Reflexões de uma prática pedagógica antirracista: a intervenção brincando conhecemos a África

TEXTO ◘ Maria Fernanda Luiz

Pesquisas evidenciam que é no espaço escolar que muitas(os) educandas(os) têm o primeiro contato com o racismo. É por essa razão que a escola exerce papel preponderante no combate ao racismo.

Em nossa experiência enquanto docente na rede pública estadual e municipal, na cidade de Araraquara, como também enquanto pesquisadora da educação das relações etnorraciais vivenciamos o racismo no espaço escolar, uma vez que este é pensado a partir de uma perspectiva eurocêntrica, o que contribui para o desenvolvimento de atividades que favorecem a branquitude[1]. Acreditamos que com o advento da Lei 10.639/03 se possibilita mudanças voltadas ao reconhecimento e valorização do povo negro.

Sendo assim, nos perguntamos qual é o espaço escolar que queremos: uma escola que trabalha para construção e consolidação das desigualdades entre os indivíduos ou que trabalha numa perspectiva de reconhecimento e valorização dos diferentes grupos etnorraciais com os quais convivemos?
Ressaltamos que, sendo a escola espaço de convivência de diferentes grupos étnicos, sociais e culturais, é lugar privilegiado para reeducação das relações étnicorraciais, o que “impõe aprendizagens entre brancos e negros, trocas de conhecimentos, quebra de desconfianças, projeto conjunto para a construção de uma sociedade justa, igual, equânime” (BRASIL, 2004, p.14).

Por essa razão, buscamos desenvolver a intervenção “Brincando conhecemos a África” junto a educandas(os) dos 3o e 4o anos da Escola Estadual Narciso da Silva César, para difusão e valorização da História e Cultura africana e afro-brasileira, contemplando, então, aspectos da Lei 10.639/03 de forma a apoiar o fortalecimento de identidades e pertencimentos etnorraciais já nos anos iniciais do ensino fundamental.

Cabe destacar que a intervenção “Brincando conhecemos a África”, para além da efetivação da Lei 10.639/03, contribuiu para a sistematização e ampliação da aprendizagem em relação a leitura, produção oral e escrita, análise e reflexão linguística, especificamente, do texto instrucional, como também ocasionou mudança de postura.

Intervenção possibilitou uma primeira aproximação com a temática e contribuiu para o reconhecimento e valorização dessa história e cultura

Após conhecerem e realizarem as brincadeiras de cada um dos países do PALOP[2], sendo em 2012 Angola, Guiné-Bissau, Moçambique, e em 2013 São Tomé e Príncipe e Cabo Verde. As crianças escolheram uma brincadeira de cada país para que com o apoio da professora pudessem realizar a produção oral com destino escrito.

O texto produzido foi revisado coletivamente em dois momentos diferentes. No primeiro momento com foco nos aspectos discursivos e no segundo momento com foco nos aspectos notacionais. Tais procedimentos foram novamente realizados em outro momento quando as(os) educandas(os) realizaram a produção escrita em duplas.

Os textos depois de produzidos e revisados foram reescritos em suas versões finais pelas(os) educandas(os) e, após a escolha de fotos das rodas de brincadeiras realizadas, quatro exemplares do livro foram ilustrados e impressos.

A presente intervenção se fez importante porque o conhecimento da história e cultura africana e afro-brasileira, por meio das conversas e brincadeiras realizadas com os estudantes africanos, possibilitou às(aos) educandas(os) uma primeira aproximação com a temática, como também contribuiu para o reconhecimento e valorização dessa história e cultura, uma vez que se teve a possibilidade de desconstruir visões estereotipadas impostas à população negra.

Salientamos que as(os) professoras(es) que trabalharam com a turma nos anos seguintes apontaram que as(os) educandas(os) participantes da intervenção têm discussão e posicionamento diferenciado acerca dessa temática.

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REFERÊNCIAS
BRASIL. Diretrizes Curriculares Nacionais para educação das relações étnico-raciais e para ensino da história e da cultura afro-brasileira. Brasília, DF: MEC/SEF, 2004.

LUIZ, M.F. 2013.137f. Educação das relações étnico-raciais: Contribuições de cursos de formação continuada de professoras(es) Dissertação (Mestrado em Educação) –Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2013.

NOTAS
[1] Os estudos sobre branqueamento e branquitude realizados pela Psicologia a partir da década de 1990, ao tomarem a raça como uma construção social, evidenciam as relações de poder que essa estrutura leva: ao privilégio simbólico e material dos sujeitos brancos e aos aviltamentos relacionados aos negros em nossa sociedade. Eles mostram que, assim como as categorias de classe e de gênero, a categoria raça constitui, diferencia, hierarquiza e localiza os sujeitos em nossa sociedade. (SANTOS, et all. 2012, p. 12)

[2] Países africanos de língua oficial portuguesa.

FOTO DE ABERTURA: Projeto apresenta a cultura africana para crianças por meio de brincadeiras. Mais informações: <migre.me/wHYQg>. (© Divulgação)

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Maria Fernanda Luiz é professora da rede pública estadual e municipal / Araraquara – SP, vencedora do 7º Prêmio Educar para Igualdade Racial e Gênero na categoria Professora do Ensino Fundamental, doutoranda em Educação pela Universidade Federal de São Carlos – UFSCar – Programa de Pós-graduação. Email: <mfernanda.neab@gmail.com>.

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