Por que o Manejo Integrado de doenças ainda não é realidade no Brasil?

O Manejo Integrado constitui a base fundamental para os processos de certificação e rastreabilidade dos produtos agrícolas

No passado, a recomendação de controle de doenças de plantas restringia-se ao fato de que as culturas em campo deveriam estar totalmente “livres” de sintomas por meio de métodos químicos. Não se tinha em mente nenhum critério para aplicação dos defensivos e não havia preocupação com os efeitos nocivos ao homem e ao meio ambiente. Com o surgimento dos primeiros fungicidas sistêmicos na década de 1970 e 1980, o emprego indiscriminado no controle de inúmeras doenças de plantas criou o problema da seleção de indivíduos resistentes na população dos fungos.

De 2000 a 2010 foi constatado que outros fungicidas sistêmicos de diferentes grupos químicos continuaram a perder a eficiência no controle de doenças, notadamente as ferrugens. A partir de 2015, passou-se até a utilizar mistura tripla de fungicidas com mecanismo de ação específico para o controle de uma doença agressiva, a ferrugem da soja.

O que esperar dessa tripla combinação em termos de eficiência a médio e a longo prazo? Assim como as misturas duplas, as triplas provavelmente não terão longa vida, devido ao fato dos grupos empregados nas misturas serem sistêmicos, com mecanismo de ação específico. Dessa maneira, em pouco tempo, provavelmente não teremos mais novos grupos químicos de fungicidas para o controle de certas doenças, principalmente as denominadas “agressivas”.

 

Curso sobre manejo integrado de pragas em soja realizado na Embrapa Trigo em 2014. Uso de armadilha e de pano de batida e identificação de pragas coletadas. (© Vladirene Macedo Vieira /Embrapa)

 

Outro aspecto importante na epidemiologia de certas doenças é a terceira via de disseminação de patógenos, como é o caso do citrus “greening”. Para o controle de doenças que apresentam a terceira via de disseminação, torna-se necessária a atomização de inseticidas para controle do inseto vetor de vírus e bactérias, nas plantações regionais em áreas de produtores que não têm condições econômicas de realizar o controle.

Caso isso seja adotado, aumentará grandemente o número de aplicações de inseticidas em toda a região. Portanto, situações como essa, aliadas à dos pequenos produtores e da grande maioria das grandes empresas agrícolas que não adotam o manejo integrado, colocam em risco a sustentabilidade na agricultura. Portanto, uma luz amarela surgiu e não temos tempo a perder.

Esses e outros problemas fitossanitários nos fazem pensar que o Manejo Integrado tem que ser implantado nos cultivos agrícolas no país, visando uma produção ecologicamente correta e sustentável. Portanto, a ideia do Manejo Integrado, lançada na década de 1960 a 1970, baseou-se no controle racional das doenças e pragas, adotando-se critérios científicos, com conscientização, educação e preocupação ambiental.

A filosofia ganhou adeptos em praticamente todos os centros internacionais de agricultura, pela FAO, por muitos governos em países desenvolvidos e foi recomendada pela Conferência sobre o Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas (Agenda 21, Rio de Janeiro, 1992).
Entretanto, os conceitos e ações do Manejo Integrado, que pareciam racionais para os cientistas, poderiam parecer irracionais para o produtor, apesar dos esforços de algumas instituições de ensino, pesquisa e de empresas multinacionais. Mas devido à falta de conhecimento da real filosofia do Manejo Integrado pelos produtores e ao fato de nem todas as instituições de ensino possuírem em seus quadros profissionais preparados, o Manejo Integrado ficou só nas boas intenções.

Ainda hoje poucas instituições no país têm profissionais que se dedicam ao Manejo Integrado

Por outro lado, será que os produtores entenderam realmente e foram conscientizados do “novo” conceito de proteção de plantas? Com o tempo verificou-se que os produtores tornaram-se resistentes: às tarefas de monitoramento de seus campos periodicamente; à coleta de dados climáticos para avaliar a necessidade de aplicar fungicidas; a depender de um limiar de ação que pode ser excedido antes de ser possível a implantação da tática adequada de manejo; a trocar a segurança de um calendário fixo de pulverizações por um esquema que exige mais atenção, trabalho e maior risco; a perder feriados e fins de semana, porque o limiar de ação foi excedido e a pulverização não pode ser adiada.

Estudos realizados nos Estados Unidos apontaram as vantagens econômicas, mas também a resistência dos organismos a pesticidas, como um dos principais estímulos para a adoção do Manejo Integrado. Como principais obstáculos foram apontados os de caráter técnico, financeiro, educacional, de organização e social. Dentre os obstáculos técnicos, o monitoramento e a determinação dos níveis de ação são os principais entraves.

No Brasil, programas de Manejo Integrado foram e estão sendo implantados para grãos e fruteiras destinados à exportação, por exigência dos países importadores. Os resultados são promissores, implicando em redução do número de aplicações, refletindo em economia para o agricultor e minimização de efeitos adversos ao meio ambiente. Mas os entraves são basicamente os mesmos já citados para os Estados Unidos.

Diante desses fatos, o emprego do Manejo Integrado ainda não é uma realidade para a maioria das grandes empresas agrícolas e tampouco para os pequenos produtores. Além disso, nem sempre os resultados básicos de pesquisas, que geralmente requerem vários anos de trabalhos em campo, para o estabelecimento de suas etapas (nível de dano econômico para tomada de decisão), são obtidos para as nossas condições, sendo, em muitos casos, importados de trabalhos estrangeiros, com níveis de precisão incertos.

 

Pano de batida para amostragem das pragas da lavoura de soja. (© Ronaldo Ronan Rufino /Embrapa)

 

Ainda hoje poucas instituições no país têm profissionais que se dedicam ao Manejo Integrado. A pergunta que os produtores em geral fazem é a seguinte: quais são hoje os incentivos que os produtores têm para adoção do Manejo Integrado? Em 1926, Fawcett & Lee lançaram a seguinte frase: “Na prevenção e no tratamento de doenças, dois aspectos devem sempre ser considerados: a eficiência dos métodos e seus custos”. É óbvio que o custo do método empregado deve ser menor que o prejuízo causado pela doença. Esta frase escrita há mais de 90 anos antecipa o aspecto econômico, uma das ideias básicas do Manejo Integrado.

Como uma filosofia é tão bem aceita no início e pode não se tornar realidade na agricultura brasileira? Quem sabe se houvesse incentivos por parte do governo e demanda dos supermercadistas e das ceasas por produtos agrícolas certificados com rastreabilidade, como demandam os países importadores, o Manejo Integrado já não seria uma realidade em nosso país? O Manejo Integrado constitui a base fundamental para os processos de certificação e rastreabilidade dos produtos agrícolas. Sem o Manejo Integrado não se tem produtos agrícolas certificados e nem rastreados. Essa é a nossa esperança.

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TEXTO POR:
Laércio Zambolim, professor titular do Departamento de Fitopatologia da Universidade Federal de Viçosa, foi Professor Homenageado do IV Congresso Brasileiro de Fitossanidade, realizado em agosto em Uberaba, MG.

FOTO DE ABERTURA: © Ronaldo Ronan Rufino /Embrapa

 

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