéficos à sociedade; as possibilidades científicas e projetuais com origami são grandes e estão em constante evolução.

 

 

Para isso, oficinas de origami desempenham um importante papel como primeira iniciativa de contato e interesse aos futuros pesquisadores da área. Aprender sobre o origami é uma prática que se iniciou nas galerias de arte e no ensino acadêmico com o professor alemão Josef Albers (1920), o professor americano Ronald Resch (1950) e a artista brasileira Lygia Clark (1960). Conhecer as propriedades do papel e sua mutação por meio de dobras torna possível a formulação de novas tecnologias emergentes, especialmente dentro do ramo dos metamateriais. Sabendo disso, o origami tem sido uma ferramenta de ensino amplamente explorada na Unesp por meio de oficinas, tendo como público desde estudantes do ensino médio e técnico, de Graduação em Design até adultos da Terceira Idade. O passar de tantos séculos não tornou o origami esquecido ou uma mera prática lúdica, mas o contrário: os novos adventos tecnológicos e a revolução digital trouxeram à tona todo o potencial com que as dobras podem contribuir ao Ensino, às Ciências e ao Design.

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SOBRE AS ALUNAS
Samanta Aline Teixeira
Possui a formação em Mestrado (2017) pela Pós-graduação em Design, Planejamento de Produto, na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Bauru/SP, financiada pela CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Bacharela em Design Gráfico pela mesma instituição em 2012, com Diploma de Mérito Acadêmico, tendo em vista o melhor desempenho da aluna no curso dentro do período diurno. Foi pesquisadora de Iniciação Científica em 2011, financiada pela FAPESP – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Estuda o aspecto dobra/dobradura (origami) em conexão com o Design Contemporâneo. Contato: <laranjasat@gmail.com>.

Thaís Regina Ueno Yamada
Com Doutorado em Design (2016) e Mestrado (2003) em Desenho Industrial pela Universidade Estadual Paulista e graduação em Desenho Industrial com Habilitação em Programação Visual pela mesma instituição (1997), exerceu, de fevereiro de 2002 a junho de 2010, a função de professora titular do curso de Bacharelado em Design do Instituto de Ensino Superior de Bauru. Atualmente, é professora assistente do Departamento de Artes e Representação Gráfica da FAAC – Unesp, atuando nos cursos de Design, Licenciatura em Matemática e Bacharelado em Artes Visuais. Participa como Pesquisadora do Grupo Psicologia da Educação Matemática, do Departamento de Educação da Faculdade de Ciências/Unesp e do Grupo de Pesquisa Linguagem do Espaço e da Forma, do Departamento de Artes e Representação Gráfica/Unesp. Pesquisa nas áreas de expressão gráfica e aplicações de técnicas do origami em projetos de design, tratando de temas como educação gráfica, design gráfico e de produto, educação matemática com o uso do origami e do kirigami. É coordenadora do Projeto de Extensão Universitária UNATI – Universidade Aberta à Terceira Idade, do Câmpus Bauru, e do sub-projeto “Rejuvenescendo com Arte”, que trabalha a arte e a cultura para a terceira idade de Bauru.

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