Não somos macacos

Não se combate racismo com slogans fajutos e oportunistas

“As únicas pessoas que realmente mudaram a História foram aquelas que mudaram o pensamento dos homens a respeito de si mesmos.” Foi com essa frase que Malcolm X se referiu à condição em que se encontravam os negros norte-americanos em meados dos anos 1950, assolados por fome, discriminação, prostituição, desemprego, mergulhados no consumo de drogas. O próprio Malcolm passou por isso até ser preso por roubo. Na prisão, ao ser doutrinado pelo islamismo, foi alfabetizado e começou a tomar ciência do tamanho da dominação que sofria.

Uma passagem interessante de sua vida ocorre no momento em que ele passa a conhecer os vocábulos do dicionário. No verbete negro ele vê: “destituído de luz, encoberto pela escuridão, sombrio, hostil, medonho como ‘um dia negro’, ‘indicando desgraça, desonra ou culpa’”. Em seguida, checa o verbete branco, associado a “cor da neve pura, sem máculas ou defeitos, inocente, honesto, correto, decente”. Malcolm conclui que até a língua era “branca” e que isso tornava completa a dominação sofrida pelos negros. Essa passagem retrata o universo do negro dos EUA, mas poderia facilmente descrever a situação de qualquer negro brasileiro ou então sul-africano durante o apartheid.

A integração Europa-África-América ocorreu a partir do século XV com as Grandes Navegações, as quais, ao colonizarem o Novo Mundo, trouxeram para cá os africanos na condição de escravos por meio do tráfico negreiro. Este deve ser visto como um holocausto sem precedentes na história da humanidade. As estimativas de africanos que vieram à América aumentam a cada nova pesquisa, podendo alcançar cerca de 20 milhões de almas em 350 anos.

O tráfico era parte de um projeto capitalista em que a Europa entrava com o dinheiro, a América com as terras e a África com as almas. A certeza da superioridade cultural dos europeus, os quais consideravam os africanos outra espécie, foi sendo exercida ao longo da colonização na América e trouxe como consequência a destruição física e cultural dos africanos e seus descendentes, como relatou Eduardo Bueno em seu Brasil: uma história: “O bojo dos navios da danação e da morte era o ventre da besta mercantilista: uma máquina de moer carne, funcionando incessantemente para alimentar as plantações e os engenhos, as minas e as mesas, a casa e as camas dos senhores… e que sobrenomes famosos tenham seu fausto e suas glórias vinculados a tantas desgraças”.

O capital açoitou a negritude de tal forma que impôs aos africanos uma espantosa humilhação na colonização, como relatou o artista francês Jean-Baptiste Debret no século XIX: “O povo admira a habilidade do carrasco que, ao levantar o braço para aplicar o golpe, arranha de leve a epiderme, deixando-a em carne viva depois da terceira chicotada”. Quantos admiraram, recentemente no Rio de Janeiro, a atuação dos “justiceiros urbanos” que bateram e humilharam um menino de rua que tentava cometer um assalto? Como cantam os Racionais Mcs em seu clássico Negro drama, “ver (o negro) pobre e morto é algo cultural”.

A partir do século XIX, a situação racial se transformou para pior, pois deixou de ser algo simplesmente mítico e passou a ser algo “comprobatório”. Ancorados na onda do cientificismo europeu e do boom das Ciências Naturais, cientistas tentaram provar e convenceram milhões de que os negros eram inferiores geneticamente. Embora não intencionalmente, colaboraram para isso as teses de Lamarck, o qual, antes de Darwin, elaborou teses sobre a evolução. Para ele, não haveria seleção natural, como defende o darwinismo, e sim uma força que levou organismos a se tornarem mais complexos, evoluindo de acordo com as características de um determinado ambiente. Segundo o pensamento de Lamarck – que contraria a concepção aceita pela ciência hoje, de que “os humanos teriam uma ancestralidade comum com o macaco” –, seríamos “descendentes diretos dos macacos” e os africanos seriam a primeira etapa dessa evolução, tornando-se o elo entre símios e europeus.

Essa concepção, negada por Darwin, foi aceita como unanimidade entre conservadores no começo do século XIX e era a comprovação que os europeus tanto queriam.

A partir de então, a Europa realmente poderia subjugar os africanos e seus descendentes sem peso na consciência, afinal isso seria legítimo, pois eles eram inferiores biologicamente, mais macacos do que humanos. Surgia o racismo científico, o qual teve como grande representante Adolf Hitler. Como projeto do homem branco “civilizado”, o racismo científico deu base para europeus dominarem a África e a Ásia no Neocolonialismo e para os norte-americanos dominarem as terras a oeste, onde estavam indígenas. No Brasil, colaborou para a extensão da escravidão até o final do século XIX. Concluiu Malcolm X: “Não há capitalismo sem racismo”.

Nos dias atuais, essas teses ainda permeiam as nossas relações sociais. Em um país em que o futebol é prioridade e a educação é tratada de maneira marginal, não poderia ser diferente: somos uma sociedade repleta de ignorantes, que ainda acreditam que os negros são descendentes diretos dos macacos, colocando-os em uma escala inferior, não evoluída, destruindo todas as suas características – o cabelo, o nariz, os lábios, a cor, a religião… tudo aquilo que é do negro é ruim, pejorativo, como já havia mostrado Malcolm X.

Dessa forma, como receber a campanha iniciada por Neymar, o qual anos atrás disse que “não era negro”, e agora convoca todos a dizer “Somos todos macacos”? Por mais positiva que possa ser a sua intenção, trata-se de algo puramente vazio, alienado, típico de pessoas que não conhecem a história da África e de seus descendentes. Neymar deveria aproveitar a sua fama e influência e lutar por boicotar equipes, estádios e dirigentes que são coniventes com práticas racistas, cada vez mais frequentes no Brasil e no mundo. Além disso, deveria denunciar a opressão racial brasileira.

Não se combate racismo com slogans fajutos e oportunistas, e sim com atitudes exemplarmente punitivas, educativas, pedagógicas, que afirmem o orgulho negro, historicamente negado. Que tal “Somos todos negros ou africanos”, uma vez que o primeiro hominídeo foi encontrado na África?

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TEXTO: Vladimir Miguel Rodrigues é professor e escritor. Bacharel em Letras/Tradução pela Unesp e licenciado em Filosofia pelo Claretiano. Mestre e doutorando em Letras pela Unesp. É autor do livro O X de Malcolm e a questão racial norte-americana (Editora Unesp).

FOTO: © Escravidão no Brasil, por Jean-Baptiste Debret/ Wikimedia.

 

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